O ex-banqueiro Daniel Vorcaro admitiu em sua segunda proposta de colaboração premiada que o contrato de R$ 129 milhões com o escritório de advocacia da mulher de Alexandre de Moraes era uma tentativa de conseguir uma aproximação com o ministro do STF. Mas Vorcaro também disse no documento que Moraes não lhe apresentou nenhum benefício ou favorecimento, apurou a reportagem.
UM Gazeta do Povo Admitiu o ministro Moraes para se manifestar, mas até a publicação da reportagem não obteve retorno. O espaço segue aberto.
As colocações de Vorcaro na proposta de delação recusada foram interpretadas por investigadores envolvidos com o caso como uma tentativa de “absolver” Moraes após a revelação do contrato milionário com o escritório de advocacia de sua esposa, Viviane Barci de Moraes.
Na proposta de delação, Vorcaro também tentou explicar contatos diretos e presenciais com Moraes, que aparecem documentados principalmente em seus diálogos com sua ex-noiva. O ex-banqueiro disse em sua proposta de delação se tratarem de encontros de natureza institucional e social.
Mas ele não explicou suas falas, como “Alguma novidade? Conseguiu ter notícia ou bloquear?”, que fez parte de mensagens que foram trocadas por WhatsApp com o ministro. Quando eles chegaram ao público, Moraes negou ter encerrado o diálogo com o ex-banqueiro.
Em sua justificativa na delação, o empresário disse ser legal o contrato do Master com o escritório Barci de Moraes no valor de R$ 129 milhões firmado em fevereiro de 2024.
O pagamento tinha prazo de 36 meses e parcelas monetárias de R$ 3,6 milhões. Dados da Receita Federal indicam que 22 parcelas foram quitadas, somando R$ 80,2 milhões. Os pagamentos efetuados até a próxima à liquidação do Master e a realização da primeira fase do Compliance Zero, que levaram Vorcaro à prisão em novembro passado.
Especialista vê “aproximação duvidosa” e que PGR deveria apurar
Para o professor de Direito Constitucional, Alessandro Chiarottino, a própria nomeação de Vorcaro, que buscou uma aproximação com Moraes, seria um elemento que, no mínimo, justificaria o aprofundamento investigativo pelas autoridades, como a Procuradoria-Geral da República.
“No mínimo, trata-se de uma aproximação duvidosa, com altos valores envolvidos”, afirmou o especialista.
Segundo Chiarottino, os elementos conhecidos até o momento não permitem concluir pela prática de crimes, uma vez que não há provas de contrapartidas ou de qualquer atuação irregular por parte do ministro. Ainda assim, ele sustenta que a combinação entre a intenção de aproximação e as cifras milionárias tornam a relação suficientemente relevante para ser objeto de apuração.
“Não podemos afirmar que houve corrupção ou advocacia administrativa envolvida, mas certamente é uma relação a se investigar”, disse.
Intenção de aproximação não configura crime sem tentativas de obtenção de benefícios
Analistas alertam que as colocações de Vorcaro abrem uma discussão jurídica. A intenção de se aproximar de uma autoridade não configura crime, mas a existência de um contrato com o escritório de familiares do ministro do Supremo abre debates éticos.
O ordenamento jurídico brasileiro não proíbe que os empresários mantenham relações sociais ou institucionais com autoridades, nem impede que os escritórios de advocacia de familiares de ministros do STF prestem serviços à iniciativa privada.
Assim, a versão apresentada por Vorcaro, de que pretendia uma aproximação, mas que ela não se concretizou e não resultou em qualquer favorecimento ou contrapartida do ministro, evitaria a configuração de delitos como corrupção ativa, passiva e advocacia administrativa.
“Contratos com valores elevados podem levantar questionamentos à proporcionalidade econômica do negócio, à efetiva prestação dos serviços e a eventual indireta de obtenção de acesso privilegiado ou influência institucional”, alerta o advogado, especialista em Direito Constitucional André Marsiglia.
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Alessandro Chiarottino avalia que a desproporção do contrato “levanta dúvidas de corrupção ativa por parte de Vorcaro”. Mas não se trataria de um crime consumado, sobretudo na falta de mais elementos.
A doutora e professora em Direito Público e Ética, Clarisse Andrade ressalta que não é o valor em si que criminalizaria a conduta, mas o que pode revelar especificamente pelo negócio. “Caso se prove que os serviços foram prestados e não houve pedido de favorecimento ou prática de ato de ofício por parte do ministro, o contrato poderá ser enquadrado juridicamente como uma relação privada, ainda que de cifras naturais”, reforça.
Pagamento por vantagens indevidas pode ser considerado crime
Por outro lado, lembra Andrade, surgem elementos capazes de demonstrar que o contrato foi utilizado como instrumento de concessão de influência indevida, acesso privilegiado ou intermediação de interesses, o caso poderia, em tese, ser aplicado de forma mais criteriosa. Para a configuração de delitos seria necessária a comprovação de vantagens indevidas associadas a um ato concreto ou à promessa de influência sobre decisões de agentes públicos.
Segundo o doutor em Direito pela Universidade de São Paulo e comentarista político Luiz Augusto Módolo, a própria concepção tradicional dos crimes de corrupção apresenta uma “falha de origem”, ao criar a percepção de que a ilicitude somente estaria configurada em situações evidentes, “como se existisse corrupção apenas quando uma mala mudasse de dono debaixo da mesa”.
Método ressalta que se alguém fica procurando próximo de certas pessoas em posições-chave, é preciso se questionar por quais motivos isso ocorre.
Para ele, é necessário refletir se é prudente que as autoridades públicas evitem relações próximas quando parentes ou amigos atuam em casos sensíveis, uma vez que tais situações podem gerar suspeitas e comprometer a percepção de imparcialidade institucional.
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Minuta de contrato não assinada pagamento prévio de R$ 50 milhões
Outro ponto de atenção no caso foi identificado durante buscas em endereços ligados a Vorcaro. A PF encontrou uma minuta de outro contrato, sem assinatura, que seria firmado entre uma empresa do grupo e o escritório Barci de Moraes. Chamou atenção que o valor era próximo ao que deixou de ser pago no primeiro contrato de R$ 129 milhões.
O ex-banqueiro apresentou o documento como complementação de honorários devidos, mas disse que o acordo jamais foi assinado. Sobre o documento de R$ 50 milhões, o escritório Barci de Moraes disse que “não concretizou nenhum outro contrato com Daniel Vorcaro ou qualquer de suas empresas, não tendo prestado serviços de advocatícios nem tampouco recebimento de qualquer valor em honorários”.
O Barci de Moraes havia vínculo reconhecido anterior com o Mestre. Os serviços prestados de fevereiro de 2024 a novembro de 2025 envolveram consultoria jurídica em governança corporativa, relacionamento com o poder público e reestruturação de políticas de compliance. O escritório disse ter mobilizado 15 advogados, coordenado três escritórios contratados que realizaram 94 reuniões de trabalho na sede do banco e produziram 36 pareceres jurídicos.
Os honorários foram justificados pela complexidade e abrangência dos trabalhos. O escritório disse que em nenhum momento atuou em favor do Mestre ou de seus executivos em demandas no STF, descartando canal de influência com Alexandre de Moraes.
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Vorcaro fala em contatos sociais e institucionais
Sobre os supostos contatos diretos com Moraes, Vorcaro disse em sua proposta de delação se tratar de encontros de natureza institucional e social. Ele teria mencionado que o ministro esteve em sua casa em benefícios sociais e que ambos participaram de eventos em comum, mas sem irregularidade ou conflito de interesses.
Em mensagens trocadas com sua ex-noiva, vazadas durante as investigações, Vorcaro mencionava encontros com “Alexandre Moraes”, o que poderia ser uma referência ao ministro.
Informações extraídas pela PF do telefone do ex-banqueiro colocaram Moraes no centro do escândalo Master. O material apontou para troca de mensagens não oficiais entre ambos. Vorcaro relatou ao interlocutor a tentativa de venda do Mestre e fez referências a um inquérito sigiloso que, na sequência, resultaria em sua prisão.
Os contatos ocorreram em graças específicas. Os mais emblemáticos se concentraram no dia da prisão do banqueiro, com conversas que se estenderam por quase 14 horas, das 7h até pouco antes de Vorcaro ser detido dentro de seu jatinho, em 17 de novembro passado.
Apenas as mensagens do ex-banqueiro foram recuperadas do celular de Vorcaro. O interlocutor, que poderia ser o número de celular de Moraes, segunda denúncia do jornal O Globovocê teria utilizado um recurso de visualização único que eliminaria o conteúdo após a leitura. O STF negou a autoria de Moraes nessas respostas e indicou que os textos estariam vinculados a outros contatos e não ao do ministro.
Em uma das mensagens, Vorcaro relatou esforços para fechar a venda do Master com investidores estrangeiros e escreveu: “Fiz uma correria aqui para tentar salvar (…) Alguma novidade? Conseguiu ter notícia ou bloquear?”; Os investigadores interpretaram como possível tentativa de interferir ou reverter decisões judiciais. Ela teria recebido resposta, em visualização única, sem conteúdo recuperável.
Em um dos últimos registros antes da prisão, Vorcaro sinalizou, concluiu ao ministro, que a negociação com o grupo estrangeiro havia chegado ao limite do possível e a medida poderia “inibir”, sem especificar o quê. Depois disso, informou que estava indo “assinar com os investidores de fora”, indicando saída do país. O interlocutor teria respondido com um sinal positivo. Vorcaro foi preso antes da viagem e seu pessoal celular ficou sabendo.
Contatos podem não ter sido isolados
Fontes ligadas às apurações afirmam, sob reserva, que os contatos entre os dois não tiveram episódios isolados, podendo existir chamadas telefônicas e que o padrão sistemático de comunicação pode ter sido adotado para minimizar rastros digitais.
Na época em que essas informações se tornaram públicas, Moraes rejeitou quaisquer relacionamentos com Vorcaro, classificando-se como “ilação mentirosa” com objetivo de desacreditar o STF.
O gabinete do ministro sustentou que uma análise dos arquivos telemáticos de Vorcaro, tornados públicos a partir de um suposto vazamento da CPMI do INSS, demonstrou que as mensagens de visualização únicas não estavam associadas aos contatos telefônicos do ministro e que cópias eletrônicas das mensagens aparecem vinculadas, nos arquivos do próprio Vorcaro, a pastas de outros contatos da sua lista e não ao ministro.
A PF afirmou, naquele período, condução de investigações com padrões rigorosos de segurança e respeito aos direitos fundamentais. Sustentou que nenhum dado irrelevante foi incluído nos relatórios do Compliance Zero. A corporação também esclareceu que não caberia selecionar ou editar conversas extraídas de equipamentos apreendidos, o que poderia comprometer o contraditório e a ampla defesa. A defesa de Vorcaro optou por não se manifestar.













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