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‘Encontrei o holocausto negro debaixo da minha casa’: a obra que trouxe à tona o cemitério do maior porto da escravidão brasileira

Redação Por Redação
23 de junho de 2026
Em Notícias
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‘Encontrei o holocausto negro debaixo da minha casa’: a obra que trouxe à tona o cemitério do maior porto da escravidão brasileira
Twitter1128254686redacaobcn@gmail.com



‘Encontrei o holocausto negro debaixo da minha casa’: a obra que trouxe à tona o cemitério do maior porto da escravidão brasileira
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Em 1996, ao fazer uma reforma em casa, Merced Guimarães dos Anjos descobriu ossadas no chão Júlia Dias Carneiro Chegar ao momento de finalmente cavar o chão de onde morava foi uma vitória para Merced e Petrucio Guimarães dos Anjos: 8 de janeiro de 1996 foi o primeiro dia da obra tão sonhada pelos dois. Os pedreiros abriram buracos para as colunas que dariam um segundo andar à casa da família, que deveria ter bastante espaço para as três filhas pequenas do casal poderem correr e brincar. Mas, na hora do almoço, um deles, seu José, sentou-se ao lado de Merced, intrigado com o que tinha visto. “Nas escavações dos buracos, encontramos muitos ossos de cachorro… Acho que os antigos proprietários enterraram ossos no quintal!”, ele contou a Merced, como ela relembra à BBC News Brasil. Aquela tarde acabaria mudando a vida dela para sempre e descortinando um processo de transformação na região portuária do Rio de Janeiro. Foi a primeira casa própria da família, que antes morava de aluguel. Depois de conseguir fazer uma compra, eles mudaram para lá e ficaram mais seis anos juntando dinheiro, até finalmente terem economizado para uma reforma muito necessária. O imóvel, no bairro da Gamboa, datava de 1866, quando uma ocupação residencial da região portuária se circulava. Merced achou estranha aquela história dos ossos e pediu para ver. “Fui lá, mexi nos entulhos e encontrei uma arcada dentária de um adulto. Falei, ‘Seu José, isso não é de cachorro, é de gente! Olha só. É igualzinha à nossa.’ Ele fez o sinal da cruz”, lembra ela. “Aí tinha uma arcada dentária pequenininha. Eu falei: ‘Seu José, isso aqui é de uma criança’. Aí, ele começou a chorar. Todo o mundo ficou ali parado, olhando. Fui botando os ossos em um cantinho, depois separando em caixas. Tinha muito osso quebrado.” Seguiu-se uma sessão de especulação. “Pensamos mil coisas. ‘Os antigos donos da casa mataram pessoas e enterraram aqui!’ Ou então, ‘Não, é um serial killer [assassino em série]!'” No mesmo dia, Merced chamou um vizinho entendido na história da região portuária. Ele chegou à sua casa com um livro antigo. Um mapa indicava o caminho para um cemitério próximo aos mercados onde se vendiam pessoas escravizadas. “Ele falou: ‘Você mora em cima de um cemitério. Você acabou de descobrir o cemitério dos escravizados'”, lembra Merced. “Eu falei, ‘Caraca. O que eu faço com isso?'”. que ainda não falavam português “Hoje, digo que encontrei aqui um holocausto. O holocausto negro”, diz Merced, com os olhos marejando ao lembrar do impacto de ver as ossadas sob a própria casa, inclusive arcadas dentárias miúdas com botõezinhos de dentes permanentes ainda nascendo. “A gente não tinha ideia dessa história”, lembra Merced, que mora na região portuária desde menina. “Ninguém comentou que aqui havia sido um entreposto de venda de pessoas para a escravidão. Essa história era escondida. a atual Primeiro de Março, para a região da praia do Valongo, que ficaram fora dos limites da cidade — afastando do centro uma atividade vista como “incômoda” e “anti-higiênica” pelas elites. Estima-se que 1 milhão de pessoas escravizadas foram aportadas no Valongo até sua desativação, em 1831. de acordo com pesquisa recente da Emory University, nos Estados Unidos Em 2017, a Unesco, braço das Nações Unidas para educação, ciência e cultura, liderou o Cais do Valongo como Patrimônio Mundial, ajudando a criar um chamariz para visitas guiadas que hoje movimentam a região, ensinando sobre a história e promovendo a memória desse passado. anos 1990, e o viaduto da Perimetral seguiu intacto, lançando sua sombra pesada sobre a região portuária, não se falava da região como porta de chegada de africanos escravizados ou dos mercados em que eram vendidos nos arredores. Consciência Negra e da Abolição, e na comemoração do aniversário do achado “Foi difícil. Porque quem ia querer conhecer um cemitério? da casa foi convertida em um memorial com uma exposição permanente No quintal, que teria árvores e uma sonhada piscina, funciona um café, uma loja e uma biblioteca especializada na história do tráfico atlântico, da escravização e da diáspora negra. Merced, que hoje tem 69 anos, está lá “todos os dias, todas as horas”. Passou a se dedicar à vida ao instituto, desde seu primeiro encontro “com as pessoas que vieram de África”. Merced. O casal ainda mora na casa de 1866, parede com parede com o espaço aberto ao público. “Quando você quebra o chão da minha casa, debaixo do contrapiso você já acha osso, à flor da terra”, conta Merced. e sobre o Cemitério dos Pretos Novos. Uma janela de vidro no chão revela o sítio caído abaixo, uma terra vermelha marmoreada, entremeada por pedaços de ossos incontáveis. Falar em “cemitério” ou em “enterro” denota um respeito que não havia ali. Por causa do mau cheiro, fazia-se uma queimadura desses corpos. As valas eram tão cheias que os corpos embaixo eram quebrados, cobertos por outros restos mortais”, descreve Merced. O cemitério era o destino dos que morriam após a terrível travessia atlântica, contraindo doenças como varíola e disenteria; ou sucumbiam nos armazéns nos arredores do Valongo, onde os cativos recém-chegados eram expostos para venda. Merced ressaltando que não se tratava de um cemitério clandestino. Os óbitos foram registrados pela Igreja Católica, e o IPN conseguiu obter 12 anos de registos que restaram intactos “O cemitério fica debaixo de quatro casas. Um lugar que tem mais ou menos 40 mil pessoas. Um lugar onde estão bebês, crianças, jovens, mulheres, inclusive mulheres grávidas. Pessoas que eram de Moçambique, do Congo, de Angola e algumas da Costa do Marfim”, relata Merced. A maioria dos mortos foi listada de forma anônima, registrando-se apenas os dados de morte, os navios em que chegaram e de onde foram transportados. Quando havia um nome, muitas vezes era o do “senhor” a quem o cativo se destinava. ‘Um lugar singular’ Os 21 anos do IPN foram marcados pela abertura de uma extensão para o instituto: o Centro Cultural Pretos Novos Divulgação Os 21 anos do IPN foram marcados pela abertura de uma extensão para o instituto. O Centro Cultural Pretos Novos, na vizinha rua do Livramento, será destinado a saraus, rodas de samba, exposições de arte, oficinas, lançamentos de livros, clube de leitura para crianças em visitas escolares. Muito ruinzinho, mas conseguimos reformar com ajuda de amigos. Cada um dava uma coisa, a tinta, a mão de obra, a parte elétrica… Fizemos uma maquiagem, mas ficou bonita!” Ela agora busca recursos para reformar o segundo andar do imóvel, que tem uma área ainda maior. África e no entorno do Cais do Valongo. O BNDES diz que está “em tratativas” com o IPN para formalizar uma parceria para o novo centro cultural, “com projeto conceitual em elaboração”. samba, exposições de arte, workshops, lançamentos de livros Divulgação Merced sonha em ter apoios permanentes para o instituto, que lhe permita dormir sem preocupação com a conta de luz Ela relata que manter o instituto tem sido uma luta, sempre buscando fomento público por meio de editais ou emendas parlamentares. É um lugar singular. Mas a gente fica catando recursos, pagando esmola, fazendo economias, lutando por editais com o coração na boca. É difícil isso. A gente só quer segurança de que vai conseguir abrir e fechar todo dia.” A descoberta do vizinho Cais do Valongo deu muita visibilidade para a história da escravidão na região portuária, mas Merced se pergunta por que o cais recebe tão mais atenção do que o cemitério, já que são duas marcas do mesmo passado. “O cais era onde chegavam; e o cemitério, onde estavam. O cais é pedra, aqui são corpos.” Perguntada se tem a sensação de missão cumprida após 21 anos à frente do IPN, Merced diz que está longe disso. “Ainda tem muito o que fazer. Isso é muito frágil. Se eu dormir um pouquinho, isso acaba. Toda memória, se você deixar um dia sem falar, desligue.”
Em 1996, ao fazer uma reforma em casa, Merced Guimarães dos Anjos descobriu ossadas no chão Júlia Dias Carneiro Chegar ao momento de finalmente cavar o chão de onde morava foi uma vitória para Merced e Petrucio Guimarães dos Anjos: 8 de janeiro de 1996 foi o primeiro dia da obra tão sonhada pelos dois. Os pedreiros abriram buracos para as colunas que dariam um segundo andar à casa da família, que deveria ter bastante espaço para as três filhas pequenas do casal poderem correr e brincar. Mas, na hora do almoço, um deles, seu José, sentou-se ao lado de Merced, intrigado com o que tinha visto. “Nas escavações dos buracos, encontramos muitos ossos de cachorro… Acho que os antigos proprietários enterraram ossos no quintal!”, ele contou a Merced, como ela relembra à BBC News Brasil. Aquela tarde acabaria mudando a vida dela para sempre e descortinando um processo de transformação na região portuária do Rio de Janeiro. Foi a primeira casa própria da família, que antes morava de aluguel. Depois de conseguir fazer uma compra, eles mudaram para lá e ficaram mais seis anos juntando dinheiro, até finalmente terem economizado para uma reforma muito necessária. O imóvel, no bairro da Gamboa, datava de 1866, quando uma ocupação residencial da região portuária se circulava. Merced achou estranha aquela história dos ossos e pediu para ver. “Fui lá, mexi nos entulhos e encontrei uma arcada dentária de um adulto. Falei, ‘Seu José, isso não é de cachorro, é de gente! Olha só. É igualzinha à nossa.’ Ele fez o sinal da cruz”, lembra ela. “Aí tinha uma arcada dentária pequenininha. Eu falei: ‘Seu José, isso aqui é de uma criança’. Aí, ele começou a chorar. Todo o mundo ficou ali parado, olhando. Fui botando os ossos em um cantinho, depois separando em caixas. Tinha muito osso quebrado.” Seguiu-se uma sessão de especulação. “Pensamos mil coisas. ‘Os antigos donos da casa mataram pessoas e enterraram aqui!’ Ou então, ‘Não, é um serial killer [assassino em série]!'” No mesmo dia, Merced chamou um vizinho entendido na história da região portuária. Ele chegou à sua casa com um livro antigo. Um mapa indicava o caminho para um cemitério próximo aos mercados onde se vendiam pessoas escravizadas. “Ele falou: ‘Você mora em cima de um cemitério. Você acabou de descobrir o cemitério dos escravizados'”, lembra Merced. “Eu falei, ‘Caraca. O que eu faço com isso?'”. que ainda não falavam português “Hoje, digo que encontrei aqui um holocausto. O holocausto negro”, diz Merced, com os olhos marejando ao lembrar do impacto de ver as ossadas sob a própria casa, inclusive arcadas dentárias miúdas com botõezinhos de dentes permanentes ainda nascendo. “A gente não tinha ideia dessa história”, lembra Merced, que mora na região portuária desde menina. “Ninguém comentou que aqui havia sido um entreposto de venda de pessoas para a escravidão. Essa história era escondida. a atual Primeiro de Março, para a região da praia do Valongo, que ficaram fora dos limites da cidade — afastando do centro uma atividade vista como “incômoda” e “anti-higiênica” pelas elites. Estima-se que 1 milhão de pessoas escravizadas foram aportadas no Valongo até sua desativação, em 1831. de acordo com pesquisa recente da Emory University, nos Estados Unidos Em 2017, a Unesco, braço das Nações Unidas para educação, ciência e cultura, liderou o Cais do Valongo como Patrimônio Mundial, ajudando a criar um chamariz para visitas guiadas que hoje movimentam a região, ensinando sobre a história e promovendo a memória desse passado. anos 1990, e o viaduto da Perimetral seguiu intacto, lançando sua sombra pesada sobre a região portuária, não se falava da região como porta de chegada de africanos escravizados ou dos mercados em que eram vendidos nos arredores. Consciência Negra e da Abolição, e na comemoração do aniversário do achado “Foi difícil. Porque quem ia querer conhecer um cemitério? da casa foi convertida em um memorial com uma exposição permanente No quintal, que teria árvores e uma sonhada piscina, funciona um café, uma loja e uma biblioteca especializada na história do tráfico atlântico, da escravização e da diáspora negra. Merced, que hoje tem 69 anos, está lá “todos os dias, todas as horas”. Passou a se dedicar à vida ao instituto, desde seu primeiro encontro “com as pessoas que vieram de África”. Merced. O casal ainda mora na casa de 1866, parede com parede com o espaço aberto ao público. “Quando você quebra o chão da minha casa, debaixo do contrapiso você já acha osso, à flor da terra”, conta Merced. e sobre o Cemitério dos Pretos Novos. Uma janela de vidro no chão revela o sítio caído abaixo, uma terra vermelha marmoreada, entremeada por pedaços de ossos incontáveis. Falar em “cemitério” ou em “enterro” denota um respeito que não havia ali. Por causa do mau cheiro, fazia-se uma queimadura desses corpos. As valas eram tão cheias que os corpos embaixo eram quebrados, cobertos por outros restos mortais”, descreve Merced. O cemitério era o destino dos que morriam após a terrível travessia atlântica, contraindo doenças como varíola e disenteria; ou sucumbiam nos armazéns nos arredores do Valongo, onde os cativos recém-chegados eram expostos para venda. Merced ressaltando que não se tratava de um cemitério clandestino. Os óbitos foram registrados pela Igreja Católica, e o IPN conseguiu obter 12 anos de registos que restaram intactos “O cemitério fica debaixo de quatro casas. Um lugar que tem mais ou menos 40 mil pessoas. Um lugar onde estão bebês, crianças, jovens, mulheres, inclusive mulheres grávidas. Pessoas que eram de Moçambique, do Congo, de Angola e algumas da Costa do Marfim”, relata Merced. A maioria dos mortos foi listada de forma anônima, registrando-se apenas os dados de morte, os navios em que chegaram e de onde foram transportados. Quando havia um nome, muitas vezes era o do “senhor” a quem o cativo se destinava. ‘Um lugar singular’ Os 21 anos do IPN foram marcados pela abertura de uma extensão para o instituto: o Centro Cultural Pretos Novos Divulgação Os 21 anos do IPN foram marcados pela abertura de uma extensão para o instituto. O Centro Cultural Pretos Novos, na vizinha rua do Livramento, será destinado a saraus, rodas de samba, exposições de arte, oficinas, lançamentos de livros, clube de leitura para crianças em visitas escolares. Muito ruinzinho, mas conseguimos reformar com ajuda de amigos. Cada um dava uma coisa, a tinta, a mão de obra, a parte elétrica… Fizemos uma maquiagem, mas ficou bonita!” Ela agora busca recursos para reformar o segundo andar do imóvel, que tem uma área ainda maior. África e no entorno do Cais do Valongo. O BNDES diz que está “em tratativas” com o IPN para formalizar uma parceria para o novo centro cultural, “com projeto conceitual em elaboração”. samba, exposições de arte, workshops, lançamentos de livros Divulgação Merced sonha em ter apoios permanentes para o instituto, que lhe permita dormir sem preocupação com a conta de luz Ela relata que manter o instituto tem sido uma luta, sempre buscando fomento público por meio de editais ou emendas parlamentares. É um lugar singular. Mas a gente fica catando recursos, pagando esmola, fazendo economias, lutando por editais com o coração na boca. É difícil isso. A gente só quer segurança de que vai conseguir abrir e fechar todo dia.” A descoberta do vizinho Cais do Valongo deu muita visibilidade para a história da escravidão na região portuária, mas Merced se pergunta por que o cais recebe tão mais atenção do que o cemitério, já que são duas marcas do mesmo passado. “O cais era onde chegavam; e o cemitério, onde estavam. O cais é pedra, aqui são corpos.” Perguntada se tem a sensação de missão cumprida após 21 anos à frente do IPN, Merced diz que está longe disso. “Ainda tem muito o que fazer. Isso é muito frágil. Se eu dormir um pouquinho, isso acaba. Toda memória, se você deixar um dia sem falar, desligue.”[/gpt3]

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