O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) decidiu mudar a estratégia de comunicação e desenvolveu, nesta quinta-feira (16), o discurso de paternidade sobre as operações da Polícia Federal decorrentes das investigações sobre as fraudes financeiras cometidas pelo banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master. Mais cedo, a autoridade deflagrou a quarta fase do Compliance Zero que levou o ex-presidente do Banco de Brasília (BRB), Paulo Henrique Costa, à prisão.
A mudança de estratégia ocorreu pouco depois, no final da manhã, com a convocação de uma entrevista coletiva com representantes do Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP) e da Polícia Federal pela Secretaria de Comunicação da Presidência da República (Secom), tocada pelo publicitário Sidônio Palmeira.
A medida busca tentar reverter os baixos índices de popularidade de Lula e a suspeita de proximidade do escândalo do Mestre com o governo, ainda mais com a proximidade com as eleições de outubro em que o petista tentará um quarto mandato.
Mais recentemente, manobras de parlamentares governamentais fizeram com que os relatórios da CPMI do INSS e da CPI do Crime Organizado fossem rejeitados. Entre as apurações das comissões foram justamente as fraudes financeiras do Banco Master tanto no roubo a aposentados e pensionistas do INSS, com uma citação ao filho de Lula, o empresário Fábio Luís – conhecido como “Lulinha” –, como a possível ligação do banco com grupos criminosos.
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A sensação de mudança de estratégia para o governo foi apontada como “pai” das operações foi explicitada pelo ministro Wellington César Lima e Silva, da Justiça e Segurança Pública, que citou a convocação da entrevista coletiva pela Secom. A única vez que o governo se pronunciou sobre as ações da Polícia Federal relativas ao Banco Master foi após a deflagração da primeira fase do Compliance Zero, em novembro do ano passado, quando o diretor-geral da autoridade, Andrei Passos Rodrigues, explicou a investigação.
“A Secretaria de Comunicação é o órgão do governo que tem a sensibilidade de perceber a intensidade das demandas e sempre que formos instados para prestar informações à imprensa, que desempenha um papel fundamental em nossa sociedade democrática, nós prestaremos essas informações nos limites daquilo que for possível”, afirmou ressaltando o caráter sigiloso da investigação e que não poderia prestar todas as informações pedidas pela imprensa.
Silva ainda citou que estas e outras operações tocadas pela Polícia Federal e demais órgãos – entre elas o Carbono Oculto, deflagrada em agosto do ano passado contra um esquema de adulteração de combustíveis e lavagem de dinheiro pelo PCC – terão “mais ênfase nos próximos dias, caracterizando a nossa obsessão pelo combate ao crime organizado”.
A questão da segurança pública é apontada pela população, em pesquisas de avaliação do governo, como a principal preocupação – e que respinga diretamente na imagem do presidente com a proximidade das eleições.
A possibilidade de não poder fornecer mais informações sobre a investigação foi confirmada depois pelo diretor-executivo da Polícia Federal, William Murad, representando Rodrigues em entrevista coletiva.
“Temos o levantamento de sigilo em relação a algumas partes das operações, mas temos limitações para entrar em detalhes específicos sobre isso. O foco foi a corrupção dos gestores e todo o esquema de lavagem de dinheiro decorrente desses atos de corrupção. Esse é um ponto relevante que se conecta com a primeira fase e com todo o esquema de violência”, pontudo fazendo um histórico do que foi descoberto pela Polícia Federal desde o início das investigações.
Autonomia da PF
Embora nenhuma nova informação tenha sido apresentada pelas autoridades além das ocorrências que já foram divulgadas mais cedo no despacho do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), que autorizou a operação, Silva e Murad enfatizaram que o governo Lula concedeu toda a autonomia necessária para que a Polícia Federal proceda com as investigações de Vorcaro e do Mestre.
“O importante registrador é que a Polícia Federal, e eu acredito que esse seja um conhecimento e um sentimento de todos, que ela segue firme com total e ampla autonomia para investigar todos os momentos dessa operação. E não vai ser diferente em nenhum momento”, destacou Murad.
O secretário nacional de Segurança Pública, Chico Lucas, bateu na mesma linha e afirmou que a operação “é dentro desse contexto e dentro dessa diretriz do presidente Lula, de atacar o andar de cima e os magnatas do crime com a independência necessária para a Polícia Federal atuar”. As autoridades afirmaram não poder fornecer informações sobre outros agentes públicos envolvidos nas investigações por contato do segredo de Justiça.
Ao comentar a complexidade do caso, Murad ainda destacou que as apurações estão em andamento e devem se aprofundar para possíveis novas fases da Operação Compliance Zero.
“São muitos os fatos, não conseguimos fazer tudo de uma vez só. Há limites em relação a toda atuação dentro do sistema de Justiça, mas que ninguém pode ter dúvida alguma sobre a autonomia que temos para fazer isso. E continuaremos a utilizar todas as ferramentas, o conhecimento, a experiência investigativa de todos da Polícia Federal para aprofundar os desdobramentos”, declarou.
Em outro momento da entrevista coletiva, Chico Lucas afirmou que Lula aprovará um novo decreto que promete exigir o cerco financeiro às facções criminosas no âmbito da Lei Antifacção, sancionada no mês passado.












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