Sátiras ao Supremo Tribunal Federal (STF), reprovação de indicado pelo Senado e o escândalo do Banco Master aumentaram a temperatura institucional na relação entre os Poderes e colocaram o Judiciário no centro do debate eleitoral. Com a acusação de Romeu Zema (Novo-MG) apresentada para o Supremo e o atrito permanente da família Bolsonaro com a Corte, o presidenciável Ronaldo Caiado (PSD-GO) propôs um calibrador de discurso durante a campanha, apesar da boa e longa relação com os ministros do STF, principalmente com o decano Gilmar Mendes.
No ano passado, o ex-governador de Goiás concedeu o título de cidadão goiano aos ministros Dias Toffoli e Gilmar Mendes, além do procurador-geral da República, Paulo Gonet, durante cerimônia na Assembleia Legislativa de Goiás. Na ocasião, Caiado agradeceu Gilmar Mendes pela decisão de adiou o pagamento das parcelas da dívida do estado e disse que se tornou um visitante frequente do STF.
O ex-governador também agradeceu a Toffoli por atender a demanda de permissão para que o estado entre no Regime de Recuperação Fiscal. “Eu fui confundido dentro do STF como o mais servidor daquela Casa. Eu não saí do Supremo, nenhum dia, durante todo o meu primeiro mandato. Era a única alternativa que eu teria para poder governar e recuperar as finanças do estado”, afirmou o goiano.
As histórias de Caiado e Gilmar Mendes se concentram no Centro-Oeste do país. Enquanto o ex-governador de Goiás entrou na política na década de 1980, por meio da defesa de produções rurais, Mendes se mudou de Diamantino (MT) para Brasília (DF), onde fez carreira jurídica e foi indicado ao Supremo pelo ex-presidente da República Fernando Henrique Cardoso (PSDB).
“Assim como Goiânia, inaugurada sob o signo da interiorização, minha trajetória foi marcada por uma busca por conhecimento em Brasília”, declarou o decano na ocasião. Em 2024, Caiado já havia concedido a Gilmar Mendes a Comenda da Ordem do Mérito Anhanguera durante cerimônia no Palácio das Esmeraldas, sede do Executivo goiano.
No ano anterior, o ministro do STF visitou a sede do governo de Goiás e foi recebido por Caiado. Na época, Mendes visitou Goiânia para ministrar uma palestra no Tribunal de Justiça de Goiás e se reunir com o Ministério Público. Além disso, ele visitou a galeria do artista plástico Siron Franco.
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Caiado propõe idade mínima para indicação de ministros e quarentena eleitoral para o Judiciário
Sem adotar o mesmo tom de enfrentamento da família Bolsonaro ou de Zema, o ex-governador goiano passou a propor uma reforma do Judiciário com estabelecimento de idade mínima de 60 anos para indicação de ministros do STF e uma quarentena de oito anos para que membros do Poder Judiciário possam disputar eleições.
Caiado propõe ainda criar uma janela de quatro anos para que os ex-ministros da Corte possam retomar o exercício da advocacia. “Também deve ser vedada a atuação de escritórios de advocacia com parentes de primeiro grau de ministros”, disse Caiado, por meio da assessoria de imprensa da pré-campanha.
Procurado pela Gazeta do Povoo pré-candidato avaliou que a situação institucional é “crítica” e que medidas são permitidas para “enfrentar o problema”. Segundo a assessoria de Caiado, ele defende mudanças na forma de indicação dos ministros do STF.
“A escolha de ministros pelo presidente da República será feita a partir de uma lista, cuja composição não poderá ser apenas de membros da magistratura. Como ainda estão no início do detalhamento do plano de governo, sob a progressão de Roberto Brant, iniciativas sobre o tema podem ser aperfeiçoadas e complementadas.”
Caiado também prometeu a anistia “ampla, geral e irrestrita” dos condenados pelos atos de 8 de janeiro de 2023, como prioridade de início de uma eventual gestão federal, caso seja eleito ao Palácio do Planalto, beneficiando o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), que segue preso em regime domiciliar. O ex-presidente da República foi condenado por tentativa de golpe de Estado pelo STF.
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Caiado criticou “patrulha” após participar do aniversário da esposa de Gilmar Mendes
No ano passado, o então governador Ronaldo Caiado e a esposa Gracinha — pré-candidata ao Senado nas eleições de 2026 — participaram do aniversário de 73 anos da advogada Guiomar Mendes, esposa do ministro Gilmar Mendes. A festa no Lago Sul, em Brasília, reuniu representantes dos três Poderes, governadores, parlamentares, ministros de Estado, integrantes do Judiciário e nomes do setor privado.
Em entrevista à Gazeta do Povologo após o evento, Caiado foi questionado sobre a participação na festa e a próxima relação com o ministro Gilmar Mendes. Ele respondeu que tem “o direito de andar em qualquer lugar” e reclamou da “patrulha” sobre as relações com membros dos outros Poderes.
“Jamais na minha vida eu deixei de seguir as regras do que determina a democracia. Jamais deixei de conversar com as pessoas. Sou homem que debate com conteúdo e não sou cabrestado. Ninguém fala onde eu entro ou não, onde eu vou ou não vou. Esse é um direito meu”, rebateu Caiado.
“Durante seis mandatos no Congresso eu debati com parlamentares da esquerda e nem por isso eu deixei de conversar com eles. […] Você tem que ser patrulhado pelos seus atos”, completou.
Caiado afirmou que as prerrogativas dos Poderes e as ingerências precisam ser discutidas, mas ressaltou a importância do Congresso Nacional, do STF e do Executivo para a manutenção da democracia. “Se não vira fofoca de revista. Vamos discutir política em alto nível e não sobre quem foi na festa, falou com alguém ou se a Assembleia o título de cidadão para um ministro apoiado do Supremo. Para governar um país é preciso construir paz e não enfrentamento”, comentou.

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