Muitos homens dedicam grande parte de seu tempo ao trabalho e às responsabilidades familiares, mas acabam deixando a saúde em segundo plano. Consultas e exames de rotina são adiados, e doenças como o câncer de próstata, que pode evoluir silenciosamente até apresentar sinais, são descobertas muitas vezes em estágios avançados.
Uma pesquisa da Sociedade Brasileira de Urologia, realizada com 1.500 homens acima de 40 anos, revelou que 46% só procuram atendimento médico quando apresentam sintomas, enquanto 78% reconhecem que as mulheres cuidam mais da saúde.
Esse comportamento revela uma questão que precisamos discutir com mais profundidade, especialmente durante o Novembro Azul: por que tantos homens ainda têm dificuldade em priorizar o cuidado preventivo?
Acredito que uma das razões para essa dificuldade seja uma diferença cultural em relação às mulheres. Desde a adolescência, elas costumam receber orientações sobre a necessidade de acompanhamento ginecológico.
Os homens, por outro lado, não contam com o mesmo incentivo. Quando deixam os cuidados do pediatra, muitos passam anos sem um médico de referência e só procuram atendimento quando percebem que alguma coisa está errada.
Outra barreira é a associação da masculinidade à força e à independência. Muitos homens acreditam que precisam se mostrar resilientes mesmo diante de possíveis problemas de saúde.
Procurar um médico pode ser visto como sinal de fragilidade, enquanto a ausência de sintomas é confundida com a certeza de estar saudável. Um estudo publicado em 2025 na revista científica Annals of Behavioral Medicine, nos Estados Unidos, identificou uma relação entre padrões tradicionais de masculinidade, como a resistência em demonstrar vulnerabilidade, e a menor adesão a exames preventivos para o câncer colorretal.
No caso do câncer de próstata, essa discussão ganha destaque, em um cenário em que o Instituto Nacional de Câncer (INCA) estima que o Brasil deverá registrar quase 78 mil novos casos da doença por ano entre 2026 e 2028, representando 30,5% dos novos casos de câncer entre homens, excluídos os tumores de pele não melanoma.
Em 2024, o câncer de próstata foi responsável por 17.826 mortes no país, ainda de acordo com o INCA. Os números mostram a dimensão de uma doença que exige prevenção, diagnóstico precoce e acesso ao tratamento.
A idade é um dos principais fatores de risco, com aumento da incidência após os 60 anos. O histórico familiar também deve ser analisado, especialmente quando pai ou irmão tiveram a doença. O excesso de gordura corporal também está associado a maior risco de câncer de próstata avançado.
Como o tumor pode não apresentar sintomas no início, o acompanhamento preventivo é fundamental. Em quadros mais graves, pode atingir outros órgãos, inclusive os ossos, e comprometer a qualidade de vida.
Por outro lado, os avanços da medicina ampliaram as possibilidades de tratamento do câncer de próstata. Quando a doença é identificada em estágios iniciais, as chances de cura são maiores e os procedimentos podem ser menos extensos e invasivos.
Em algumas situações, a vigilância ativa permite acompanhar a evolução do tumor sem intervenção imediata. A escolha da abordagem sempre considera as características e condições específicas de cada paciente.
Quando possível, é importante o homem ter um médico de referência que poderá orientar hábitos e acompanhar condições como diabetes, doenças cardiovasculares e hipertensão.
O ideal é que a partir dos 40 anos o homem consulte um clínico geral e comece a fazer check-ups regularmente. E, em torno dos 45 ou 50 anos, dependendo dos fatores de risco, inclua na agenda as visitas periódicas ao urologista.
O Novembro Azul é mais uma oportunidade para reforçar a necessidade do autocuidado como prioridade também para os homens. É preciso que se sintam à vontade para falar sobre suas preocupações, reconhecer suas vulnerabilidades e buscar orientação médica sem constrangimento.
Cuidar da saúde não pode depender apenas do aparecimento de sintomas. É necessário superar a ideia de que procurar atendimento é sinal de fraqueza e construir, desde cedo, o hábito do acompanhamento preventivo para uma vida mais saudável.
*Diogo Assed Bastos é oncologista clínico do Centro de Oncologia do Hospital Sírio-Libanês.
Fonte: Abril













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