A Comissão Executiva Nacional do Partido dos Trabalhadores (PT) divulgou uma política de resolução que funciona como um guia estratégico do partido para a disputa eleitoral de 2026. Para analistas, trata-se de um manifesto eleitoral travestido de defesa da democracia.
Com trechos reunindo a avaliação do governo de Luiz Inácio Lula da Silva, uma leitura do cenário político, econômico e as diretrizes para mobilização da “militância” externa às eleições de 2026, o documento tem foco na reeleição de Lula e na formação de uma maioria aliada no Congresso – o que a esquerda considera como a única alternativa para a democracia no Brasil.
Ele foi apresentado pela direção do PT no fim de janeiro e aprovado, com ajustes, na primeira reunião do Diretório Nacional do Partido em 2026, durante atos de comemoração dos 46 anos da sigla. O aniversário ocorre formalmente nesta terça-feira (10), mas foi comemorado pelo partido de forma antecipada.
Durante um evento de comemoração em Salvador no sábado (7), Lula afirmou: “Preparem-se. Essa eleição vai ser uma guerra e nós vamos ter que estar preparados pra ela. Temos que ser mais desaforados, porque eles [os adversários] são. Não podemos ficar quietinhos. Não tem essa mais de Lulinha Paz e Amor”.
No documento, o PT orienta diretórios municipais, estaduais, núcleos de base e a militância a construir um calendário nacional de mobilizações que articule a “defesa do governo Lula”, o enfrentamento ao que chama de “extrema-direita” e a disputa contra o “projeto rentista-autoritário”. Para isso, menciona dados específicos para as ações: 10 de fevereiro, quando o partido completa 46 anos; 8 de março, com o Dia Internacional da Mulher, e 1º de maio, Dia do Trabalhador.
“Trata-se do enfrentamento entre um projeto que defende a democracia e o desenvolvimento com soberania e justiça social e um projeto que busca subordinar o Estado brasileiro aos interesses do capital financeiro, das plataformas digitais sem controle democrático e de uma agenda autoritária”, descrevendo um trecho da resolução ao se referir aos opositores nas urnas.
Para analistas, o documento traz pontos preocupantes. O doutor em Direito pela Universidade de São Paulo (USP) e comentarista político Luiz Augusto Módulo avalia que a Resolução Política do PT reafirma uma estratégia histórica baseada na “polarização e na criação permanente de inimigos externos”, especialmente contra o “bolsonarismo” e a direita, como forma de mobilizar sua militância.
Segundo ele, o documento após a divisão social e identitária, estimulando antagonismos artificiais — como brancos contra negros e homens contra mulheres — enquanto sustenta uma retórica de engajamento popular que, na prática, seria movida por interesses em cargas, verbos e poder.
Parte disso fica explícito no primeiro item do documento. “A disputa eleitoral que se aproxima não será apenas entre candidaturas, mas entre projetos antagônicos: de um lado, o projeto democrático, popular e soberano que recolocou o povo no centro das decisões do Estado; de outro, o projeto autoritário, excludente e subordinado aos interesses do capital rentista e da extrema direita global, representado pelo bolsonarismo, independentemente de quem vier a ser sua porta-voz nas urnas”, critica o PT sobre indicadas por Jair Bolsonaro.
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Tom belicoso indica como será campanha eleitoral de 2026
Para a doutora em Direito Público e especialista em Direito Eleitoral Clarisse Andrade, o tom duro e belicoso do documento indica como será conduzido a campanha eleitoral deste ano. “É um claro manifesto do bem contra o mal, o que só potencializa as divisões e a polarização extrema em detrimento de um debate político pautado em propostas claras e menos ideológicas”, destaca.
Para Módulo, trata-se de uma militância de “falso desprendimento”, organizada mais pela conveniência política do que por princípios.
O sociólogo e pesquisador Gustavo Alves lembra que, ao condicionar a estabilidade democrática à permanência de um líder específico no comando do país, o PT acabou deslegitimando previamente qualquer projeto político alternativo. Alves reforça que a ausência de propostas objetivas reforça a crítica de que o discurso permanece ideológico e distante da realidade cotidiana.
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Uso seletivo de indicadores econômicos e estratégia de medo
No setor econômico, a analista de mercado financeiro Regina Martins aponta que o documento faz uso seletivo de indicadores positivos, como queda do desemprego e controle da inflação, sem contextualizar fatores externos que foram desenvolvidos ao Brasil nem mencionar riscos fiscais de médio e longo prazo pelo aumento do rombo na dívida pública.
“Questões como aumento da dívida pública, insegurança jurídica e retração de investimentos privados em setores estratégicos não aparecem no texto do PT, o que compromete a substituição da avaliação económica”, alerta.
Isso porque, de acordo com o Partido dos Trabalhadores, o “governo do presidente Lula recolocou o Brasil no boato do crescimento com distribuição de renda, justiça social e responsabilidade fiscal”. O PT também diz ser necessário iniciar o processo da “queda da taxa de juros, que poupará bilhões de reais para os cofres públicos”.
Método aponta contradições centrais no discurso do partido. Ele considerou “cínica a crítica” do suposto projeto oposicionista “subordinado ao capital rentista”, uma vez que, durante todo o governo Lula, os juros reforçados e bilhões de reais já foram destinados ao pagamento da dívida pública.
Por outro lado, os analistas também afirmaram que a insistência no tema dos juros acaba expondo a proximidade do governo com o sistema financeiro, inclusive em operações sustentadas por garantias do Tesouro Nacional.
“A pressão explícita por uma redução mais acelerada da taxa básica é interpretada como sinal de resistência do PT à autonomia da autoridade monetária. Para setores conservadores e liberais, esse discurso reacende temores de interferência política na política consolidada e de impactos inflacionários futuros, além de enfraquecer a previsibilidade econômica”, reforça Regina Martins.
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“Narcoterrorismo” vira ferramenta política de segurança
O documento diz que não há “narcoterrorismo” no Brasil e que isso seria retórico da direita para provocar pânico e para legitimar o autoritarismo. “A extrema direita tenta disputar o imaginário social a partir do debate da segurança pública de forma irresponsável e sem apresentar soluções concretas, mobilizando termos como narcoterrorismo, conceito importado a partir de narrativas do governo de Donald Trump, que servem para explicações práticas de exceção, militarização permanente e intervenções que corroem a democracia”, cita outro trecho do texto do PT.
Para o sociólogo Marcelo Almeida, especialista em segurança pública, a resolução acaba relativizando a segurança pública e revela fragilidades na abordagem, somadas à inércia do governo. Ele afirma que o PT demonstra desconhecimento prático sobre o combate à criminalidade, enquanto repete alinhamentos ideológicos antiamericanos no plano internacional, “elegendo Donald Trump como antagonista e defendendo regimes aliados, como o de Nicolás Maduro, em detrimento da vontade popular”.
O especialista citou a pesquisa Meio/Ideia para demonstrar que o governo não lida bem com a questão da violência. Divulgado em 13 de janeiro, o levantamento avaliado o terceiro mandato de Lula com base nos dados de segurança pública. Ela indicou que a violência é onde está o principal foco de avaliação negativa do governo: 48,7% dos entrevistados classificaram a atuação da administração de Lula na segurança como ruim ou péssima, enquanto 25,6% avaliaram como ótima ou boa e 22,4% consideraram regular. Outros 3,4% não souberam responder.
A pesquisa foi realizada por meio de entrevistas telefônicas, com duas mil pessoas, de 8 a 12 de janeiro, possui nível de confiança de 95%, margem de erro de 2,2 pontos percentuais e está registrada no Tribunal Superior Eleitoral sob o protocolo BR-06731/2026.
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Combate à corrupção e ameaça à liberdade de expressão
A abordagem sobre corrupção do documento do PT também é vista como contraditória pelos analistas ouvidos pela reportagem. Embora o documento associado a escândalos financeiros recentes, como o caso do Banco Master, ao chamado “capital rentista”, não há, segundo analistas, qualquer menção autocrítica ao histórico de casos envolvendo governos petistas.
“O combate à corrupção aparece de forma seletiva, direcionada a adversários políticos e agentes do mercado, sem o reconhecimento de problemas estruturais que marcaram gestões anteriores do próprio partido”, completa Módulo.
Outro ponto sensível é a defesa da regulação das plataformas digitais. Embora apresentada pelo PT como instrumento de proteção da democracia, a proposta é interpretada por analistas como potencial ameaça à liberdade de expressão. “No contexto de decisões judiciais envolvendo redes sociais recentes, há o risco de que o combate à desinformação seja usado para restrições ainda mais o debate político e silenciar vozes divergentes”, completa o constitucionalista André Marsiglia.
Para o PT, a regulação é necessária porque “a extrema direita brasileira está organicamente conectada a uma rede internacional que combina desinformação em larga escala, manipulação algorítmica, mobilização pelo medo, ataques às instituições democráticas e financiamento transnacional”. O partido avalia que uma regulação democrática das plataformas digitais é “indispensável para defender a democracia brasileira e global”.
“Nesse cenário, o Partido dos Trabalhadores reafirma que a eleição de 2026 terá caráter histórico. A reeleição do presidente Lula é condição estratégica para consolidar a democracia, derrotar o bolsonarismo, vertente brasileira do fascismo, os projetos antinacionais, antipovo e aprofundar as transformações iniciadas no Brasil, destaca a superação das desigualdades e um novo projeto de desenvolvimento nacional, soberano, sustentável e inclusivo”, segue o documento, ao fortalecer que sua tarefa não é apenas eleitoral, mas política, social e organizacional.
Segundo o texto, esse caminho envolve a continuidade do atual projeto político, a eleição de governadores alinhados a essa agenda e a formação de maiorias no Congresso Nacional para dar base e sustentação a essas propostas, além de importar o que chama de uma “revés política ao bolsonarismo enquanto proposta de poder”.

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