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Motta aposta em agenda de Lula para conter desgaste do Master

Redação Por Redação
23 de fevereiro de 2026
Em Notícias
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Motta aposta em agenda de Lula para conter desgaste do Master
Twitter1128254686redacaobcn@gmail.com



O presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), pretende acelerar a tramitação de pautas consideradas estratégicas para o governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), nas próximas semanas, como forma de se distanciar da crise sobre o Banco Master. O movimento é interpretado por aliados como uma tentativa de reposicionamento político em ano eleitoral e ocorre em meio à pressão pela instalação da CPI do Mestre, tema que enfrenta resistência por parte do presidente da Casa.

A lista de medidas eleitoreiras do governo e que devem ser aproveitadas por Motta conta com as PECs do fim da escala de trabalho 6×1 e a da Segurança Pública, além do projeto que regulamenta o trabalho por aplicativos. Nos bastidores, a mudança de ritmo na pauta da Câmara é vista como parte de um movimento mais amplo de reaproximação com o Planalto após um 2025 marcado por debates institucionais.

No início de fevereiro, Motta participou de um jantar com o presidente Lula e líderes partidários. O gesto foi interpretado como um sinal de distensão e de tentativa de fechamento de pontes em um ano legislativo mais curto e com forte componente eleitoral.

Nesse contexto, a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que extingue a escala 6×1, apresentada pela deputada Erika Hilton (PSOL-SP) e compensada ao texto do deputado Reginaldo Lopes (PT-MG), deve ser prioridade. A expectativa é que o relator seja escolhido na próxima semana, após o envio formal do projeto à Comissão de Constituição e Justiça (CCJ).

Motta afirmou que pretende pautar a discussão ainda no primeiro semestre, com votação prevista para maio. A matéria é considerada uma das principais bandeiras eleitorais de Lula para 2026 e enfrenta a resistência de setores empresariais, o que exigiu articulação com partidos do Centrão para ser aprovada.

“A relação [de Motta com o governo] é muito bom. Serenaram os ânimos, estamos tendo um diálogo muito construtivo. E a coisa tende a deslanchar, até porque temos um ano curto, bem curtinho. Temos que votar, porque, depois de junho, não se vota mais nada”, disse o líder do governo na Câmara, José Guimarães (PT-CE).

Segundo o petista, a relação “evoluiu” e o ambiente agora é de cooperação. “Terminamos o ano com um saldo político positivo. A relação estava estrangulada em determinado momento, mas o diálogo foi retomado e trabalhado”, declarou.

Motta quer afastar a pauta da Câmara do escândalo sobre o Banco Master

Parlamentares aliados de Motta avaliam que o momento eleitoral exige que o presidente da Câmara adote uma agenda positiva. O deputado já sinalizou que não pretende, por exemplo, instalar a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Banco Master.

Ao ser questionado sobre o tema, Motta usou o argumento de que há 16 pedidos de CPIs na Casa e que o regimento interno permite apenas cinco em funcionamento simultâneo. “Não descarto, mas cumpro o regimento. O que eu quero que fique claro é que todo malfeito possa ser planejado conforme as leis do país, sem previsão prévia”, declarou o presidente da Câmara.

Para Gabriela Santana, especialista em Relações Governamentais e Legislativas da BMJ Consultores Associados, o controle da agenda é a melhor forma de contenção de danos. “A criação de fatos políticos positivos ou de alta combustão social (como a escala 6×1) consome o oxigênio da mídia e o tempo das discussões políticas. Ao trazer para a luz esses temas de grande repercussão, o custo político de insistir em uma CPI que atinge o sistema financeiro e as conexões políticas torna-se mais alto e menos atraente”, explica.

Apesar disso, a ala do Congresso que defende o avanço das investigações sobre o Mestre não deve reduzir a pressão sobre Motta. Autor do requerimento protocolado na Câmara, o deputado Rodrigo Rollemberg (PSB-DF) já sinaliza que poderá recorrer ao Supremo Tribunal Federal (STF), caso não obtenha resposta institucional ao pedido de investigação.

Segundo Rollemberg, o fato de não haver nenhuma CPI instalada hoje derrubou o argumento de que haveria uma fila de pedidos aguardando análise. Para o deputado, se não houver CPI instalado, não há fila a ser respeitada.

Já a oposição tem preferido apostar numa Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI), que envolveria deputados e senadores. Neste caso, a decisão final caberia ao presidente do Senado e do Congresso, Davi Alcolumbre (União-AP).

“Neste exato momento da legislatura e do ano de 2026, o design eleitoral é o motor de todas as decisões. A estabilidade institucional é o produto que Motta está vendendo para convencer os pares e o mercado de que ele é o nome certo para continuar na presidência da Câmara”, explicou a analista Gabriela Santana.

Referendo sobre maioria penal gera impasse na PEC da Segurança

Na mesma estratégia de reaproximação com o governo e de afastar a Câmara do caso Master, Motta sinalizou também que pretende votar, ainda neste semestre, a PEC da Segurança Pública e o projeto que regulamenta o trabalho por aplicativos. A primeira é vista como uma bandeira de Lula para a campanha eleitoral, tendo em vista a avaliação negativa do petista sobre o tema.

“Nós sabemos que a segurança pública é um problema. Estou com a PEC para definir o papel da União. Se a PEC for aprovada, vou criar o Ministério da Segurança Pública, mas vai ter que ter dinheiro”, disse Lula, recentemente, durante um evento na Bahia.

O petista enxerga a proposta como uma das principais ações para combater o crime organizado e — politicamente — como medida que pode fortalecer sua candidatura à reeleição, dada a crescente relevância do tema nas pesquisas de intenção de voto.

O texto é relatado pelo deputado Mendonça Filho (União-BA), que incluiu no parecer a possibilidade de referendo sobre a redução da maioridade penal. Segundo ele, o ambiente político é favorável ao avanço da proposta.

“O ambiente político não poderia ser melhor, porque interessa a todos. Essa é uma demanda da sociedade brasileira, que é justamente oferecer mais segurança”, afirmou.

No Executivo, o ministro da Justiça, Wellington César Lima e Silva, introduziu um discurso conciliador e defendeu o diálogo em torno de um “consenso nuclear”. “Não se pode dizer que uma modalidade de consulta popular seja, em si mesma, um mal. Colocar esse debate para a sociedade brasileira é absolutamente legítimo”, declarou.

Apesar disso, a inclusão do referendo sobre a redução da maioria penal no texto da PEC tem sido alvo de críticas por parte do próprio PT. Em artigo publicado pelo líder governista da Câmara, José Guimarães, o parlamentar alegou que o relator apresentou uma versão da proposta que promove uma “centralidade dos estados” e altera “profundamente a lógica do texto original” elaborado pelo Executivo.

Segundo ele, o parecer faz uma “agregação descabida de temas incompatíveis”, ao arranjo reforma constitucional com o que foi classificado como “agenda punitivista”. A manifestação pública foi interpretada como um recado político de que o PT não pretende endossar automaticamente o novo âmbito da proposta.

Motta tenta consenso sobre regulamentação do trabalho por aplicativos

Outro eixo da nova agenda da Câmara é o projeto que regulamenta o trabalho por aplicativos (PLP 152/25), relatado pelo deputado Augusto Coutinho (Republicanos-PE). A proposta cria um regime jurídico próprio para motoristas e entregadores, prevendo proteção previdenciária, transparência nas regras algorítmicas e possibilidade de revisão humana em casos de bloqueio.

O tema é tratado como prioridade por Motta, que sinalizou votação ainda no primeiro semestre. O texto é resultado de articulação liderada no Executivo pelo ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos (PSOL), e pelo ministro do Trabalho, Luiz Marinho.

O projeto, no entanto, enfrentou resistência aberta das plataformas, que alertam para riscos econômicos, alta de custos ao consumidor e insegurança jurídica. Além disso, a medida provocou revolta entre os próprios entregadores, que acusaram o ministro Guilherme Boulos de instrumentalizar lideranças de trabalhadores para negociar um projeto rejeitado pela base.

“Ele [Boulos] instrumentalizou as lideranças, criou uma narrativa única sobre as reivindicações dentro da bancada e, no final, negociou apenas o INSS, deixando o trabalhador sem direito a nada”, disse Abel Santos, porta-voz da Associação dos Trabalhadores por Aplicativos e Motociclistas do Distrito Federal e Goiás.

Apesar disso, Coutinho sinalizou que o texto busca garantir a segurança jurídica “ao trabalhador, às plataformas e ao consumidor”, sem inviabilizar o setor.

Para a especialista Gabriela Santana, essa e as demais pautas reforçam a estratégia de Motta de ocupar o centro do debate político com temas de grande repercussão social.

“Ao assumir a condução de um projeto sensível e com impacto direto na vida de milhões de trabalhadores, Motta amplia seu capital político e demonstra capacidade de cooperação entre interesses divergentes”, avaliou.

Ainda segundo o analista, em ano eleitoral, a convergência em torno do tema pode servir tanto ao governo, que reforça a sua narrativa social, quanto ao presidente da Câmara, que consolida a sua imagem de articulador.

“É claro que o governo ganha vitórias pontuais e custos na agenda, mas Motta ganha a posição de promotor da estabilidade. Essa reaproximação o posicionamento como resolvedor de problemas do governo, demonstrando ao Planalto que o preço do apoio dele é uma garantia de governabilidade futura”, completou.

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