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O que esperar do indicado de Trump ao Fed

Por Redação
17 de fevereiro de 2026
Em Entretenimento
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O que esperar do indicado de Trump ao Fed
Twitter1128254686redacaobcn@gmail.com



O presidente dos EUA, Donald Trump, escolheu o financista Kevin Warsh para presidir o Federal Reserve (Fed, na sigla em inglês) na expectativa de que ele reduza as taxas de juros do país, hoje na faixa de 3,5% a 3,75%. A meta virou prioridade no governo e levou Trump a pressionar o atual presidente do banco central, Jerome Powell.

Nesse cenário, Warsh, que já trabalhou no Fed, terá dois desafios principais: equilibrar a independência da instituição com os interesses da Casa Branca e manter a confiança do mercado diante das dúvidas sobre seu perfil na condução da política monetária — tarefas que, como mostra a história, nem sempre terminam bem quando a política se impõe sobre o banco central.

Warsh deve assumir o Fed a partir de maio. Sua nomeação, entretanto, ainda requer confirmação do Senado. A sabatina deve acontecer entre fevereiro e março.

O currículo de Kevin Warsh mostra que ele não é um iniciante na gestão de políticas econômicas. Nas últimas décadas, atuou como o membro do Conselho de Governadores mais jovem do Fed, foi assessor econômico do presidente George W. Bush, banqueiro em Wall Street e, por pouco, não assumiu a presidência do banco central dos EUA em 2017, durante a primeira gestão de Trump. Na época, o republicano optou por indicar Powell para considerar um nome de continuidade e mais alinhado a uma política monetária gradual, enquanto havia dúvidas sobre a disposição de Warsh para manter juros em patamares menores por mais tempo.

Independência do Fed em jogo e um lembrete histórico

A principal preocupação entre os analistas, economistas e investidores nos últimos meses em relação ao Fed foi a pressão política do presidente Trump para a redução das taxas de juros, algo que Powell não acatou e acabou sendo alvo de uma investigação do Departamento de Justiça, relacionada ao aumento dos custos da reforma da sede do banco central.

A indicação de Warsh levanta uma questão fundamental que envolve a politização do Federal Reserve. A independência do banco central dos EUA foi testada em diferentes administrações ao longo da história americana, razão pela qual quais decisões sobre taxas de juros, controle da inflação e estabilidade financeira precisaram ser protegidas da política eleitoral.

Um dos exemplos é o do ex-presidente Richard Nixon (1969-1974), que pressionou fortemente o Fed e seu presidente da época, Arthur Burns, para afrouxar a política monetária e baixar as taxas de juros, evoluindo as eleições de 1972. Como resultado, os EUA sofreram consequências de longo prazo com uma inflação elevada, que saltou de 5,3% em 1970 para 11,8% em 1974.

Além da pressão sobre os juros, em agosto de 1971, Nixon suspendeu a conversibilidade do dólar em ouro, iniciando uma era de dinheiro fiduciário, ação que ficou conhecida como “Choque Nixon”. Com a medida, o governo colocou fim ao vínculo do valor por onça de ouro com o dólar e passou a basear o valor da moeda apenas na confiança no Fed e no governo. Países estrangeiros também não puderam trocar dólares por ouro.

Kevin Warsh se encontra em um dilema semelhante e terá um grande desafio de manter o banco independente em meio à pressão política, que pode gerar desequilíbrios de longo prazo para a economia americana.

Sua nomeação é vista por alguns analistas dentro de um cenário crítico, no qual a Casa Branca busca exercer ampla influência sobre a política monetária. Dado o discurso público de Trump criticando Powell nos últimos meses e pressionando por sua saída antecipada, o presidente viu em Warsh alguém de confiança que deveria seguir sua agenda de redução das taxas de juros.

O líder da Casa Branca afirmou em diversos benefícios que deseja ver as taxas de hipotecas mais baixas – atualmente elas estão um pouco acima de 6% – visto que se fez um ponto crítico para os compradores de imóveis. Em entrevista a Larry Kudlow, da Negócios da Raposao indicado à presidência do Fed sugeriu que poderia “reduzir bastante as taxas de juros e, com isso, viabilizar hipotecas de taxa fixa de 30 anos para que sejam possíveis e possamos reativar o mercado imobiliário”.

As visões do financeiro sobre política monetária, entretanto, são consideradas há muito tempo agressivas. Isso significa que ele tem uma tendência a manter uma política mais restritiva, com taxas de juros mais altas para manter a inflação sob controle.

Apesar disso, em declarações recentes após sua nomeação, ele demonstrou certo alinhamento com a agenda de Trump, argumentando que o aumento da produtividade e o “boom” da Inteligência Artificial (IA) ​​estão apresentando terreno para um crescimento acelerado que não ameaça uma alta da inflação, mesmo com o índice acima da meta de 2% do Fed – os EUA tiveram uma inflação de 2,7% em 2025. Resta acompanhar como ele se portará em relação à interferência às de interferência do governo federal.

Para Marcello Marin, mestre em Governança Corporativa e especialista em recuperação judicial, o risco do banco central americano perder sua independência é precipitação. “O Fed tem mandato, estrutura colegiada e regras próprias, mas pode haver uma crise de confiança caso o mercado perceba um alinhamento político nas decisões”.

Adriana Melo, especialista em Finanças e Tributação, também avalia que não há evidências de uma perda de independência institucional do Fed.

“Existe risco real de atrito institucional. Warsh já defendeu publicamente a independência operacional do Fed, com prestação de contas, e tratou essa independência como algo que precisa ser prático. O ponto de atenção é o contexto: Trump criticou [Jerome] Powell e pressionou por taxas de juros mais baixas. Se o mercado interpretar suas decisões como politizadas, a independência sofre por erosão de alteração, não por ruptura formal”, destacou.

O que esperar de Warsh no comando do banco central americano

Após a indicação de Warsh, os principais índices de ações dos EUA caíram, o dólar se valorizou e os metais preciosos despencaram, com a prata registrando sua pior queda diária desde 1980 e o ouro tendo um dos piores dias em décadas – questionando dúvidas do mercado sobre o perfil de Warsh e a direção da política monetária que o Fed terá sob sua liderança.

Em entrevista à Bloombergestrategistas do Citigroup, empresa de serviços financeiros sediados em Nova York, avaliaram que Warsh provavelmente adotará uma abordagem gradual para reduzir o portfólio de US$ 6,6 trilhões do banco central americano, a fim de evitar pressões no mercado monetário. Esse portfólio é formado principalmente por títulos do Tesouro e papéis vinculados a financiamentos imobiliários que o Fed comprou ao longo dos anos para estimular a economia. Ao comprar esses papéis, o banco central dos EUA injetou dinheiro no sistema financeiro, ajudando a manter os juros mais baixos.

Essa estratégia foi amplamente utilizada após a crise financeira de 2008 e durante a pandemia de Covid-19. Em 2022, o volume desses ativos chegou a cerca de US$ 9 trilhões. Desde então, o Fed veio diminuir esse valor — um processo conhecido como aperto quantitativo — até os atuais US$ 6,6 trilhões, mas abandonou tal prática em dezembro, depois que as taxas no mercado de recompra – operações de curtíssimo prazo com títulos usados ​​por bancos e outras instituições para obter liquidez – dispararam.

Em discurso em abril de 2025, Warsh afirmou que o balanço inchado do Fed virou um “sinal da intervenção crescente do banco central na economia”. Mas na visão dos analistas, a retomada da redução do balanço patrimonial poderia reaparecer como pressão no mercado.

Sobre a redução das taxas hipotecárias, Bill English, professor de Yale e ex-diretor da divisão de assuntos monetários do Fed, explicou ao O Washington Post que apenas mexer no balanço patrimonial não seria suficiente para seu objetivo.

“Se tudo o que ele faz para reduzir o balanço patrimonial do Fed, é difícil ver como isso seria compatível com taxas de hipotecas mais baixas, e isso cria certa tensão com o presidente”, avalia.

Warsh já defendeu que planeja “mudar o regime dentro do Fed”. Segundo ele, isso estaria ligado a um retorno ao que um banco central deve fazer, que é garantir a estabilidade de preços.

“O Fed perdeu o boato. Perdeu o boato na supervisão, perdeu o boato na política monetária”, disse Warsh em uma entrevista no ano passado. “Precisamos de uma mudança de regime no Fed, e isso não é apenas sobre o presidente. É sobre toda uma gama de pessoas, é sobre mudar a mentalidade e os modelos deles e, francamente, é sobre dar umas sacudidas, porque a forma como têm feito as coisas não está funcionando”.

Ele também esclarece que uma instituição deve se concentrar na moeda, não no emprego inclusivo, nas mudanças climáticas ou em outros objetivos políticos, ou que se alinhe aos interesses de Trump.

O especialista Marcello Marin destacou à Gazeta do Povo que Kevin Warsh possui um perfil mais conservador, o que pode ser positivo na hora de decidir a formação de políticas monetárias.

“Se confirmado pelo Senado, a expectativa é de decisões com foco em substituição, controle da inflação e comunicação mais firme, possivelmente com menor tolerância a estímulos prologados e maior preocupação com efeitos de liquidez e preços de ativos”, pontuado.

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Tags: alimentadobanco centraldonald trumpesperarFedindicadoinflaçãoTrump
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