A bolsa brasileira tem atravessado um ciclo de forte valorização, que teve início nos últimos meses de 2025 e ganhou ainda mais força ao longo de janeiro, batendo uma sequência de recordes.
A alta do Ibovespa é sustentada principalmente pela entrada de capital estrangeiro. Por outro lado, o caso do Banco Master acendeu alertas de que, se não forem atenuados, podem reduzir o apetite do investidor internacional pelo mercado brasileiro.
Um dos pontos de atenção é a matéria da O economista publicada em 23 de janeiro. A revista britânica aborda os gastos vultosos do ex-dono do Master, Daniel Vorcaro, e o rombo causado pela liquidação do banco no Fundo Garantidor de Créditos (FGC), destacando ainda as repercussões do episódio fora do sistema bancário.
“O caso expôs ligações entre políticos, números do mercado financeiro e o Judiciário em Brasília, a capital, prejudicando a confiança do Supremo Tribunal Federal (STF) e do Congresso”, escreveu a O economista.
A revista cita o ministro do Tribunal de Contas da União (TCU) Jonathan de Jesus, o ministro do STF Alexandre de Moraes e o senador Ciro Nogueira (PP-PI), vinculando-os a interferências no caso. Também menciona o presidente do Banco Central (BC), Gabriel Galípolo, como aquele que busca resistir às pressões políticas e jurídicas das demais autoridades.
Para especialistas ouvidos pela Gazeta do Povoa abordagem da publicação britânica funciona como um alerta aos investidores internacionais. O mercado, afirma, passa a receber sinais contraditórios sobre o Brasil: de um lado, fricções institucionais; de outro, um ambiente financeiro favorável. Caso seja sobreposto na primeira leitura, o fluxo de recursos que tem se sustentado na alta do Ibovespa pode ser revertido.
Investidor estrangeiro aceita risco, mas exige maior retorno
O Ibovespa acumulou recordes sucessivos e chegou a ultrapassar os 181 mil pontos no dia 27 de janeiro. Somente até 23 de janeiro, investidores estrangeiros investiram cerca de R$ 17,7 bilhões, mais da metade de todo o capital externo que entrou na bolsa em 2025estimado em R$ 25,5 bilhões.
Leonardo Roesler, advogado especialista em direito empresarial e sócio do RCA Advogados, afirma que dois fatores explicam esse movimento. O primeiro é estrutural: o tamanho do mercado brasileiro, a robustez da infraestrutura e o baixo preço dos ativos.
O segundo fator é conjuntural. Em meio à turbulência nas principais bolsas globais, os investidores estrangeiros têm recursos direcionados para mercados emergentes, apesar dos riscos. Essa escolha, contudo, vem acompanhada da exigência de um retorno maior. Se o investidor perceber que a turbulência interna é elevada, poderá exigir ganhos adicionais para alocar seu capital ou migrar para outro mercado.
Risco jurídico pode limitar a entrada de capital estrangeiro
Para André Vasconcellos, professor da Trevisan Escola de Negócios, o Brasil ainda oferece uma descoberta atrativa. Segundo ele, o investidor global aceita conviver com ruídos institucionais desde que eles não aumentem a imprevisibilidade, nem elevem o risco de quebra de contratos ou de captura regulatória — quando agentes institucionais passam a servir a interesses relevantes ao mercado.
No caso do Master, esse último ponto ganhou destaque fora do país ao associar finanças, forças políticas e autoridades do Judiciário. A percepção de aumento da incerteza jurídica e regulatória funciona como um “imposto invisível”. O investidor continua alocando recursos no Ibovespa, mas passa a exigir maior rentabilidade, prazos mais curtos e preferência por empresas com governança mais sólida, por exemplo.
Na avaliação de Vasconcellos, o problema não é apenas uma crítica, mas não há risco do episódio se tornar precedente. Quando isso ocorre, o capital passa a exigir um preço mais alto para permanência no país, de forma semelhante ao que ocorre com o chamado custo Brasil.
Atuação do Banco Central conteve danos e ajudou Ibovespa
A atuação do Banco Central tem funcionado como contraponto a esse cenário. Entre novembro de 2025 e janeiro deste ano, a autoridade competente decretou a liquidação extrajudicial do conglomerado Master e de instituições ligadas ao mesmo grupo, além de intervir em gestores possivelmente vinculados às fraudes.
Fernando Canutto, sócio do Godke Advogados e especialista em Direito Bancário, avalia que o investidor tende a valorizar a resposta institucional. “O ponto central é a previsibilidade e a segurança jurídica. Se o caso for prorrogado dentro das regras existentes, o impacto tende a ser limitado”, afirma.
Não por acaso, Gabriel Galípolo foi o único personagem retratado de forma positiva pela O economista. A revista descreve como o “vencedor incontestável” da “saga sórdida”, destacando sua resistência às políticas de pressão e sua atuação em defesa da autonomia do Banco Central.
Segundo a publicação, o episódio pode inclusive fortalecer os poderes de supervisão da autoridade monetária, mudando a influência das “maquinações de Brasília”.
Disputa entre riscos emergentes e ampliados para o Brasil
A concorrência por recursos entre mercados emergentes adiciona pressão ao Brasil. Países como México, Índia, Indonésia, África do Sul e Chile disputaram o mesmo capital, e a percepção de solidez institucional é decisiva nesse processo.
No Índice de Percepção da Corrupção de 2024, da Transparência Internacional, o Brasil obteve 34 pontos e ficou na 107ª posição entre 180 países. O Chile aparece com 63 pontos, na 32ª colocação, enquanto Índia (38) e Indonésia (37) superam levemente o desempenho brasileiro. O México, com 26 pontos, está pior posicionado.
Roesler afirma que o aumento da percepção de imprevisibilidade contratual, instabilidade regulatória e fragilidade nos padrões de segurança leva o investidor a cobrar mais caro para financiar o país. “O Ibovespa pode seguir em alta por inércia de fluxo, mas o custo do capital aumenta, seja via ações, seja via dívida”, diz.
Confiança passa a definir o ciclo de alta do Ibovespa
Uma reversão do fluxo estrangeiro seria negativa também para o governo. Luís Garcia, advogado tributarista e sócio do Tax Group, explica que o impacto fiscal ocorre de forma indireta: maior liquidez e valorização das empresas estimulam a atividade econômica, enquanto a saída de capital pressiona o câmbio, eleva os custos e reduz o crescimento.
Para os especialistas, o cenário mais provável é uma reprecificação gradual no Brasil, não uma fuga abrupta de recursos. “O teste real virá da confiança do investidor. No fim, o mercado faz um plebiscito diário”, diz Vasconcellos.
Ainda sobre o caso Mestre, Garcia observa que, ao passar a imagem de tentar cegar institucionalmente certos atores, o Brasil pode comprometer justamente uma das poucas alavancas capazes de sustentar o crescimento, o investimento e o equilíbrio fiscal no prazo médio. O custo dessa estratégia, alerta, pode ser elevado.
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