Shows ficando mais caros? Entenda o que tem causado altos preços de ingressos Ser fã de artista internacional nunca foi uma tarefa fácil, mas é mais custosa que nunca. Fãs de Harry Styles que o digam: os preços dos shows dele no Brasil, marcados para julho, surpreenderam até quem estava com a poupança em dia. Nas redes sociais, não faltam comentários de fãs decepcionados com os preços de shows internacionais. Claro, ver um artista gringo sempre custou um pouco mais. Mas os ingressos não são caros demais? E será que esse problema é só no Brasil? O g1 reuniu especialistas em grandes shows para entender o que está por trás desses preços. Veja abaixo: Aumento vai além da inflação Não é novidade que a pandemia e os conflitos mundiais, como a guerra na Ucrânia, inflacionaram os preços. Mas não é só isso. Ao g1, um produtor de shows internacionais explicou alguns fatores que causaram a alta de ingressos: Aumento do cache: artistas não apresentam mais se sustentam com streams e os shows são suas principais fontes de renda; Shows mais robustos: os artistas estão investindo cada vez mais em shows com grandes aparatos de luzes, vídeo, som e efeitos especiais — e claro, fica caro transportar e montar essas estruturas; Tudo está mais caro: das passagens aéreas ao transporte de carga, períodos, hotéis… tudo isso tem custado mais. O g1 participou das produtoras Live Nation e a 30e, responsáveis pela maior parte dos shows internacionais no Brasil, mas eles não quiseram responder. Preços para o show de Harry Styles em 2022 (esquerda) e em 2026 (direita) Divulgação Estamos vendendo os efeitos na prática. Fãs experimentaram ao comparar os preços de “Love on Tour”, turnê que Harry Styles trouxe em 2022, e dos shows deste ano. Se, antes, a pista custava R$ 358 (inteira, sem taxas), hoje, o mesmo tipo de ingresso é R$ 700. Sim, os valores praticamente dobraram. Essa alteração é muito acima da inflação: nesse tempo, a inflação acumulada ficou em torno de 20% a 25%, o que levaria um rendimento médio de R$ 400 a custar hoje cerca de R$ 450. No caso de Styles, dá pra argumentar que o artista cresceu nesse tempo e que ele deve trazer um show mais robusto desta vez. Mas nem uma banda estável como o Iron Maiden passou ilesa a esse aumento no Brasil: entre 2022 e 2026, no geral, os ingressos dos shows da banda em São Paulo ficaram cerca de 49% mais caros (ou seja, o dobro da inflação). Isso sem contar as taxas. Harry Styles não pode no Grammy 2023 REUTERS/Mario Anzuoni O caso do Brasil É claro que o Brasil tem suas próprias questões. Uma delas é a lei da meia-entrada, que não existe em vários outros países. Um produtor ouvido pelo g1 explica que, como muitos fãs compram a meia, é preciso jogar o preço de toda lá no alto para que a conta feche. Ele conta que outra questão é a tributária. O artista usa o cache para despesas com passagens, transporte de carga, treinamento da equipe, alimentação, pagamento de empresários, ensaios, etc. Mas além disso, o cache não chega inteiro para o artista, porque há cobrança de impostos de impostos. Em alguns países da Europa, é possível que as despesas do artista sejam descontadas antes dos impostos, ou seja, os impostos incidem basicamente sobre o lucro líquido. Mas no Brasil e em alguns países da América do Sul, o imposto é cobrado diretamente sobre o valor bruto do cache que o artista recebe. “Então, para trazer um artista, é preciso que exista um valor mínimo que justifique esses custos. E, para chegar a esse valor, é necessário cobrar um preço médio de ingresso relativamente alto — levando em consideração, ainda, a questão da meia-entrada”, explica o entrevistado. Além disso, hoje, diversas taxas incidem sobre o valor do ingresso: taxas de serviço, de processamento (ou meio de pagamento) e de administração. Essas tarifas existem em outros países, claro. Mas por aqui, o valor de um ingresso (que já não era barato, para início de conversa) acaba sendo inflado em cerca de 20% a 30% com as taxas. Em comunicado emitido na última terça (27), o Procon-SP informou que “desde 2023, já aplicou 3 multas contra a Q2 Ingressos, a Eventim Brasil e a T4F Entretenimento e neste momento possui uma investigação em curso sobre a cobrança indevida de taxas.” Mas o problema também é mundial Não é que os ingressos são caros só no Brasil. Na verdade, até temos uma vantagem: por aqui, não há a prática do “preço dinâmico”, que infla os valores de acordo com a demanda. Isso rendeu um problema enorme para os fãs ingleses do Oasis em 2025. Liam Gallagher durante apresentação do Oasis, em São Paulo Joshua Halling/Divulgação Em alguns lugares, como os Estados Unidos, há variação de preços mesmo dentro de um mesmo setor. Quanto mais perto do palco ou melhor a vista, mais caro o ingresso. “Eu sempre digo para todo o mundo: antes de chorar, olha quanto estão pagando os outros fãs dos Estados Unidos, que são realmente o mercado mais caro. É onde os artistas fazem a festa, onde o onde eles vão mais ganhar, vai ser nos EUA. Menos impostos, mais mercado, cobra-se mais caro, tem a melhor infraestrutura para receber os shows”, diz o entrevistado. Até o Trump já disse que os shows estão com “preços malucos”. Há anos, a Ticketmaster enfrenta processos de órgãos americanos, sob acusações de preços predatórios, taxas enganosas e monopólio da indústria (a ticketeria se tornou a principal do mundo após a fusão com a Live Nation, em 2010). O sucesso desse tipo de bilheteria tem a ver com o modelo de negócio: se antes a casa de shows arcava com a operação de vendas, hoje, parte desses custos é paga pelo consumidor na compra online. Taylor Swift no Estádio Nilson Santos, em 2023 Stephanie Rodrigues/g1 Tudo isso para um processo de compra que pode ser bem frustrante, além do preço exorbitante. Por isso, nem os artistas estão felizes: Taylor Swift, Pearl Jam, Robert Smith e Bruce Springsteen estão entre os nomes que já “compraram briga” com a Ticketmaster. Mas até hoje, encontrei poucas saídas. Por enquanto, a perspectiva não é boa: se os shows continuam esgotando, infelizmente, o mercado não tem estímulo algum pra baixar os preços. Resta aos fãs entender até onde dá pra pagar.

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