
No Brasil, a influenciada Beta B.oechat foi uma das primeiras desse segmentos a emagrecer Divulgação Há cerca de uma década, enquanto blogueiras ostentavam dietas restritas e barrigas negativas, um movimento na direção passou a ganhar atenção em todo o mundo: o body Positive ou body positivity (positividade corporal, em inglês). A iniciativa que prega o amor próprio e a liberdade de todos os corpos, independentemente da forma física, passou a ocupar espaço relevante nas redes. 📱Favorito o g1 no Google e acompanhe as principais notícias do dia O movimento ganhou vozes e corpos diversos no Brasil e teve o seu auge por volta dos anos de 2019 a 2022. Na esteira da autoaceitação, marcas viram a oportunidade para faturar com iniciativas distintas a diferentes formas físicas. Nos últimos anos, porém, especialistas apontam que o movimento perdeu força em todo o mundo. As passarelas já não dão o mesmo espaço aos corpos fora do padrão e as marcas cada vez menos apoiam campanhas sobre diversidade. O corpo positivo entrou em crise. Nesse mesmo período, figuras que promoviam esse movimento e compartilhavam suas experiências como pessoas gordas decidiram emagrecer. Com isso, elas enfrentaram críticas e questionamentos. Militância que se voltou contra ativistas que passaram por mudanças no mundo, um dos casos de emagrecimento mais famosos é o da influenciadora americana Thubten Donme, que era um dos nomes do movimento nos Estados Unidos. Ela era modelo plus size e publicava mensagens sobre limites corporais. Em 2023, seguidores notaram que Thubten estava emagrecendo e ela passou a ser alvo de críticas de antigos apoiadores. No Brasil, a influenciadora Beta Boechat, de 36 anos, foi uma das primeiras desse segmento a emagrecer. Ela foi uma das fundadoras do Corpo Livre, uma interpretação brasileira do movimento. Na época, justificou nas redes a decisão de passar por uma cirurgia bariátrica para perder peso. “Cheguei aos 220 quilos e fiquei em um nível que perdi minha mobilidade 100%”, disse. Beta também passou a ser alvo de críticas. Para a influenciada, muitas pessoas não entenderam o que ela defendia no corpo positivo. “Me cobram para seguir uma cartilha que elas próprias conquistas para tentar me enquadrar. Eu nunca falei que as pessoas não podiam emagrecer, muito pelo contrário. Mas o simples fato de alguém ir a público falar ‘hoje eu estou bem com o meu corpo’ era tão agressivo que as pessoas entenderam: “por favor, almoce pizza e jante hambúrguer todo dia ou engorde, sim, por favor, o importante é engordar'”, diz Beta. A influenciada não fala mais sobre o movimento nas redes. Ela conseguiu conquistar um novo público com vídeos em que reage a conteúdo de humor. Neste ano, se tornou apresentadora de um programa na Dia TV, uma plataforma digital de televisão “Meu conteúdo reflete o que eu vivo. Falei sobre acessibilidade porque naquele momento era o que eu mais precisava trabalhar em mim mesma. Em algum momento, essas necessidades foram migrando”, contou a influenciada, que nos últimos anos também manifestou a transição de gênero em seus perfis. Outra responsável pela criação do movimento Corpo Livre, a influenciada Alexandra Gurgel, de 37 anos, também parou de falar sobre o corpo positivo. No passado, ela lançou dois livros sobre o tema, foi capa de revistas e se tornou uma das principais vozes do movimento no país. “Eu de fato descobri que eu estava fazendo alguma diferença e eu sinto que eu fiz legal. Eu me senti culpado por um bom tempo quando saí disso. Mas chegou uma hora em que isso não fazia mais sentido pra minha vida”, diz Alexandra, que hoje faz vídeos em que conta histórias curiosas de relacionamentos. “É cansativo. Eu comecei a me tornar a militante perfeita, que não podia errar”, acrescenta. Atualmente, ela está em processo de emagrecimento. “Agora parece que a gente emagreceu e virou um monte de Gisele Bündchen. E a gente, na verdade, só está mais magro. A maioria ainda é lido como gordo socialmente.” No auge do corpo positivo, diz Alexandra, havia uma pressão daqueles que a acompanhavam nas redes para que ela e outros militantes da causa não emagrecessem, pois muitos defendem que o movimento era sobre continuar gordo. “Quando você vê pessoas gordas emagrecendo, quem não entende essa pauta acha que o corpo positivo acabou, mas não acabou nada. Na verdade, todo mundo sempre quis ser livre, por isso era Corpo Livre”, declara. Brasil, correspondeu a 97,1% dos looks Já o médio (entre 42 e 48 no Brasil) correspondeu a 2%, enquanto apenas 0,9% das roupas eram plus size (acima de 46). 4,4% dos looks eram médios ou grandes. A Vogue menciona que um dos fatores para inclusão limitada nas passarelas é uma mudança cultural nos últimos dois anos, marcada pelo fortalecimento do conservadorismo. racial, enfim, qualquer uma. Isso afetou as empresas internacionais com sede no Brasil”, diz Dani. “E isso enfraqueceu o discurso da diversidade. Cada vez mais empresas deixaram de patrocinar essas ações”, acrescenta. Esse discurso de Trump reforça as dificuldades do corpo positivo, que já vêm sendo afetadas desde o fim da pandemia de covid-19, avalia o pesquisador Dario Caldas, fundador da consultoria Observatório de Sinais, focado em tendências de comportamento de consumo. A inspiradara Alexandra Gurgel. No auge do corpo positivo, ela conta que havia uma pressão para que ela e outros militantes da causa não emagrecessem. Arquivo pessoal Segundo ele, nessa fase, as pessoas queriam levar uma vida mais saudável e a obesidade foi ainda mais associada às práticas ruins, como o sedentarismo “O problema do corpo positivo é que ele esbarra na questão da saúde, da obesidade, então é aí que as coisas se chocam. E esse vetor da saúde é o que leva ao desejo de ser saudável e não acompanhar esse movimento mais”, diz. Para os ativistas do corpo positivo, sempre houve uma interpretação errônea do movimento por parte de muitas pessoas. Isso porque eles apontam que o movimento nunca foi uma forma de estímulo à obesidade ou uma romantização dela. “Havia um movimento dentro do corpo positivo que era liderado por extremistas, com algumas criadoras gordas com conteúdo mais radical sobre a gordofobia. Esse movimento foi muito disruptivo, porque mulheres muito gordas andavam de biquínis, faziam passagens e fotos, era algo do tipo: me engula, me respeite, aceite o meu peso porque não estou nem aí”, diz Dani. “E esse movimento, de certa forma, foi importante, porque era ‘pé na porta’, dava visibilidade ao tema. Mas o corpo positivo em si não é isso, ele é a aplicação de um respeito equilibrado a diferentes corpos e tamanhos”, acrescenta Dani. As canetas emagrecedoras Diante de um cenário de enfraquecimento, o corpo positivo causou uma nova mudança: a expansão das canetas emagrecedoras. emagrecer vai ter a possibilidade de chegar a um corpo, mais amplo, mais normalizado pela sociedade. Isso se torna uma possibilidade realmente concreta e segura”, diz. “Essas canetas podem promover mais saúde, redução da gordura corporal de quem tem obesidade, que geralmente luta a vida inteira para isso. Hoje esse processo é facilitado por essas canetas emagrecedoras”, acrescenta. O especialista afirma que esses novos medicamentos também ajudaram a quebrar estigmas que acompanham as pessoas gordas durante toda a vida, como o de que não emagrecem por falta de vontade ou porque não conseguem ser saudáveis. “O excesso de gordura corporal é um fator de risco para doenças múltiplas. Mas também é importante dizer que o estigma do corpo gordo é prejudicial para esse sujeito, porque traz uma série de malefícios”, diz Gualano. “A obesidade é uma doença crônica. Você pode, por exemplo, até dizer que é um indivíduo fisicamente ativo e com obesidade”, acrescenta. A endocrinologista Maria Edna de Melo, coordenadora da comissão de políticas públicas da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica (Abeso), classifica o corpo positivo como uma iniciativa importante para as pessoas gordas. “O paciente com obesidade, em geral, enfrenta muito estigma em os lugares. Então, esses ativistas têm um papel relevante para que essas pessoas com obesidade possam reivindicar seu papel na sociedade”, diz. A médica defende que os membros desse movimento possam emagrecer. “Tem uma hora em que a doença pode pesar mais. Essas pessoas, como todo o mundo, devem ter as suas decisões respeitadas”, afirma. E quem ainda fala de corpo positivo? Os influenciadores que foram referência no corpo positivo dizem que o movimento não acabou, mas mudou de forma. “Não foi porque eu saí que eu traí o movimento ou que ele acabou. Eu sinto que nada acabou, só está sendo tratado de uma maneira diferente”, diz Alexandra. “O que a gente ensinou e praticou ainda existe. Se você olhar no TikTok, por exemplo, ele tem outro nome. Virou algo sobre a autoestima, sobre você se sentir bem consigo mesmo. É uma coisa mais liberal. “Ainda publico dicas sobre o mercado plus size e outros temas.” brasileira. “O corpo positivo continua, ele sempre existe e precisa existir, porque nós não somos iguais, somos diferentes e lutamos pelo respeito. E eu sempre defenderei o seu direito de escolha, seja você gordo ou magro, e o seu direito de existir enquanto formato corporal único”, afirma.
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