As eleições de 2026 podem sacramentar o processo de “enxugamento” de partidos que registram baixo desempenho nas votações nacionais, que ocorrem a cada quatro anos no Brasil. A chamada “cláusula de barreira”, ou cláusula de desempenho – mecanismo criado em 2017 pela minirreforma eleitoral – estipula um desempenho mínimo nas urnas para que os partidos tenham acesso a recursos de fundo partidário e tempo de propaganda em rádio e TV.
Sem isso, a política de sobrevivência das siglas torna-se quase inviável. Desde 2018, a regra levou à extinção, seja por fusão ou incorporação, de sete partidos: PPL, PRP, PHS, Pros, PSC, Patriota e PTB.
Em 2026, ao menos nove partidos estão em situação delicada e precisarão de um salto significativo de desempenho na comparação com as eleições de 2022 para cumprir a cláusula de barreira. O desafio não é simples: as metas de desempenho aumentarão progressivamente até 2030, e neste ano os partidos precisarão eleger pelo menos 13 deputados federais ou ter 2,5% dos votos válidos para a Câmara.
Para se proteger contra a “inanição” pela falta de recursos públicos e de tempo de rádio e TV, a lei permite que os partidos formem federações, que são uma aliança entre dois ou mais partidos que passam a atuar como se fossem uma única legenda por um período mínimo de quatro anos. Outra opção é a fusão entre partidos, para somar o número de deputados federais e alcançar uma meta de desempenho.
Para Leandro Gabiatti, especialista em ciência política e diretor da Dominium Consultoria, a fusão partidária é uma opção mais drástica, enquanto a federação tende a ser uma medida mais sutil, já que os partidos mantêm suas estruturas e autonomia, com alinhamento em questões específicas.
“As federações são solicitadas para que grandes siglas aumentem seu poder na Câmara, como é o caso da união entre a União e o PP, mas também são uma alternativa para que siglas menores consigam superar a cláusula de desempenho em 2026”, explica Gabiatti. “Sem essas duas opções, legendas pequenas tendem ao desaparecimento, pois se tornarão inviáveis financeiramente”, prossegue.
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Cláusula de barreira: quais partidos são mais vulneráveis nas eleições de 2026
A seguir, os partidos mais suscetíveis à cláusula de barreira nas eleições deste ano, bem como sua orientação política e o número de deputados e senadores de cada um.
novo
Direita (5 deputados federais e 1 senador)
Apesar do desempenho negativo nas eleições de 2022, quando viu seu tamanho na Câmara reduzido de oito para apenas três deputados, o partido Novo passou por mudanças estruturais nos últimos anos, que levaram a legenda a ter bons resultados nas eleições municipais de 2024.
O partido também conseguiu atrair nomes fortes, como o ex-procurador da Lava Jato Deltan Dallagnol e o ex-ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles. UM Gazeta do Povoo presidente do partido, Eduardo Ribeiro, diz que estima a eleição de cerca de 25 deputados federais, além de quatro senadores, o que colocaria o Novo em situação confortável em relação à cláusula de barreira.
“O partido Novo chega nas eleições de 2026 muito mais forte do que esteve em 2018 e 2022. Isso é uma certeza absoluta”, avalia.
Solidariedade
Centro-esquerda (5 deputados federais, nenhum senador)
Vindo de um resultado fraco nas últimas eleições nacionais, quando elegeu apenas cinco deputados, o Solidariedade Articulada, ainda em 2025, a criação de uma federação partidária com o Partido da Renovação Democrática (PRD). Sem nenhum nome popular para as eleições deste ano, a legenda terá um grande desafio para superar a cláusula de barreira.
PRD
Centro (5 deputados federais e nenhum senador)
Mesmo unidos em uma federação, o PRD e Solidariedade estão em situação delicada, já que os dois partidos somam apenas 10 deputados federais, número inferior aos 13 necessários.
A própria existência do PRD é resultado da cláusula de barreira, já que o partido foi criado a partir da fusão entre os extintos Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) e Patriota. As antigas legendas não atingiram o desempenho mínimo em 2022 e, ao se fundirem, somaram seus votos para ter direito ao fundo partidário.
PSDB
Centro-esquerda (14 deputados federais e 3 senadores)
Antiga superpotência, que disputou a hegemonia do poder com o Partido dos Trabalhadores (PT) entre a década de 90 até 2014, o PSDB enfrentou uma crise sem precedentes e está na zona de risco da cláusula de barreira, luta para não se tornar um partido “nanico”.
Os tucanos estão encerrando uma federação com o Cidadania iniciada em 2022 e agora buscam um novo partido para federar, já que uma tentativa recente de união com o Podemos acabou fracassando.
Cidadânia
Centro-esquerda (5 deputados federais e nenhum senador)
O Cidadania está no final do período de federação com o PSDB e o clima é de subsídio. O partido aprovou, em junho de 2025, deliberação para não renovar a união com os tucanos e busca agora se federar ao PSB em 2026 para se manter como um partido viável. Sem uma federação, há um enorme desafio para alcançar a meta mínima em 2026.
Avante
Centro (8 deputados federais e nenhum senador)
O Avante ficou no limite da cláusula de barreira em 2022 e está com o alerta ligado para este ano, uma vez que não há expectativas de grandes “puxadores de votos”. Mesmo assim, o presidente do partido, Luis Tibé, desistiu da possibilidade de federação durante um evento do Avante na Bahia, em outubro de 2025.
Um dos nomes fortes do partido, o deputado federal André Janones (MG), acabou bastante desgastado após confessar a prática de rachadinha no início do ano passado.
Podemos
Centro (16 deputados federais e 4 senadores)
Após desistir da fusão com o PSDB, o Podemos decidiu ir sozinho às eleições de 2026. Com 16 deputados, o partido já estará acima do número mínimo caso consiga reeleger todos, mas ainda busca outros nomes para garantir o desempenho necessário. A legenda reúne alguns nomes fortes do Congresso, como os senadores Oriovisto Guimarães (PR) e Soraya Thronicke (MS).
PDT
Esquerda (16 deputados federais e 3 senadores)
Outro partido historicamente forte, o Partido Democrático Trabalhista (PDT) passou por um momento delicado e perdeu bastante protagonismo nos últimos anos. Recentemente também perderam os irmãos Cid e Ciro Gomes, que migraram para PSB e PSDB respectivamente.
Em 2022, o PDT elegeu 17 deputados, mas com o risco vindo do aumento da cláusula de barreira em 2026, tenta articular a criação de uma federação com o PSB.
Partido Missão
Direita (nenhum deputado federal e nenhum senador)
Partido recém-criado, que estreará nas eleições de 2026, a missão foi criada por membros do Movimento Brasil Livre (MBL) e é uma das legendas com maior risco de não bater a cláusula de desempenho. Isso porque o partido ainda é pouco conhecido nacionalmente e rejeita a adesão às federações.
Apesar disso, o partido Missão conta com nomes conhecidos e em forte ascensão na política nacional, como o deputado federal Kim Kataguiri (atualmente no União, mas com migração anunciada para a Missão), e especialmente em São Paulo, com nomes como o deputado estadual Guto Zacarias e a vereadora Amanda Vettorazzo.
E os demais partidos pequenos?
Há outros partidos pequenos que, por exemplo, federações que devem se manter nos próximos anos, têm maiores chances de continuar viáveis e dentro das cláusulas de barreira. São eles o PCdoB eo VP (integrantes da Federação Brasil da Esperança, com o PT) e a Rede Sustentabilidadefederação ao PSOL.
Há, ainda, aquelas lendas que vivem em uma espécie de “sobrevivência simbólica”, isto é, não atingem a cláusula em 2018 e 2022 e já não possuem os recursos que os demais ainda lutam para se manter.
Em comum entre esses há uma expectativa irrisória de alcançar uma meta de desempenho. Alguns exemplos de partidos nessa situação são Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado (PSTU), Democracia Cristã (CC), Partido da Causa Operária (PCO) e Agir. Nenhum deles possui deputados federais.

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