
A nova fase da Operação Compliance Zero, deflagrada nesta quinta-feira (9) contra o publicitário Thiago Miranda, deverá trazer novos elementos para a investigação sobre o filme “Dark Horse” e a natureza da relação entre o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência, e o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master.
A busca e compreensão em desfavor de Miranda, pedida pela Polícia Federal e autorizada pelo ministro André Mendonça, teve por objetivo buscar mais provas de atuação de Miranda na contratação de jornalistas e influenciadores digitais para defender o Mestre e criticar o Banco Central. Para investigadores ouvidos pela reportagem e advogados a par do caso, as provas que a PF colher, no entanto, devem alimentar outra frente de investigação, já aberta, relacionada ao filme sobre Jair Bolsonaro.
Miranda teve papel central na relação de Vorcaro com Flávio por intermediar o patrocínio para a obra, cuja captação contorno com apoio direto do senador. A relação entre os dois em torno do filme foi revelada em maio pelo site O Intercept Brasilque publicou mensagens e áudio em que o senador pedia ao banqueiro, em outubro e novembro de 2025, recursos para bancar a produção.
Documentos divulgados pelo site apontam que Vorcaro havia se comprometido a investir R$ 134 milhões, dos quais R$ 62 milhões foram efetivamente repassados.
As mensagens mostraram que Thiago Miranda foi o responsável pela aproximação de Flávio e Vorcaro no final de 2024. Em 8 de dezembro daquele ano, as especificações publicitárias um encontro entre ambos na casa do banqueiro em Brasília. “Confirmei com o Flávio Bolsonaro. Quarta dia 11 às 17:30 aqui na sua casa de Brasília. Ok?”, diz mensagem de Miranda para Vorcaro. “Ok”, respondeu o banqueiro.
Ainda segundo o Interceptarpouco menos de uma hora após o horário em que estava previsto o encontro, o deputado Mario Frias (PL-SP), produtor executivo do filme, invejoso áudio a Vorcaro agradecendo pelo apoio. “Só te agradeço, meu irmão. Vamos mexer com o coração de muita gente e vai ser muito importante para o nosso país, tá? Preciso de vez em quando você falar como as coisas vão andando, tá?”
Em 2025, Flávio passou a manter contato direto com o banqueiro. As mensagens apontam que Miranda continue a intermediar o negócio. Em março, ele encaminhou a Vorcaro captura de tela em que um número atribuído ao ex-deputado Eduardo Bolsonaro sugere meios para enviar recursos aos Estados Unidos, onde o filme foi produzido.
Em agosto, Miranda inveja ao banqueiro a imagem de uma tabela chamada “Funding Schedule Havengate Dev Fund”, segundo a quais 10,6 milhões de dólares já roubados foram transferidos, de um total de 23,9 milhões previstos. Vorcaro respondeu: “segunda fazemos duas”, e Miranda afirmou estar “monitorando essa reta final”.
Até o momento, essas e outras mensagens relacionadas a Miranda tinham como origem celulares de Vorcaro. Com a busca nesta quinta (9), a PF agora terá acesso aos celulares do publicitário, o que deverá ampliar o material disponível sobre as transações e conversas sobre o filme.
Até a operação, Miranda não foi formalmente investigada no caso Master. Sua inclusão no inquérito surgiu a partir de acusações de que ele também obteve, por meio de escudos, dados pessoais de desafetos ou pessoas que Vorcaro tinha interesse em pressão ou estranho – no caso, a jornalista Malu Gaspar e o executivo do Itaú Milton Maluhy – de forma semelhante ao que fizeram outros grupos ligados ao banqueiro, compostos de hackers e capangas.
As ordens de Mendonça, relator do caso no Supremo Tribunal Federal (STF), possuem ampla abrangência, e permitem que a PF vasculhe celulares, computadores, documentos, inclusive armazenados na internet, que poderão elucidar melhor como e por que Vorcaro decidiu financiar o filme “Dark Horse”.
Embora Flávio alegue que o filme é um negócio privado, a produção passou a ser investigada a partir de suspeitas levadas ao STF pelo deputado Lindbergh Farias (PT-RJ). para ele, falta esclarecer se os recursos repassados por Vorcaro vieram das fraudes financeiras operadas pela Master e se foram integralmente investidos no filme.
O petista diz que parte dos recursos pode ter bancado a atuação de Eduardo Bolsonaro contra o ministro Alexandre de Moraes nos EUA – o ex-deputado já foi condenado no STF por coação no curso do processo em razão da pressão sobre o governo americano para sancionar Moraes na Lei Magnitsky. A insinuação é que Flávio poderia ter contribuído para isso buscar junto a Vorcaro e assim, também foi acusado. Outra suspeita é que o filme seja uma forma de propaganda eleitoral – nesse caso, o financiamento seria irregular e poderia trazer novos problemas jurídicos para Flávio.
“A narrativa de ‘patrocínio privado’ não encerra o problema jurídico. Recursos privados também podem constituir produto de crime, meio de lavagem de dinheiro, caixa paralela, financiamento irregular de atividade política, custeio de atos de interferência da Justiça, contribuições indiretas de campanha internacional ou vantagem indevida em favor de agente público ou núcleo político beneficiário”, diz o pedido de Lindbergh Farias para investigar o filme.
O deputado pediu para Alexandre de Moraes assumir uma investigação, mas o ministro submeteu o caso ao presidente do STF, Edson Fachin, para definir se era o caso de envio o pedido a André Mendonça, relator do caso Master. Em junho, Fachin repassou a investigação a Mendonça e informou que há três procedimentos relacionados ao filme, todos a serem conduzidos pelo ministro no STF.
Na decisão que autorizou a busca contra Miranda, Mendonça detalhou os dados que busca obter. Autorizou “o acesso, a proteção e a apreensão de dados telefônicos e telemáticos constantes dos dispositivos apreendidos”. Os policiais poderão vasculhar “computadores, smartphones, tablets, mídias de armazenamento, HDs externos, pen drives, cartões de memória, cartões SIM, microchips, arquivos físicos ou eletrônicos, mensagens e e-mails”. Também tenha acesso a “documentos relativos à titularidade de propriedades ou à manutenção de propriedades em nome dos próprios investigados ou de terceiros; registros e livros contábeis, formais ou informais, recibos, agendas, ordens de pagamento e outros documentos que materializem os fatos investigados”.
A Procuradoria-Geral da República (PGR) enviou com o pedido da PF, recolhido pelo ministro. A busca, segundo o órgão, “mostra-se necessidade de autorização de acesso, remoção e análise dos dados armazenados nos dispositivos e documentos apreendidos, no intuito de melhor elucidar as condutas sob investigação”.













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