O Congresso Nacional retomou nesta segunda-feira (2) os trabalhos sob forte tensão política e institucional, agravada pelo contexto de ano eleitoral. A oposição quer votar já foi derrubada do veto do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ao projeto da dosimetria, que reduz penas dos presos pelo 8 de janeiro, e instala a Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do Banco Master.
“Isso [o projeto da dosimetria] é muito importante, porque a gente vê com muita tristeza o presidente da República vetar um projeto como esse, que tinha como proposta um mínimo de pacificação social, um pouco de justiça para aquelas pessoas que estão sendo perseguidas, condenadas sem culpa, sem individualização da pena”, destacou a líder da Minoria, Bia Kicis (PL-DF).
Essa pauta prioritária mira a primeira sessão conjunta de Câmara e Senado em 2026, que ainda não foi convocada pelo presidente do Congresso, Davi Alcolumbre (União-AP). Parlamentares de direita buscam evitar que a derrubada do veto da dosimetria, que atinge o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), seja retardada ainda mais. Além disso, eles têm pressão em explorar o desgaste para o governo com o escândalo financeiro do Master.
“O projeto da dosimetria talvez seja nesse momento o que mais mobiliza esforços. Creio que vamos derrubar os vetos ao projeto nas próximas semanas”, explicou o vice-líder da oposição no Senado, senador Marcos Rogério (PL-RO).
Ao todo, há 73 vetos presidenciais à espera de deliberação do Congresso. Entre eles, o mais sensível é o veto integral ao Projeto de Lei 2.162/2023, que prevê novas regras para punição de crimes atribuídos aos atos na Praça dos Três Poderes.
“Nós precisamos tirar essas pessoas que são presos políticos [da prisão]perseguidos políticos. Isso não combina com democracia. Temos que votar. Nós tivemos uma excelente votação aqui no Congresso na época que foi proposta e Lula vetou. Agora tenho certeza de que teremos votos suficientes para derrubar o veto do presidente Lula. Essa é uma das prioridades”, explicou o senador Jorge Seif (PL-SC).
A sessão do Congresso para análise dos vetos precisa ser convocada por Alcolumbre, o que ainda não aconteceu. Com a volta dos parlamentares a Brasília, a expectativa da oposição é de que aumente a pressão sobre o senador.
Segundo o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG), a derrubada ao veto da dosimetria é uma forma de o Legislativo “reafirmar sua autonomia” diante do que classifica como excessos do Judiciário e do Executivo.
Os parlamentares conservadores defendem que a derrubada do veto por placar expressivo seja um marco da relação entre o Legislativo e o Palácio do Planalto em 2026.
Do lado governamental, os líderes tentaram conter a inovação e argumentaram que ela acentuaria o impasse entre os poderes, enquanto seus defensores diziam o contrário, evocando pacificação.
Na mensagem encaminhada ao Poder Legislativo, Lula argumenta que a redução das penas “representaria não apenas a impunidade baseada em interesses casuísticos, mas também a ameaça ao ordenamento jurídico e a todo o sistema de garantias fundamentais”. O veto tranca a pauta a partir de 4 de março.
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Leitura do pedido de CPMI na sessão do Congresso dependente de Alcolumbre
Em paralelo à cobrança para se votar os vetos de Lula, o escândalo do Mestre acrescenta nova e tensa demanda oposicionista. Alcolumbre está sendo pressionado a ler o pedido de instalação da CPMI destinado a investigar fraudes e desvios do banco, rombos em fundos de pensão, conexões políticas e conflitos de interesses de autoridades.
O caso Master contaminou o ambiente político e reforçou o discurso oposicionista de que há tentativa de blindagem de personagens influentes. Nesse quadro, o presidente da CPMI do INSS, senador Carlos Viana (Podemos-MG), pediu audiência ao ministro Dias Toffoli, relator do caso no Supremo Tribunal Federal (STF), para destravar as investigações na comissão.
Viana pede a devolução dos dados relacionados ao Mestre que Toffoli tirou o alcance da CPMI do INSS e colocou sob sigilo. O senador afirmou que poderá ingressar com mandato de segurança para reavê-los. A CPMI já havia recorrido ao ministro André Mendonça, do STF, e agendou para quarta-feira (5) depoimento de Daniel Vorcaro, dono do Master.
Segundo Viana, as sucessivas decisões judiciais têm funcionado como uma proteção ao banqueiro, impedindo esclarecimentos fundamentais. A dificuldade real para se abrir uma CPMI dedicada exclusivamente ao caso Master, com a resistência de Alcolumbre e de líderes do Centrão, torna as ações da CPMI do INSS e do Crime Organizado ainda mais estratégicas para a oposição.
Com a aproximação do calendário eleitoral e o aumento de conflitos entre os Poderes, a volta do Congresso promete ser marcada por duros debates e disputas de narrativas. A derrubada do veto à dosimetria e o avanço das investigações sobre o Mestre tendem a se tornar eixos centrais da oposição para constranger o governo, que tenta se desescolarizar da crise.
Nos próximos dias, a oposição pretende usar com justiça a CPMI do INSS para tratar sobre o caso Master, até que haja uma resolução sobre a criação de um colegiado específico para apurar o escândalo bancário. “Temos a CPMI do INSS, que volta a funcionar já na quinta-feira e temos a convocação do [Daniel] Vorcaro. E temos a CPMI do Banco Master, que, alcançando já o número de assinaturas de deputados e senadores, também precisa ser instalada”, disse a deputada Bia Kicis.
A CPMI do INSS oficiou ao ministro do Supremo Tribunal Federal Dias Toffoli o pedido de comparação do banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, para prestar depoimento ao colegiado na quinta-feira (5). No documento, o presidente da comissão esclareceu que a convocação está relacionada com os empréstimos consignados subsídios por aquela instituição financeira a aposentados e pensionistas.
“O depoimento do senhor Vorcaro, como testemunha, é de grande relevância para o colegiado, uma vez que, na condição de presidente da instituição financeira e sob este ponto de vista, poderá esclarecer quanto à contratação dos empréstimos, montantes envolvidos, procedimentos para aferimento do contratante, dentre outros aspectos”, afirmou Viana no ofício.
Para estar cumprindo prisão domiciliar, Viana precisa da autorização de Toffoli para que o convocado seja transportado até Brasília, sob custódia da Polícia Federal. O senador ressaltou que serão garantidos todos os direitos constitucionais de “não autoincriminação, acompanhamento por advogado e tratamento urbano e digno”.
Crise no fundo de pensão do Amapá coloca Alcolumbre contra a CPMI
A pressão pela instalação de uma CPMI para apurar o escândalo do Mestre encontra resistência de Alcolumbre. Como presidente do Congresso, cabe a ele autorizar ou barrar a leitura do requerimento de instalação, mesmo com as assinaturas de autorização parlamentar e a determinação regimental.
Chamou a atenção a decisão de Toffoli de deixar sob a guarda da Presidência do Senado provas colhidas pela Polícia Federal (PF) na operação Compliance Zero, que investiga crimes do Mestre.
Além disso, matéria da Gazeta do Povo citou a ligação do núcleo político de Alcolumbre na Amapá Previdência (Amprev) com o Master. O fundo aplicou R$ 400 milhões em títulos do banco mesmo após alertas contrários.
A indicação de aliados e a presença do irmão de Alcolumbre no órgão fiscalizador constrange Alcolumbre e reforça a resistência do presidente do Senado em permitir uma comissão, num momento em que a oposição promete voltar o caso um dos principais focos do debate político e do semestre.
O senador Eduardo Girão (Novo-CE) enfatizou que já conseguiu reunir as assinaturas necessárias para a instalação de uma comissão de inquérito no Senado e que isso mostra urgência de apurar irregularidades no Mestre, cobrando ainda que Alcolumbre procedeu com a leitura do requerimento para que os trabalhos comecem de fato.
O deputado Carlos Jordy (PL-RJ), um dos articuladores do requerimento da CPMI, também tem defendido uma comissão como instrumento essencial para divulgar a apuração das fraudes bilionárias do Master. Ele argumenta que apenas uma investigação ampla, com a participação de ambas as Casas do Congresso, poderá revelar conexões políticas e institucionais no caso.
Motta sinalizando que vai segura CPI do Master na Câmara
Além do pedido de CPMI, que depende do aval de Davi Alcolumbre, a oposição também articula a possibilidade de instalação de uma CPI sobre o banco Master na Câmara dos Deputados. Além do pedido que deve ser protocolado ainda nesta semana pelo vice-líder da oposição, deputado Carlos Jordy (PL-RJ), outro requerimento sobre o mesmo tema foi apresentado nesta segunda-feira pelo deputado Rodrigo Rollemberg (PSB-DF) com 201 assinaturas.
Apesar disso, o requisito vai para uma fila de CPIs, que tem outras 15 obrigações de temas diversos. Segundo o regimento da Casa, há um limite para o funcionamento de comissões desse tipo. Só podem funcionar simultaneamente na Câmara cinco CPIs criadas a partir de requisitos.
Na semana passada, durante a primeira reunião de líderes, o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), sinalizou que não deve atender ao pleito da oposição para instalar o colegiado neste momento. Uma nova reunião está marcada para esta terça-feira (3), onde a bancada da oposição já sinalizou que pretende fortalecer a pressão para tentar reverter o cenário na Casa.
“A gente vê com muita preocupação o cenário atual de corrupção deslavada, de desmandos e a gente precisa romper com isso”, disse a deputada Bia Kicis.
Especialista prevê debates duros na reabertura dos trabalhos do Congresso
Marcus Deois, diretor da consultoria política Ética, avalia que acordos sobre a definição dos nomes que irão comandar as comissões permanentes e temas tidos como urgentes, como a confirmação do tratado de livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia, deverá avançar no Congresso nos próximos dias, em meio à discussão de pautas de impacto eleitoral.
Enquanto o Acordo Mercosul-UE deverá ter, assim que chegar à análise dos deputados, ceridade na tramitação, uma pauta de segurança pública do governo federal só deverá ser examinada após o feriado de carnaval. A reunião de líderes com o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), definiu essa tendência e entrou na chance de instalar uma CPI do Master na Casa.
Para o especialista, não há no conjunto do Congresso vontade dominante ou mesmo instrumentos políticos capazes de tornar o escândalo do Banco Master uma prioridade na pauta de votações. Apesar da forte pressão da oposição, ele duvida que a maioria dos parlamentares queira que o tema avance. “As intenções vão ficar apenas no quase aproado”. Ou seja, não há limite entre a sinalização e a ação, sem efetiva concretização.
Já o advogado Arcênio Rodrigues, analista político e especialista em Direito Público e Tributário, explica que o escândalo do Banco Master coloca o Congresso Nacional diante de um teste relevante de maturidade democrática. Para ele, mais do que a responsabilização dos indivíduos, está em jogo a substituição dos mecanismos de controle, a confiança pública no sistema financeiro e a legitimidade das decisões institucionais.
“Caso o Parlamento opte pelo silêncio ou por uma atuação superficial, o episódio tende a se consolidar como um símbolo dos limites do Legislativo para investigar interesses cruzados entre política, finanças e poder institucional”, explicou.
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