O desfile da Acadêmicos de Niterói sobre a trajetória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) provocou forte ocorrência no meio cristão, principalmente entre os evangélicos, o que acendeu o sinal de alerta no governo petista. A maior preocupação do grupo político de Lula é com o impacto do desfile na corrida pela reeleição em outubro, após a escola de samba retratar a “família em conserva”na mesma hora que ridicularizou o movimento conservador.
Apesar das denúncias de propaganda antecipada e abuso de poder na Justiça Eleitoral, o que pode até deixar Lula inelegível, o julgamento do eleitor cristão preocupa ainda mais o governo petista. O histórico eleitoral dos evangélicos justifica o alarme. Nas últimas duas eleições presidenciais, o grupo religioso se consolidou como o que mais rejeita Lula, e a sátira na Sapucaí pode aumentar o abismo entre o PT e os evangélicos, identificados com as bandeiras da direita conservadora.
Nas redes sociais, veio um acontecimento de católicos e evangélicos, que passaram a publicar imagens das próprias famílias “enlatadas” com recursos de inteligência artificial, em defesa do conservadorismo. Um dia após o rebaixamento da Acadêmicos de Niterói no Carnaval carioca, um levantamento do instituto Ideia confirmou a alta exclusão do público evangélico ao desfile.
De acordo com uma pesquisa divulgada nesta quinta-feira (19), 61,1% dos evangélicos entrevistados enxergam preconceito ou ofensa à liberdade religiosa na ala “Neoconservadores em Conserva”. Segundo os dados, 45,9% dos fiéis ouviram da notícia por reportagens ou pelas redes sociais, enquanto 19,1% assistiram ao desfile ou a vídeos da exibição.
Além disso, para 35,1% dos evangélicos, a sociedade reagiu com mais intensidade se o desfile retratasse outra religião. O instituto Ideia coletou as respostas via internet na quarta-feira (18) e reuniu 656 pessoas em 315 municípios. O levantamento apresenta margem de erro de 3,8 pontos percentuais e nível de confiança de 95%.
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A última pesquisa Genial/Quaest mostra que 61% dos evangélicos desaprovaram o governo Lula, acima da desaprovação do público geral, de 49%, conforme levantamento divulgado em fevereiro. Os números confirmam a resistência do segmento religioso conservador aos candidatos de esquerda, apontada pelas urnas desde a vitória do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) em 2018, quando ele obteve quase 70% dos votos evangélicos.
Para o cientista político Mário Lepre, professor da Pontifícia Universidade Católica (PUC) no Paraná, a campanha petista pode pagar o preço nas urnas em homenagem a Lula na Sapucaí. “Foi um erro grave. Mais que uma propaganda antecipada, eles acabaram mostrando que o homenageado é contra a instituição familiar. Foi um ataque a parte significativa da sociedade, que pode significar um potencializador de oposição ainda maior nas urnas”, ressalta Lepre.
Para o cientista político Adriano Cerqueira, professor do Ibmec de Belo Horizonte, o episódio amplia o distanciamento entre a esquerda e o eleitorado evangélico, segmentos em que o PT tem dificuldade histórica de diálogo, apesar do peso eleitoral.
“O Partido dos Trabalhadores tenta fazer uma aproximação com o crescente eleitorado evangélico, mas sempre acaba tendo algum problema relacionado aos valores. A família é um valor muito importante para os cristãos e muito difundido entre os evangélicos”, comenta.
Na avaliação de Cerqueira, o desfile em homenagem ao petista tomou o caminho contrário e, ao invés de criar uma ponte com o eleitorado, reforça o antagonismo entre os cristãos e a esquerda. “Agredindo essa instituição [família]gera-se um afastamento maior. Os progressistas afirmam que o Estado deve assumir a educação moral dos filhos, e os conservadores acreditam que é a família quem tem esse papel. Isso cria um abismo cada vez maior entre a esquerda e os que seguem valores cristãos”, afirma.
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Um estudo da Gestão de ativos de marçogestora de ativos, divulgada no ano passado, projeta que os evangélicos devem alcançar 35,8% da população brasileira até o final de 2026. Uma alta de 3,7 pontos percentuais em relação ao pleito de 2022 pode comprometer uma eventual reeleição de Lula, segundo a análise.
“A combinação entre o padrão de votação dos evangélicos e o seu crescimento como proporção da sociedade é muito negativa para o PT nas eleições subsequentes. Apenas esse aumento previsto já seria para alterar o resultado da eleição. […] Ou seja, mantidos como desejos de votos no PT entre evangélicos e não evangélicos iguais a 2022, Lula obteria 49,8% dos votos válidos”, aponta o estudo.
Até 2014, os evangélicos distribuíram os votos de forma relativamente equilibrada entre o candidato do PT e o adversário. Em 2014, ano da reeleição da ex-presidente Dilma Rousseff (PT), o grupo religioso respondeu por 49% da intenção de voto na véspera do segundo turno.
Na eleição de 2022, Lula obteve a maior votação da história entre eleições não evangélicas. Ainda assim, mesmo com a repetição desse cenário, o crescimento do eleitorado evangélico pode contribuir para a vitória de um candidato de direita em 2026, segundo o estudo da Gestão de ativos de março.
“Entre 2010 e 2024, o número de igrejas de denominações evangélicas com CNPJ ativo dobrou, chegando a mais de 140 mil templos em 2024. O ritmo de expansão ocorreu surpreendentemente constante. Em todos os ciclos presidenciais desde 2010, as igrejas abriram, em média, cerca de 5 mil novos templos por ano”, aponta.
Católicos ampliam as críticas contra desfile pró-Lula
Além dos evangélicos, membros da Igreja Católica se manifestaram contra o desfile da Acadêmicos de Niterói pela sátira contra a família. A adesão de católicos pode intensificar o desgaste do governo Lula entre os cristãos. Historicamente, o PT tem um melhor desempenho nas urnas entre católicos em relação ao público evangélico.
Influenciador digital com mais de 4 milhões de seguidores no Instagram, padre Chrystian Shankar critica a alegoria da “família em conservação” que ridiculariza os valores cristãos. “Quando a ideia de compromisso, fidelidade e estabilidade passa a ser vista como antiquada, instala-se uma cultura onde relações frágeis são normalizadas e quem valoriza lares sólidos se torna motivo de caricatura. O humor, repetido muitas vezes, acaba funcionando como propaganda: dissolver referências, enfraquecer responsabilidades e facilitar a substituição do confronto pelo provisório”, analisa Shankar.
Em nota, a Frente Parlamentar Católica manifesta “indignação” com o desfile e afirma que a liberdade artística não anula o respeito à religião. “Quando as manifestações culturais ganham ampla repercussão pública, sobretudo com o uso de recursos públicos, aumenta a responsabilidade sobre como os princípios e valores são retratados”, disse o deputado federal Luiz Gastão (PSD-CE), presidente da frente parlamentar.
Ele cobra a investigação do episódio e a extensão dos envolvidos, caso se confirmem as ilegalidades. “Há uma promessa de que o pedido tenha ultrapassado os limites estabelecidos pela legislação ao tratar de convicções religiosas.” A escola de samba recebeu R$ 1 milhão da Agência Brasileira de Promoção Internacional do Turismo (Embratur), o mesmo valor destinado a demais escolas do grupo principal do Carnaval do Rio de Janeiro.
- Metodologia da pesquisa citada: A pesquisa Quaest entrevistou 2.004 pessoas entre os dias 5 e 9 de fevereiro sobre a intenção de voto a presidente. A margem de erro é de 2 pontos percentuais, para mais ou para menos. Uma pesquisa foi contratada pelo Banco Genial SA O nível de confiança é de 95%. Registro no TSE nº BR-00249/2026.

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