Em um cenário onde o Brasil alcança recordes em transplantes, reforçando a vital importância da doação de órgãos, a história de Anne Dias Esteves, de Juiz de Fora (MG), emerge como um testemunho inspirador. O amor materno, frequentemente descrito como um instinto capaz de enfrentar o impossível, guiou Anne por uma jornada de superação de sete anos para salvar sua filha, Priscilla.
Ao ver a saúde da filha debilitada por uma doença renal, Anne aprendeu todos os cuidados necessários para o tratamento domiciliar e, em um ato de extrema generosidade, doou um de seus próprios rins. Em 2026, a cirurgia que uniu ainda mais as duas completará sete anos, um marco de vida e esperança. “Com muita fé, muito amor e muitas bênçãos, aconteceu exatamente como planejei”, relembra Anne, que hoje atua como incentivadora da doação de órgãos.
Da Filha Paciente à Mãe Cuidadora
A vida de Anne tomou um rumo inesperado quando Priscilla, aos 24 anos, recebeu o diagnóstico de nefropatia por IgA. Este impacto inicial foi devastador, mas o medo rapidamente deu lugar à ação. A nefropatia por IgA, também conhecida como doença de Berger, é uma condição renal autoimune em que depósitos de anticorpos IgA nos rins causam inflamação, podendo comprometer a função renal e, em casos graves, evoluir para insuficiência renal, demandando diálise ou transplante.
Diante da falha dos medicamentos e da iminência da diálise, Anne recusou a ideia de uma rotina hospitalar para a filha. Ela buscou treinamento intensivo no Hospital Universitário da UFJF para dominar a diálise peritoneal, transformando o ambiente doméstico para oferecer a Priscilla dignidade e conforto durante o tratamento. A diálise peritoneal é uma terapia renal substitutiva realizada em casa, que utiliza o peritônio, uma membrana localizada no abdômen, para filtrar o sangue e remover toxinas.
A Convicção de Ser a Doadora
Enquanto Anne monitorava o tratamento de diálise da filha, ela iniciou secretamente os exames para verificar a compatibilidade de doação. Apesar das dúvidas alheias e sugestões para que outros fizessem os testes, sua intuição permaneceu inabalável. “Eu nunca duvidei. Desde o início, sentia que seria a doadora dela”, afirma a mãe.
A confirmação da compatibilidade de Anne, um momento de profunda emoção, chegou em uma data simbólica: 27 de maio, véspera do aniversário de Priscilla. Em um gesto de carinho, Anne guardou a notícia por 24 horas, revelando-a no dia seguinte com uma carta que anunciava o fim da busca por um doador: o rim estava dentro da própria casa.
Doar Como Ato de Cura Pessoal
Hoje, aos 50 anos, Anne vê a cicatriz do transplante não como um sinal de dor, mas como um emblema de gratidão e vitória. O êxito da cirurgia e a recuperação de Priscilla inspiraram-na a escrever um livro, buscando acolher e guiar outras famílias que enfrentam desafios semelhantes.
Para Anne, o ato de doar um rim foi muito mais do que um sacrifício pela filha; foi uma experiência de cura pessoal e renovação. “Minha forma de agradecer é compartilhando essa história. Eu descobri que doar também cura a gente”, conclui, destacando o impacto transformador da solidariedade.
Fonte: https://g1.globo.com












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