O senador e pré-candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL-RJ) chega à reta final das articulações para as eleições de 2026 ampliando seus palácios estaduais. Longe de encarnar um estranhoele mantém o trânsito entre políticos do Centrão para além da direita “pura”, aglutinando a intenção de voto no campo conservador desde que foi anunciado oficialmente pelo PL — um dos maiores partidos do país, com ampla caixa do Fundo Eleitoral para financiar a campanha no pleito deste ano.
Nas contas do presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, o partido deve ter pelo menos 12 candidaturas próprias aos governos estaduais neste ano — o que abre espaço para palanques mais robustos durante a campanha presidencial do senador nesses estados. Para fins de comparação, quando o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) concorreu à reeleição contra Lula (PT) e perdeu a disputa em 2022, o PL contorno com apenas quatro palanques próprios.
De acordo com dois parlamentares do PL de São Paulo que acompanham de perto esta articulação, em conversa com a Gazeta do PovoFlávio Bolsonaro assumiu o papel de principal articulador político do partido para as eleições majoritárias de 2026, centralizando a montagem dos palácios estaduais com foco em sua possível candidatura presidencial.
Ele considera fundamental ter um candidato majoritário forte, ao governo ou ao Senado, em São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro — estados que, juntos, concentra cerca de 40% do eleitorado. Em São Paulo, apesar de não ser do PL, o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP) fez reiteradas demonstrações de ser um aliado fiel da família Bolsonaro e conquistou a confiança do senador.
Apesar de um arco amplo de alianças do centro à direita, a prioridade são os mesmos palanques próprios. A estratégia — com a participação do ex-presidente Jair Bolsonaro, que teve o benefício de prisão domiciliar por 90 dias — garante a presença de Flávio nos palácios de estados-chave. Por outro lado, a mudança de rumo coloca em risco alianças regionais com governadores de centro-direita, além de mostrar a autonomia do PL em relação aos partidos do Centrão.
A reviravolta da semana passada no Paraná é um exemplo disso. Entre outros fatores, o anúncio da filiação do senador Sergio Moro ao PL para concorrer ao governo do estado com o apoio mútuo com Flávio, teria pegado o governador Ratinho Junior (PSD-PR) de surpresa e feito ele abandonar sua pré-campanha presidencial para tentar reorganizar sua base eleitoral em casa.
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Alianças levarão Flávio Bolsonaro a 24 palanques estaduais
Somadas às candidaturas de aliados, o número de palanques disponíveis para Flávio Bolsonaro discursar pode chegar a pelo menos 24 neste ano, abrangendo quase todo o país com candidaturas à reeleição ou de oposição nos governos estaduais.
Essas alianças são importantes, pois trazem abertura e capilaridade às campanhas nacionais regionalmente, principalmente fora dos grandes centros, com aliados locais que conhecem e são conhecidos pelas competições — um diferencial importante em uma campanha que deve ser emocionante e que tem de ser feita presencialmente, percorrendo um país de dimensões continentais como o Brasil.
Em São Paulo, principal colégio eleitoral do país, a aliança de apoio mútuo já está fechada com o governador Tarcísio de Freitas, que tentará a reeleição. Flávio e Valdemar ainda não desistiram, inclusive, de tentar emplacar o vice na chapa de Tarcísio. O nome indicado pela sigla é do presidente da Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp), André do Prado (PL).
Em Minas Gerais, a segunda maior eleição eleitoral do país, o cenário é de indefinição na construção de um palanque para o pré-candidato do PL, sob o comando do deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG). O pré-candidato ao governo e senador Cleitinho Azevedo (Republicanos-MG) e o atual governador Mateus Simões (PSD-MG) disputaram o apoio do PL no estado, mas a sigla ainda não desistiu de ter um nome próprio na eleição mineira.
No Sul do país, o PL deve ter candidatura própria em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul, além do Paraná. O governador catarinense, Jorginho Mello (PL), buscará a reeleição. Em terras gaúchas, o deputado federal Luciano Zucco (PL) já anunciou a intenção de disputar o Palácio Piratini, sede do Executivo gaúcho.
“O que está por trás dessa ampliação de palanques estaduais do PL é uma mudança silenciosa, mas profunda: a família Bolsonaro deixa de ser um movimento e passa a fazer parte de um projeto partidário clássico”, afirma à Gazeta do Povo o cientista político Samuel Oliveira.
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O cientista político lembra que Bolsonaro conseguiu mobilizar partidos aliados pela força da popularidade e da pressão da base, orbitando acima da estrutura partidária. “Flávio Bolsonaro não tem, ao menos por agora, o mesmo magnetismo eleitoral. Ele é competitivo, mas não produz o mesmo nível de mobilização emocional que obrigava os partidos a aderirem quase automaticamente ao projeto”, avalia o analista.
Nesse contexto, quem venceria um protagonismo silencioso é Valdemar Costa Neto. “A estratégia de lançar mais candidaturas próprias aos governos estaduais mostra que o PL está pensando menos como movimento e mais como partido que quer ampliar a bancada, especialmente no Senado e na Câmara”, diz Oliveira.
Dessa forma, a lógica passa a ser mais institucional: fortalecer a presença territorial, aumentar o número de governadores, garantir palanques e, sobretudo, consolidar o PL como principal legenda da direita.
“Só que isso pode ter efeito colateral eleitoral. Bolsonaro cresceu como influência ‘antissistema’, com forte apelo popular e discurso contra a política tradicional”, alerta o cientista político. “Quando a estratégia passa a ser percebida como engenharia partidária, parte do eleitor mais ao centro, e até setores da própria direita, podem reagir com mais cautela”, completa.
Na avaliação do analista, a priorização de candidaturas próprias também tende a tensionar aliados naturais da direita, como PSD, PP e União Brasil. “Com Jair, muitos partidos aceitaram papel secundário porque havia um líder que concentrava votos e agenda. Com Flávio, a lógica muda: os partidos passam a se comportar como partidos, buscando espaço próprio, palanque próprio e protagonismo próprio.”













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