Mark Fortier, um intelectual com doutorado em sociologia, progressista e defensor das causas sociais, decidiu se submeter a uma terapia de conversão ao fascismo. Já que uma onda conservadora, individualista e autoritária varre o mundo, ele não pensou duas vezes. E começou a virar a casaca tentando se justificar à própria filha.
(Contém bastante ironia nessa proposta).
Quero me tornar fascista, que acaba de ser publicado pela Vestígio, é um ensaio afiado sobre o espírito do nosso tempo. Um exercício autocrítico e impiedoso – sem abrir mão do humor – que procura entender por que tanta gente, com mais ou menos renda, tem embarcado nos discursos da extrema-direita pelo mundo.
Transitando entre a academia e o debate público, inclusive dirigindo uma editora em Québec, o autor canadense se devota a esse empreendimento reflexivo partindo da premissa de que o “honesto acomodado” precisa “tirar os olhos dos livros para encarar a realidade”. E que realidade!
Da república trumpista à ascensão do partido Alternativa para a Alemanha (AfD), de matriz neonazista, passando pelas experiências latino-americanas recentes, Fortier examina as ideias, os objetivos e a personalidade por trás de um novo fascismo, um tanto diferente daquele parido por Mussolini no início do século XX – afinal, não estamos diante de uma mera repetição da história.
Será que ele foi bem-sucedido nesse plano contraintuitivo de se render a um movimento retroalimentado pela vida digital? Com a palavra, Mark Fortier.
No livro, o senhor argumenta que não devemos entender o fascismo atual como uma repetição histórica. O que o fascismo de hoje possui que o fascismo do passado não tinha? A história nunca se repete. Apenas os indivíduos fazem isso. O termo “fascismo” pode ser inadequado para descrever as turbulências políticas atuais. Ainda assim, continua sendo a melhor forma de captar a experiência de um colapso democrático — distinto, por exemplo, de um golpe militar clássico. O fascismo refere-se a instituições democráticas que apodrecem por dentro. A principal diferença entre a revolução conservadora de hoje e o fascismo do período entre as décadas de 1920 e 1940 é o seu caráter ultraliberal: ele é obcecado pelo poder econômico e pelo capitalismo. O fascismo antigo reverenciava o Estado, o exército e as massas; o novo é narcisista e ganancioso, mas igualmente estúpido e malicioso.
Até que ponto as redes sociais e as Big Techs, ao moldarem o comportamento humano, alimentam esse “novo fascismo”? Elas o alimentam, sem dúvida, e por dois motivos. Primeiro, isso tem a ver com a personalidade dos principais proprietários dessas empresas. A maioria deles é composta de libertários que acreditam no domínio absoluto de grandes monopólios capitalistas. Ora, o grande capital, se deixado à própria sorte, é uma força niilista. Segundo, os produtos que desenvolvem são ferramentas poderosas para controlar, monitorar e manipular as pessoas. Por toda parte, as Big Techs buscam substituir a burocracia estatal por seus robôs e algoritmos. Ao fazer isso, pretendem tornar-se soberanas. Foi exatamente isso que o DOGE realizou nos Estados Unidos.
Então o problema já vem dos “cabeças” dessas companhias? Muitos CEOs dessas empresas são bastante afeitos ao apocalipse. São milenaristas — porém sem lei e sem fé — que acreditam que a destruição das sociedades, a violência e o colapso ecológico abririam caminho para que uma minoria seleta — uma raça humana superior — assuma o poder.
Que país melhor representa o fascismo do século XXI? É uma pergunta difícil de responder. Eu diria que são os Estados Unidos, em particular o movimento MAGA. O fanatismo, o obscurantismo e a violência — tanto verbal quanto concreta — de seus adeptos parecem infinitos. O país inteiro não é assim. Ainda não. Mas a dissolução da realidade e a crueldade dos abastados, em uma nação que continua sendo a mais poderosa do mundo, são assustadoras.
Trump seria o político que melhor representaria essa corrente? Quanto aos políticos, há muitos candidatos. Trump, na qualidade de líder de um bando de bilionários, é uma figura formidável. Mas Milei e os Bolsonaro são, a meu ver, figuras igualmente hábeis na arte do espetáculo. O que fascina nessas figuras é que, quanto mais se comportam de maneira indecente — quanto mais se desqualificam moral e intelectualmente —, mais seu poder aumenta. Não devemos subestimar o poder político do grotesco e do espetáculo do arbítrio. Todos são livres para julgar e interpretar a verdade como bem entendem. A submissão ao absurdo, contudo, exige lealdade cega. É aí que reside a força do autoritarismo.
O Brasil também vive uma onda de direita e, por vezes, é difícil distingui-la da extrema-direita. Acredita que as fronteiras desse espectro político estão se tornando cada vez mais difusas? De fato, estão. E, às vezes, chega a ser cômico: no Peru, um homem chamado “Hitler-Mussolini” foi eleito por um partido de esquerda. Falando mais seriamente, eu diria que a extrema-direita, propriamente dita, é, muitas vezes, uma mistura curiosa de ideias e ressentimento. Veja o caso do partido AfD, na Alemanha. Alice Weidel, líder do partido, é casada com uma mulher do Sri Lanka e vive na Suíça. Para uma nacionalista conservadora em um partido que abriga neonazistas e militantes homofóbicos, essa não é uma contradição qualquer. Além disso, ela vem do mundo das finanças e é descrita como uma thatcherista radical.
Soa contraditório, não? É tudo muito confuso. Mas a confusão, o oportunismo e o cinismo são marcas históricas do fascismo. A extrema-direita age primeiro e, depois, justifica-se. Essa é uma constante. Outra constante, hoje em dia, é o esmaecimento das fronteiras entre as classes sociais. Eles apelam aos trabalhadores e às pessoas com menor nível de escolaridade contra a elite tecnocrática, embora a agenda da extrema-direita consista, na verdade, em defender os oligarcas e os interesses da classe mais alta. Nesse aspecto, o Brasil talvez seja uma exceção, já que, a meu ver, Bolsonaro não conta com todo o apoio das camadas mais pobres da população nem dos trabalhadores em geral.
Como surgiu a ideia de escrever Quero me tornar fascista? No livro, decido me converter ao fascismo para viver feliz. Isso porque percebo que escritores, editores, acadêmicos e cientistas estão, por toda parte, sob a ameaça da extrema-direita. E poucos deles estão dispostos a lutar pela própria sobrevivência. Temo mais o som de chinelos do que o som de botas! Pensei que seria fácil. Que bastaria ficar calado. Isolar-me.
Por que acha que fracassou nessa tentativa de conversão? Viver sem amizade é difícil. E, acima de tudo, para se tornar um fascista de verdade, é preciso estar disposto a se tornar estúpido. É preciso aceitar proferir absurdos, escrever de forma péssima e ser intelectualmente desonesto. Isso era pedir demais de mim. Estou disposto a ser um idiota por conta própria — o que, aliás, acontece com frequência. Mas não consigo conceber a ideia de que devamos ser estúpidos coletivamente. As consequências são simplesmente terríveis demais.
Fonte: Abril

Deixe o Seu Comentário