• Aggregator
  • Anuncie
  • Contato
  • Home
  • Política
  • Política de privacidade
  • Quem Somos
  • Trabalhe Conosco
  • Menu
    • Política
    • Economia
    • São Paulo
    • Brasil
    • Educação
    • Entretenimento
    • Esportes
    • Saúde
    • Mundo
    • Tecnologia
    • Vídeos
  • Política de privacidade
Sem Resultado
Ver todos os resultados
  • Menu
    • Política
    • Economia
    • São Paulo
    • Brasil
    • Educação
    • Entretenimento
    • Esportes
    • Saúde
    • Mundo
    • Tecnologia
    • Vídeos
  • Política de privacidade
Sem Resultado
Ver todos os resultados
Sem Resultado
Ver todos os resultados

“O mundo é naturalmente mau”, diz escritora Ana Paula Maia

Por Redação
16 de outubro de 2026
Em Notícias
A A
“O mundo é naturalmente mau”, diz escritora Ana Paula Maia
Twitter1128254686redacaobcn@gmail.com

Em seu décimo romance — o primeiro após ter sido indicada ao prêmio International Booker Prize –, a escritora Ana Paula Maia decidiu atravessar a fronteira do sobrenatural. Em O Tenebroso Brilho do Sol (Companhia das Letras), lançado em setembro, ela conta a história de Eliote, sobrevivente de um vilarejo no Rio Grande do Sul engolido pela lama — uma tragédia que evoca tanto as recentes enchentes gaúchas de 2024 quanto o rompimento de barragens como a de Brumadinho (MG), em 2019. 

Vigia de uma represa, Eliote escava obsessivamente a terra em busca dos corpos dos filhos, cercado por manequins que colecionou em meio à devastação, até que fenômenos inexplicáveis começam a assombrá-lo. No centro da trama está a “coberta da alma”, um rito fúnebre trazido ao Brasil pelos açorianos no século XVIII, no qual alguém passa uma semana vivendo como um morto, vestindo suas roupas e imitando seus gestos para manter viva a memória do ausente. “Eu queria muito escrever uma história em que eu pudesse mergulhar nesse terror sobrenatural, mas tinha que ser folk horror, no campo”, explicou a autora a VEJA. 

Na entrevista, a autora fala sobre essa virada em direção ao sobrenatural sem abandonar o terreno árido e violento que sempre a definiu. Ela também reflete sobre a violência real que atravessa o Brasil e como a ficção pode dialogar com ela: “Colocamos o espectador dentro desse espaço e oferecemos a ele a possibilidade de interpretação […] para compreender um pouco mais esse horror que ele lê e vê todo dia.”

Ana Paula Maia comenta ainda a repercussão de ter sido finalista do International Booker Prize, o que impulsionou traduções e convites internacionais: “O Booker teve uma cobertura de imprensa muito importante, que ajudou bastante a divulgar meu trabalho aqui e lá fora.” E fala ainda sobre um possível renascimento do terror folclórico brasileiro, entre o resgate de mitos como o Saci e o Curupira e o crescente interesse pela ufologia. “Acho que está em alta, crescendo no mundo todo o interesse pelas questões sobrenaturais.”, disse. Confira a entrevista a seguir.

Continua após a publicidade

Diferentemente de seus outros livros, O Tenebroso Brilho do Sol tem um componente sobrenatural forte. Foi uma escolha sua mudar, mas de onde vem essa mudança? Já tem algum tempo que eu tenho vontade de inserir esse elemento sobrenatural. Venho colocando devagarinho. Desde De Gado e Homens venho inserindo uma pitada, uma sensação; são pequenas coisas. Mas dentro desse universo do Edgar Wilson, do Bronco Gil, do Tomás, não cabe esse sobrenatural. Então eu vou só flertando com alguns estranhamentos, mais com a questão do terror social, com esse desconforto que fica um pouco acima do normal. Eu queria muito escrever uma história em que eu pudesse mergulhar nesse terror sobrenatural, mas tinha que ser folk horror, no campo. Até que conheci esse rito fúnebre de perpetuação da memória, chamado coberta da alma. Conheci o ritual há uns anos, anotei, coloquei no meu mural e deixei guardado. E ficava pensando, preciso escrever sobre isso, acho que essa é uma história em que posso entrar no terror mais sobrenatural. Não que a coberta da alma seja sobrenatural em si, mas eu podia me valer desse rito, que existe dentro do Brasil, numa comunidade pequena em Osório, no Rio Grande do Sul. 

O TENEBROSO BRILHO DO SOL, de Ana Paula Maia (Companhia das Letras; 112 págs.; R$ 69,90 e R$ 34,90 em e-book)./.
Continua após a publicidade

Sabe a origem desse rito de coberta da alma? Veio da Europa? É sincrético? Foi trazido pelos portugueses açorianos, no século XVIII. Esses portugueses se instalaram no Rio Grande do Sul — por isso a história precisava se passar lá, na região de Osório e em seu entorno. A coberta alma é a representação do outro, lembrar do que ele gostava. Existe um rito específico, mas no livro eu pego esse rito e estendo um pouco mais, para poder sustentar todo o processo da narrativa. Na origem, o rito acontece num período só, o da morte, ou no dia do aniversário da pessoa. Alguém se veste e se comporta como aquele que morreu. Se era um pai, essa pessoa passa a ocupar o lugar do pai das crianças por aquele momento. Hoje poucas pessoas ainda praticam, não é mais um ritual muito conhecido.

Seu novo livro também traz a questão das enchentes no Rio Grande do Sul, um evento recente, muito fresco na memória das pessoas… Sim, encontrei a história de O Tenebroso Brilho do Sol quando decidi cruzar esse rito com as enchentes do Rio Grande do Sul, mas que também flerta muito com o que aconteceu em Mariana e em Brumadinho. Esse tema, essa invasão de águas, uma invasão de lama, já era algo que me seduzia de certa forma, descrever essa ambientação, que geralmente atinge regiões pequenas, rurais, áreas de vale. Juntei tudo isso e pensei, acho que agora encontrei a história. Fui testar se realmente tinha encontrado, comecei a desenvolver o livro, e a história foi fluindo, consegui trazer todos os elementos de um terror folclórico para esse livro.

Você é de Nova Iguaçu, na região metropolitana do Rio de Janeiro, mas disse que gosta do campo, de regiões ermas. E hoje mora em outra cidade grande, Curitiba. Por que essa opção de ambientar suas histórias no campo? Gosto do campo. Curitiba é uma cidade grande, mas se você der dois passos, já está na região rural. Fiz duas viagens pelo interior do Paraná antes de morar lá, e o Paraná é campo, é apaixonante. Prudentópolis, cidade de Desalma [série da Globo], por exemplo, é 30% urbano, 70% campo. Mas viver no campo não é para mim, quem vai capinar, quem vai cuidar da galinha? Eu vivo num mundo rural, mas nas minhas ideias. Já pensei em me mudar para o mato, mas percebi que na prática talvez eu não conseguisse mais escrever. Ia chegar lá e ia virar o próprio Edgar Wilson [protagonista da série Trilogia do Fim], de bota, cuidando da chacrinha. O campo vive nas minhas ideias, é o meu imaginário, é onde eu escuto o silêncio. Minha família também veio da roça, lá atrás, cresci escutando essas histórias de campo. É um espaço que eu gosto porque tem mais silêncio. Eu sou meio urbana, mas não frequento tantos cafés, gosto mais de ficar em casa. E, quando posso, acesso o campo assim, através da escrita.

Continua após a publicidade

Já criou uma história de folk horror na série Desalma, do Globoplay, que também se passa no Sul, como no livro mais recente, não? Sim, se passa no Paraná. A comunidade retratada fica em Prudentópolis, uma cidade do interior do Paraná, mais ou menos uma hora e meia, duas horas de Curitiba. Mas as gravações foram feitas numa cidade do Rio Grande do Sul. Gostei muito dessa experiência [com folk horror], foi uma realização, mas era audiovisual e são propostas diferentes. Quando eu escrevo livro, é livro. Quando escrevo roteiro, é roteiro. Eu não escrevo um livro pensando em adaptação, escrevo um livro para ser livro. Se ele for adaptado, ok. Mas são maneiras diferentes de construir, de entender esse universo, de construir a narrativa. Até a conceituação é diferente.

O Brasil é país extremamente violento, com índices altíssimos de mortes por arma de fogo, feminicídios, latrocínios, acidentes de trânsito. Como a ficção de horror, que também lida com violência, dialoga com esse contexto? Eu acho que a violência que vem pela mídia é superficial. A notícia vem num número — “aumentou tantos por cento” — e nunca se sabe quem são essas pessoas. Às vezes é a história de uma mulher ou de um homem inserido naquele contexto de violência, e só vemos que foi assassinado. Quase nunca vemos por outro ângulo. Eu acho que a literatura, assim como os filmes e as narrativas de ficção — que às vezes também podem ser inspiradas numa história verídica — colocam essa vítima, ou essa situação, sejam elas quais forem, sob outras perspectivas, muito mais reflexivas. Isso coloca o espectador, que normalmente só recebe a notícia em casa como mais um crime, mais uma morte, dentro dessa história com uma perspectiva diferente. Ele se aproxima muito mais do assassino e do assassinado, de tudo que está acontecendo. Aí começamos a questionar pontos de vista, motivações, esse primitivismo humano que todos nós carregamos. Eu acredito que todo mundo tem esse ímpeto de sobrevivência, esse ímpeto de violência, que muitas vezes está desequilibrado e aflora. Nós nos forçamos a ser pessoas educadas, vamos nos moldando dentro da sociedade, mas instintivamente, somos muito primitivos. Às vezes o sujeito tem uma vida tão boa e tão tranquila que procura algo, vira uma pessoa completamente lunática, vai torturar, vai sequestrar, vai manter alguém em cativeiro só pelo prazer disso. Vemos lugares do mundo em que todo mundo come, bebe, é alfabetizado, e de repente um homem mantém uma pessoa quinze anos no porão de casa, torturando, porque isso lhe dá prazer.

A realidade é muito brutal em muitos aspectos. A literatura tem força para competir com ela? Eu não acho que seja questão de competir com a realidade. Eu acho que, justamente por estarmos num ambiente muito violento, quando fazemos terror, colocamos o espectador dentro desse espaço e oferecemos a ele a possibilidade de interpretação. Algo para compreender um pouco mais esse horror que ele lê e vê todo dia. Creio que ele passa a ter um entendimento melhor sobre isso, a refletir de um jeito diferente.

Continua após a publicidade

Outra característica dos seus livros é que os protagonistas geralmente são homens de um determinado tipo, são duros, falam pouco, fazem trabalhos manuais considerados degradantes — numa carvoaria, num cemitério, recolhendo corpos em estradas. De onde vem esse interesse por esse tipo de masculinidade? Eu acho que, se eu fosse homem, eu seria esse homem. Fui criada por essas referências, meu pai sempre foi um homem trabalhador, um búfalo, trabalhava muito, tinha mãos imensas. Essa influência paterna pesou bastante. Meus pais foram casados quase cinquenta anos; o casamento só terminou porque meu pai morreu há dois anos. Esse livro, inclusive, foi escrito depois da morte dele — eu quis trazer esse pai para dentro da história, então teve essa conexão. Fui criada com essa presença do meu pai todos os dias, um homem bruto, trabalhador, honesto e correto com as coisas dele. Meu olhar sempre correu para esse mundo, para esse homem. Sempre gostei mais de olhar para o pedreiro do que para o médico, entendendo que os dois têm sua importância, mas o pedreiro me despertava mais curiosidade, não sei bem por quê. Quando saímos à rua, vemos um monte de homem trabalhando, consertando o asfalto, em cima do poste trocando uma lâmpada, pendurado lavando a janela de um prédio. É essa masculinidade bruta que mantém a ordem das coisas. Dificilmente vemos uma mulher fazendo isso. Hoje até tem algumas, mais do que antes, mas geralmente é essa brutalidade masculina que mantém a ordem. Por algum motivo isso foi me afetando; nem bem, nem mal, mas me afetando. Eu tenho uma conexão com esse universo de pessoas que mantêm a ordem, alguém tem que enterrar o corpo, abrir a cova, selar a cova, manter aquele lugar limpo. Eu não acho que seja um trabalho degradante, é algo que precisa ser feito para manter a ordem. Algumas pessoas fazem o trabalho sujo que os outros não querem fazer. Se todo mundo decidisse trabalhar com tecnologia da informação, quem faria esse trabalho? 

Também existe um marcador social nisso, esse tipo de trabalho acaba sobrando para as classes mais baixas… Sim, existe o marcador social, é um contexto social dentro de uma ambientação de muita desolação. E como é que você estampa a desolação? Qual é a imagem da desesperança? Às vezes é trabalhar dezoito, vinte horas por dia, comer mal, não ter muita expectativa de sair daquela realidade. Desolação é um cemitério mau cuidado, um prédio que pega fogo, uma estrada deserta, animais mortos na estrada, um circo itinerante em ruína. Acho que os meus livros imprimem muito esses espaços desoladores.

Se pegarmos a história da literatura de horror, dá para traçar uma linha que começa em Mary Shelley, vai seguindo, passando pela literatura gótica de Shirley Jackson, os vampiros de Anne Rice, chegando até os dias atuais, com seu trabalho e da argentina Mariana Enriquez, por exemplo. Se considera herdeira dessa tradição? A literatura de horror entra na minha vida com o Edgar Allan Poe. Antes vieram os filmes, bons e ruins. Cresci nos anos oitenta vendo tudo: palhaço assassino, carro assassino, monstros assassinos, Poltergeist, Sexta-Feira 13. Não importava se era um grande diretor ou alguém que ninguém nunca ouviu falar, eu estava ali assistindo. Ao lado disso, vi muitos filmes de guerra e de faroeste, que comecei a gostar mais velha, dos dezoito anos em diante. Na literatura, comecei com Allan Poe. Mas antes dele, Dostoiévski entrou na minha vida, e eu o considero um escritor um pouco assombrado. Percebi que gostava muito dessa literatura com escritores que escrevem sobre sombras, às vezes com um viés mais fantástico, às vezes não. Meu primeiro livro se chamou O Habitante das Falhas Subterrâneas, totalmente inspirado em O Apanhador no Campo de Centeio — foi o livro que me ajudou a começar a escrever. É um livro assombrado, sobre um personagem vivendo uma certa perturbação, terrores pessoais. Claro, não é um livro de terror, mas já existe ali a perturbação; não é uma leitura leve nem feliz.

Continua após a publicidade

Depois, em seus livros subsequentes, dá para notar que você se aprofundou nesse estilo, em explorar essa perturbação provocada pelo terror… Sim, fui me aprofundando cada vez mais nesse aspecto sombrio, às vezes inexplicável. É muito mais uma sensação — é olhar para trás e sentir que alguém passou, mas não passou ninguém — do que numa criatura específica, como um vampiro, um Frankenstein ou um lobisomem. Isso eu até consigo fazer, mas acho que só no audiovisual, se fosse um projeto muito específico, uma encomenda. Dentro da literatura mesmo, eu fico mais nesses espaços sombrios, naquele lugar em que não se sabe se é uma possessão ou uma esquizofrenia. O sobrenatural me toca de uma maneira curiosa.

Recentemente a Fósforo lançou aquela coletânea Tênebra: Narrativas Brasileiras de Horror, com contos do século XIX — Machado de Assis, Aloísio Azevedo, Júlia Lopes de Almeida, entre outros. Que semelhanças e diferenças vê entre aquele terror e o de hoje? Acho que naquela época tinha muito essa pegada de mitologias ligadas à mata, ao cemitério, a mitos e lendas, causos que você escuta da sua avó. Tinha também essa coisa meio de bruxas, religiões pagãs, mas nada muito bem definido, às vezes sem nome específico. Dentro dessa penumbra, acho que há um grande terror folclórico. O mundo era muito mais rural do que urbano, e isso influenciava. Gostei desse livro, são textos de muitos escritores que tiveram um resgate. Inclusive, alguns que eu nunca tinha ouvido falar na vida, e têm histórias incríveis.

Hoje em dia há uma revalorização, um resgate desse terror folclórico. Tem produções audiovisuais com personagens como saci, curupira; tem livros e HQs mesclando folclore, cangaço e terror… O que acha disso? Sim, finalmente, não? Acho que esse tipo de terror está voltando com força e está se cruzando um pouco com a ufologia, que no Brasil está muito em alta por causa do disclosure americano. Acho que está em alta, crescendo no mundo todo o interesse pelas questões sobrenaturais. Além disso, temos a inteligência artificial. Quando se introduz essa nova inteligência, é como se introduzisse um simulacro de uma ultra consciência. A IA também nos apavora, nos assombra.

Tem medo da IA, das possibilidades desconhecidas dela? Eu estou avaliando, acompanho, leio bastante. Acho que avançou muito e não sabemos como vai estar daqui a dois anos, por exemplo. Há previsões ruins, mas não temos como saber se de fato vão se confirmar; às vezes fico pensando se não é um certo alarmismo. Mas consigo perceber que já há uma questão colocada, principalmente relacionada à memória. Lembro que, enquanto escrevia O Tenebroso Brilho do Sol, muito envolvida com essa questão do rito de perpetuação da memória, eu pensava, nossa, como estamos terceirizando a nossa memória, deixando-a dentro de uma tecnologia, na tal nuvem. Nós não decoramos mais o número de celular de uma pessoa importante, não sabemos mais os endereços. Acho perigoso terceirizar a memória assim. Enquanto escrevia esse livro, percebi o quanto esse rito de perpetuação da memória — de lembrar do que a pessoa gostava, de falar sobre ela — é algo meio maluco de se tratar justamente num momento em que estamos terceirizando a memória. Porque a pessoa morre e às vezes você ainda vê numa rede social o perfil dela. Aquela memória fica ali, digitalizada.

Como é seu trabalho como roteirista? Como escritora, gosta dos seus próprios roteiros? E, do outro lado, como roteirista, o que acha das adaptações dos seus livros? Como roteirista, quando me sento para fazer um roteiro, eu gosto do que faço. Mas o roteiro sofre muitas interferências. Gosto de fazer roteiro, ainda quero fazer outros, mas prefiro fazer roteiro original. Sobre as adaptações dos meus livros, até hoje eu nunca gostei de nenhum roteiro adaptado; não estou falando da produção, mas do roteiro em si. Às vezes alteram demais, mexem muito. Como autora, queria ver o mais fiel possível ao livro, mesmo com alguns ajustes e adequações. Mas eu não sou apegada. Se eu vendo os direitos, eu me desapego. Eu me responsabilizo pelo livro; o roteiro segue sua própria vida, porque se torna outro projeto. São linguagens bem distintas. Tanto que, no audiovisual, eu escrevo sobre mulheres, coisa que não faço na literatura. Não sei explicar bem, acho que é uma chave que eu viro. Na literatura, percebo o mundo de um jeito; quando escrevo roteiro, percebo de outro. Isso é algo de que me dei conta há poucos anos. Consigo virar a chave, mas depende da linguagem.

Em seu último livro tem passagens bem visuais — as câmeras de monitoramento, o drone. Esses elementos, numa tela, ficariam muito bons. Eu também acho! Dá para ver vários pontos de vista, a panorâmica do drone. Há uns quinze anos eu adoro essa ideia do zelador de floresta. O sujeito que fica sozinho na floresta, vivendo meio num sobrevivencialismo, meio rústico, às vezes numa cabana. O Eliote até mora melhorzinho, mas é essa mesma ideia de viver numa barraca cuidando da floresta, com câmeras para captar imagens de bichos. Eu tinha muita vontade de ter esse personagem há anos. Com o Eliote, finalmente realizei a vontade de ter meu zelador de florestas, esse personagem solitário que fica monitorando esse espaço sombrio.

Seus textos são muito enxutos, com um uma linguagem econômica. Quando você escreve, reescreve muito, corta muito, ou já vai escrevendo direto nesse estilo mais telegráfico? Eu já escrevo direto, assim, textos econômicos; não costumo reescrever muito. Entendia que meus personagens falam pouco, permanecem mais em silêncio. Não são personagens que exigem muito diálogo, apesar de eu ter diálogos — eles param, refletem; às vezes você sabe o que estão pensando, às vezes não. Fui entendendo que o texto tinha que refletir também a aridez do lugar, desses personagens que não têm um vocabulário muito amplo. Acho até que o Eliote e o Tomás são os dois personagens com mais vocabulário; outros, como Bronco Gil e o Edgar Wilson, são mais econômicos. O texto foi se amoldando aos personagens e ao espaço geográfico. Meus dois primeiros livros não eram tão enxutos; é a partir de Entre Rinhas de Cachorros e Porcos Abatidos que eles começam a se tornar mais concisos, que é quando de fato entro nesse estilo literário de forma mais aprofundada. Aí percebo que houve um impacto direto no texto.

Seus livros foram traduzidos para diversos idiomas, inclusive para países bem diferentes do Brasil, como Lituânia e Irã, por exemplo. O que você acha que desperta essa atração? O que essas pessoas têm em comum com nossos leitores aqui? Sim, é curioso. De Gado e Homens, por exemplo, saiu na Turquia há dois meses e tem agradado muito, homens e mulheres. Tenho tido um retorno muito bom, que eu não esperava. Às vezes funciona na Turquia, mas na Alemanha não funciona. Eu acho que nós somos muito mais parecidos com os outros do que pensamos. No mundo inteiro as pessoas passam muito mais dificuldade, são muito mais pobres do que imaginamos. Os centros urbanos ricos são uma parte pequena e concentrada; o resto vive em periferias, em bairros afastados ou em áreas rurais, no mundo inteiro. Isso nos conecta. Tem também o questionamento em torno da morte. A morte é um dos temas que nos conecta a todos, e como meus livros tratam basicamente dessa relação com o fim, atingem a todos. E todo mundo tem essa referência do rural, mesmo quem é da cidade, os pais vieram do campo, os avós vieram do campo. Acho que minha literatura atravessa fronteiras por causa das próprias temáticas — morte, campo, a relação com o fim, com o sobrenatural. E o tema da violência também atinge a todos. O medo é comum a todos, a violência é comum a todos. Isso reverbera nesses países porque eles também vivem essas questões, são comuns a todos nós.

Recentemente você foi finalista do International Booker Prize. O que mudou na sua vida e na sua carreira? Aumentaram os convites para eventos no exterior? Aumentou o interesse por suas obras para tradução? A primeira coisa que mudou foi que comecei a vender mais livros imediatamente, aqui no Brasil e também em inglês. Comecei a receber muitos pedidos de tradução, e ainda estou recebendo, isso continua rolando. Vieram também convites para eventos, alguns consigo aceitar, outros, não. Estou me organizando para ver se vou à Espanha em fevereiro, mas ainda não sei se será possível.

Antes do Booker, você já tinha uma carreira bem consolidada nos países latinos e na Espanha, não? Pois é, antes do Booker eu já tinha uma trajetória construída. Publico em espanhol continuamente há onze anos, por uma editora Argentina chamada Eterna Cadencia, que também distribui na Espanha. Já ia bem na Argentina havia tempo. Antes do Booker, eu também já tinha ganhado, em 2024, o English PEN Translated Literature, um prêmio no Reino Unido para editoras independentes, por causa de “De Gado e Homens”. Ganhei também o Firecracker Award, nos Estados Unidos, um prêmio bem pequeno, e o livro ficou destacado no “The Guardian” como um dos melhores do ano. Isso tudo em 2023 e 2024. Em 2025, saiu em inglês o Assim na Terra como Embaixo da Terra, e acredito que a editora percebeu essa trajetória ascendente e resolveu apostar ao me indicar ao Booker. Só que essas coisas não reverberavam tanto por aqui — mas eu já estou acostumada a ter essas frentes em países diferentes, trabalhando de forma separada, sem que o que acontece num lugar necessariamente reverbere no outro. O Booker teve uma cobertura de imprensa muito importante, que ajudou bastante a divulgar meu trabalho aqui e lá fora.

Já leu alguma tradução em inglês ou em espanhol? O que achou? Em espanhol, sim, porque publico nesse idioma há onze anos, continuamente. Em inglês, meu domínio é mais básico, mas acho a tradução boa, tanto do primeiro quanto do segundo livro, mas não consigo avaliar com profundidade. Eu tenho que confiar no editor, que ele vai colocar um bom tradutor para cuidar dos meus livros.  Tive tradutoras diferentes para o inglês, a primeira era americana, e a segunda é uma indo-canadense, que segue comigo agora. Ano que vem devo lançar De Cada Quinhentos uma Alma; recentemente saiu Enterre seus Mortos; foi agora, em agosto. Ela segue traduzindo meus livros, porque estou publicando um por ano, só que meus livros não estavam funcionando tanto, mas o Booker deu um empurrão. 

A violência extrema, quando vista ou quando lida, não passa batida, marca as pessoas. Você se sente afetada pelos seus próprios textos? Sim, me afeta. Eu escrevo pouco por dia, uma página só, essa é a minha meta. Construí essa meta a partir da metade dos livros que escrevi para cá. Fico muito exaurida, meio drenada. Escrevo uma página, faço uma espécie de mergulho, uma apneia, e saio e volto para a minha vida — não volto cem por cento, mas volto o melhor que posso até terminar o livro.  Me afeta energeticamente, fico um pouco drenada. Os meus personagens ficam comigo; mesmo quando não estou escrevendo, eles continuam ali. Esse universo passa a fazer parte de mim, assim como eu passo a fazer parte dele. Acho que a consciência do fim, por exemplo, é algo que os meus livros me trouxeram de uma forma muito maior — algumas descrenças, perdas de ilusão. Antes eu tinha isso lendo filosofia; mas quando comecei a colocar em prática essas possibilidades de vida na ficção, percebi que aquilo não é tão ficção assim, é real, só que dentro de um contexto ficcional. Tudo aquilo é possível e passível de ocorrer. Então sim, me afeta.

E como você lida com a sua própria finitude? Pensa nisso de um jeito positivo, reflexivo? É importante ter consciência do fim, mas não é possível viver só pensando nisso. Tem que saber que ele vai chegar, e que esse mundo não é um mundo equilibrado, nem muito justo. Eu não acho o mundo bom; acho que nós nos esforçamos para torná-lo melhor. Podemos comer uma comida boa, ter momentos divertidos, dar risada, buscar o amor. Mas na maior parte do tempo, estamos correndo para sobreviver, para fugir da morte, para escapar dela. Seria bom se o mal fosse algo raro, mas não é assim. Eu acho o mundo mau, no sentido de ser um lugar estruturalmente ruim, incluindo o mundo físico e a sociedade humana. O ser humano é mau, quem pode explorar, explora, e quem está um pouco abaixo também explora quem está ainda mais abaixo. Não é uma crítica, é uma constatação, o mundo é naturalmente mau.

E em sua opinião, qual seria a origem do mal? Nós somos muito primitivos. Alguns conseguem se controlar, outros não. O homem é feito para brigar por um pedaço de carne, e nós ainda brigamos, de uma certa forma, por um pedaço de carne. Temos ainda nossas cavernas, não vestimos mais pele de animal, mas vestimos roupas, tentando nos comportar e se adequar ao mundo. Mas, no íntimo, existe esse primitivismo — se não existisse, não teria tanta gente fazendo terapia. Nós fomos feitos para reagir; isso é primitivo. Se não gostamos de algo, nosso impulso é dar um soco na cara, mas nós nos retemos, e isso vira o quê? Vira doença. Nós precisamos piorar ao longo da vida para sobreviver nesse mundo. A criança nasce com sentimentos bons, é doce na maior parte do tempo, não tem preconceitos. Mas, se ela não formar um pouco de casca, é moída pelas outras crianças que já formaram essa casca antes dela. Aquela doçura vai se perdendo pelo caminho. A pessoa nasce bom e precisa ir ficando mais casca-grossa para aguentar o mundo; e é aí que entram as máscaras sociais. Aguentamos um chefe que detestamos porque precisamos do emprego.

Essa sua visão do mundo e das pessoas não é muito pessimista? Não quero soar pessimista, é só uma constatação. Não sou uma pessoa infeliz, eu dou risada, procuro viver bem, fixo meu amor nas coisas de que eu gosto. Só que eu tenho consciência de que, se bobear, vão passar por cima de mim, vão me derrubar. Os adultos vão se tornando mais duros, mais desiludidos. Acho que já que é necessário, sim, é bom que a pessoa consiga se tornar assim para sobreviver. 

Publicidade

Fonte: Abril

Compartilhe isso:

  • Compartilhar no Facebook(abre em nova janela) Facebook
  • Compartilhar no X(abre em nova janela) X
Postagem Anterior

O caso Master entre o mundo físico e o digital

Próxima Postagem

Duas vítimas são retiradas em estado grave de escombros após desabamento em Niterói

Próxima Postagem

Duas vítimas são retiradas em estado grave de escombros após desabamento em Niterói

Deixe o Seu Comentário

PREVISÃO DO TEMPO

Fonte de dados meteorológicos: Wetter 30 tage

Tecnologia e Qualidade – 11 94388-6111

ABERTURA DE MICRO-EMPRESA 11 96614-3599

INVESTIGADOR PROFISSIONAL 11 98806-4613

GLOBAL CHIP SIM

JASMIRA IMÓVEIS (38) 9.8831-0162

O escritório contábil do futuro já começou: como a tecnologia está mudando a rotina do contador

GLOBAL CHIP SIM

https://redebcn.com.br/wp-content/uploads/2026/09/WhatsApp-Video-2026-09-10-at-00.53.46.mp4?_=1

NARDEL AZUOZ ASSESSORIA – 11 2825-4686

https://redebcn.com.br/wp-content/uploads/2026/10/WhatsApp-Video-2026-06-24-at-12.22.39.mp4?_=2

INVESTIGAÇÕES ULTRA SIGILOSAS 11 2825-4686

TERRENO EM JANAÚBA/MG (38) 9.9154-0000

CERTIFICADO DIGITAL SEM SAIR DE CASA

JASMIRA IMÓVEIS (38) 9.8831-0162

INVESTIGADOR DIGITAL 11 98806-4613

BCN PORTAL DE NOTÍCIAS

ASSESSORIA EMPRESARIAL – 11 2825-4686

  • Aggregator
  • Anuncie
  • Contato
  • Home
  • Política
  • Política de privacidade
  • Quem Somos
  • Trabalhe Conosco

© 2024 Rede BCN | Todos os direitos reservados. E-mail: redacao@redebcn.com.br

Sem Resultado
Ver todos os resultados
  • Menu
    • Política
    • Economia
    • São Paulo
    • Brasil
    • Educação
    • Entretenimento
    • Esportes
    • Saúde
    • Mundo
    • Tecnologia
    • Vídeos
  • Política de privacidade

© 2024 Rede BCN | Todos os direitos reservados. E-mail: redacao@redebcn.com.br

Sair da versão mobile