A poucos dias de um hipotético novo encontro presencial, possivelmente no domingo (26), na Malásia, destinado a discutir o acordo comercial entre Brasil e Estados Unidos, os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump mostraram nos últimos dias que a tão repetida “química” entre eles está longe de gerar resultados concretos.
As divergências comerciais e políticas seguem, principalmente após recentes críticas públicas de Lula aos Estados Unidos e suas ocorrências à investida de Trump contra o ditador venezuelano Nicolás Maduro. Também se mantêm tarifas de 50% sobre uma lista de produtos importados do Brasil, bem como punições aplicadas pela Casa Branca às autoridades brasileiras.
Segundo analistas ouvidos pela Gazeta do Povoo contraste entre o discurso e a prática já foi visível na nota conjunta divulgada pelas chancelarias do Brasil e dos Estados Unidos na quinta-feira (16), um dia após o encontro em Washington dos respectivos chefes da diplomacia, o ministro Mauro Vieira e o secretário de Estado, Marco Rubio, exaltando harmonia e perspectivas.
Apesar das tratativas diplomáticas, Lula retoma retórica antiamericana
Enquanto Washington resiste ao regime autoritário da Venezuela e se estranha com o governo da Colômbia – ambos os casos sob o argumento de sufocar o narcotráfico –, Lula escala a verbalizações à política intervencionista de Trump, defendendo soluções negociadas.
Para o Brasil, o desafio é não deixar que as divergências anulem esforços pela reabertura do diálogo. Lula chegou a dizer que houve “petroquímica” com Trump, mas também disse que o Brasil “não abaixou a cabeça” depois de ser “ofendido e sobretaxado” por ele.
A crise entre Brasília e Washington teve um episódio “fora da curva” em 23 de setembro, durante a Assembleia Geral da ONU, com breve encontro entre os presidentes, seguido de videoconferência. Apesar da aposta do Palácio do Planalto de avanço na reunião de chanceleres, as feitas em julho seguem da mesma maneira, com tarifas extras da gestão Trump, alegando abusos judiciais por parte do Brasil.
Em 30 de julho, o secretário do Tesouro americano, Scott Bessent, justificou o tarifaço como resposta a “agressões aos direitos humanos e cerceamento de liberdades”. A Casa Branca acusou o Brasil de falhar no “devido processo e na liberdade de expressão”. O Itamaraty reagiu, denunciando a medida como tentativa de “pressionar o Judiciário e enfraquecer a soberania” brasileira.
Apesar da abertura dada por Trump, Lula retorna à retórica antiamericana
No sábado (18), em São Bernardo do Campo (SP), Lula afirmou aos estudantes que querem criar uma “doutrina” com professores e alunos latino-americanos para fortalecer a independência da América do Sul e evitar que “presidentes de outros países falem grosso com o Brasil”, em referência a Trump. A fala ocorreu num aulão de cursos na cidade que é o seu berço político.
Dois dias depois, nesta segunda-feira (20), na cerimônia de recepção de 28 embaixadores, Lula defendeu a soberania da América Latina e o pacto regional pela paz. “Somos um continente livre de armas de destruição em massa”, disse, criticando intervenções externas. O presidente enfatizou que a região vive um período de “polarização e instabilidade” e precisa ser unida.
Em discurso no congresso do PCdoB – Partido Comunista do Brasil -, na quinta-feira (16), também em Brasília, Lula criticou diretamente os Estados Unidos, afirmando que “não é nenhum presidente de outro país que deva dar palpite sobre Venezuela ou Cuba”. Ele exaltou o regime cubano como “exemplo de povo de dignidade” e reprovou “distorções da direita” sobre os defensores dos direitos humanos.
Especialista aponta firmeza dos EUA com as condicionantes para acordos
Márcio Coimbra, diretor do Instituto Monitor da Democracia, aponta clara desconexão entre a retórica cordial da diplomacia e a realidade bilateral. “Enquanto a nota oficial fala de convergência e cooperação, autoridades americanas do Departamento de Estado reafirmam as condicionantes”, diz.
A manutenção das avaliações comerciais como instrumento de pressão, sem qualquer flexibilização, mostra que o “reatamento” é superficial, segundo Coimbra. “O atrelamento de questões comerciais e políticas específicas segue intocado, sem mudança substantiva na postura americana”, sublinha.
Ele acrescenta que a ocorrência de Lula à ameaça de Trump contra Maduro favorece o descompasso. “O seu representante a países que “falam grosso” com o Brasil também destoa da tal “química” com o presidente americano. Essa dubiedade sugere indecisão, minando a capacidade de negociar”, pondera.
Na ONU, Trump justificou medidas unilaterais como instrumentos de proteção dos interesses americanos e acusou o Brasil de censura, corrupção judicial e perseguição política. Mas, junto com a crítica, veio o afago: o presidente dos EUA disse na oportunidade que Lula parecia “homem bom” e houve “excelente química” entre eles.
Professor avalia gestos recentes como previsíveis e sem impacto decisivo
Para Daniel Afonso Silva, professor de Relações Internacionais da USP, o breve encontro entre Lula e Trump, seguido de videoconferência, serviu apenas para amenizar o relacionamento bilateral. “Não há espaço no mundo real para ilusões. A quebra de gelo não resolve nada”, diz.
O especialista não viu surpresas na declaração conjunta sobre o encontro entre Rubio e Vieira, cujo tom previsível não traria rusgas e contradições. “A diplomacia cumpriu seu papel e as autoridades americanas fizeram o esperado de manter as avaliações ao Brasil”, observa.
Da mesma forma, Silva acredita que Lula não escapou do figurino esperado ao criticar as ameaças de Trump à Venezuela. “Ele reagiu à iminente intervenção externa, falando à região, sobretudo aos países de tradição recente mais à esquerda”, resume.

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