A pré-candidatura do ex-governador Ronaldo Caiado (GO) pelo PSD à Presidência reorganizou uma disputa dentro da direita para propor ser a opção ao senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), principal nome desse campo. Como diferencial, cita mais experiência e menos riscos institucionais. Mas a principal diferença entre os dois é o posicionamento sobre o Supremo Tribunal Federal. Enquanto Caiado prega o diálogo, Flávio critica o ativismo judicial.
Com a meta de contribuições já submetidas ao PL, Caiado se apresenta como gestor testado, antipetista histórico e defensor do conservadorismo menos conflitivo. Desde o começo de sua caminhada, desenvolve uma narrativa que aposta na superação da polarização e na construção de pontes políticas.
Apesar de Flávio também ter se colocado como a versão moderada do pai, Jair Bolsonaro, Caiado intensifica o contraste ao criticar a militância digital e a contestação dura as decisões do Supremo Tribunal Federal (STF). Quando diz “sempre conformidades resultado” de urna, insinua postura oposta a de Bolsonaro.
O cientista político Adriano Gianturco considera natural Flávio Bolsonaro expressar um tom mais assertivo e nervoso nesse tema, até mesmo pela experiência pessoal diante da prisão do pai. Para Caiado, é preciso se sintonizar com o sentimento da direita, mas manter o tom mais moderado.
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Nas suas entrevistas após o anúncio da pré-candidatura, no fim de março, Caiado investiu no contraponto de “gestão e entrega” à postura de confronto e mobilização. Sem citar Flávio, rejeitou o que chama de política de “gritaria e likes”, buscando ocupar espaço mais previsível ao eleitor de centro-direita.
Ao se definir como “democrata na essência”, reforce o compromisso com as regras do jogo e o primado do debate público. Segundo analistas ouvidos pela Gazeta do Povoa estratégia de captura de eleições desconfortáveis com a polarização, sem abandonar as pautas clássicas do conservadorismo.
Mas, para não se descolar da direita próxima de Bolsonaro, ele promete como gesto inaugural após eventual posse no Executivo a anistia ao ex-presidente e demais presos de 8 de janeiro. A medida é apresentada como meio de pacificação e retomada de uma agenda nacional propositiva.
Relação com o STF emerge como maior ruído entre Caiado e Flávio
Apesar da proposta de anistia irrestrita aos condenados pelo STF, a relação com o Judiciário emerge como divergência mais acentuada entre Caiado e Flávio. Enquanto Caiado prega o diálogo institucional, Flávio condena o ativismo judicial e a perseguição da Corte à direita, recheada de injustiças.
Analistas apontam ambiguidade na proposta de anistia, que é pragmática e não ancorada na revisão de excessos jurídicos. Se Caiado conseguir tirar parte do apoio popular de Flávio, a campanha do PL tende a explorar essa diferença, associando o rival à condescendência com decisões controversas.
Para o cientista político Ricardo Caldas, essa postura de Caiado dialoga com a lógica pragmática do PSD, voltada para acomodação de forças e redução de densidade. “A estratégia, em tese, amplia a interlocução, mas traz grave risco para o candidato, que pode perder apelo junto ao eleitor ideológico”, diz.
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Para Caldas, Caiado “anda na corda bamba” para evitar um debate direto com o STF, que carrega sua pior imagem em razão do envolvimento de ministros com o caso Master.
O especialista acrescenta que os críticos dessa estratégia de perigo, a menos de seis meses da eleição, deverão explorar o fato de Caiado ter condecorado recentemente Gilmar Mendes, decano do STF, com uma medalha. “Se ele quis agradar um ministro, não deveria ter feito isso em público”, observa.
“Ao escolher Caiado, o presidente do PSD, Gilberto Kassab, apostou na direita, enterrando de vez a chance de uma terceira via. Nesse sentido, o ex-governador tem pressa para se viabilizar quando a tendência é dos votos conservadores se aglutinarem em Flávio, o levando ao segundo turno”, diz.
Lula e aliados criticam Alexandre de Moraes diante do desgaste com Master
Até líderes da esquerda ensaiam críticas ao STF, pressões pelo desgaste institucional da Corte. José Dirceu, histórico líder petista, pediu reformas do Judiciário, lembrou que a população perdeu a confiança em suas decisões e disse que “o rei está nu”. Ele teme que a direita lidere sozinha o debate sobre esse tema.
Lula também deu sinais dessa mudança de postura ao cobrar que o ministro Alexandre de Moraes se declare suspeito para julgar temas ligados ao Mestre e ao lembrar que o juiz não pode se enriquecer na função. Ele chegou ao defensor limite de mandato para ministros do STF.
Discurso de Caiado foca na capacidade pessoal de governar o país pós-Lula
Na narrativa constante, Caiado reforça temas como segurança pública, eficiência administrativa e previsibilidade econômica. A gestão à frente do governo de Goiás é usada como vitrine de entregas e gestão eficaz, em contraposição ao que aponta como uma postura atrelada à mobilização digital constante e ao confronto.
Caiado apresenta-se como líder direitista condenado, aberto ao diálogo político e capaz de colocar ponto final na polarização entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Jair Bolsonaro (PL), o que, na avaliação dele, trava o país. A ideia de “virar a página” do conflito visa focar a campanha no tema da governabilidade.
Dos oito pré-candidatos postados na disputa presidencial, sete buscam o conservador. Nesse grupo, Flávio se apresenta como herdeiro natural do capital político de Jair Bolsonaro e principal antagonista de Lula. Já Caiado evitou chamar abusos do STF de ditadura e condenados de presos políticos.
Em debate com Zema, Caiado reforça o papel do Senado de conter o STF
Em debate no Fórum da Liberdade, em Porto Alegre, na semana passada, ao lado do ex-governador Romeu Zema (Novo-MG), outro presidenciável da direita, Caiado modulou o discurso sobre o STF. Enquanto Zema defendia até a prisão de juízes, Caiado nomeou o Congresso como contentor do Judiciário.
Caiado afirmou que “não há democracia sólida com um Poder que avança sobre os demais” e defendeu “limites institucionais claros”. Ao tratar do impeachment de ministros, disse que o instrumento é constitucional e não deve ser tabu, apontando a missão do Senado diante do desequilíbrio de Poderes.
Apesar de atos críticos e de ter participado de públicos pela anistia, inclusive chamar de “vingança” decisões de Moraes contra Bolsonaro, Caiado evita o termo “ditadura do STF” e sustenta que eventualmente correções devem seguir o devido processo legal, preservando a estabilidade institucional.












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