
A eleição presidencial de 2026 deu à política externa protagonismo inédito, não visto desde o fim da Guerra Fria. Ao contrário das disputas anteriores, dominadas pela pauta doméstica, os dois principais candidatos na disputa também destacam temas como as suas relações com líderes estrangeiros, avaliações comerciais, crimes transnacionais e o alinhamento geopolítico.
O eixo mais visível dessa internacionalização é a queda de braço entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL) para um carimbar no outro a culpa pelo tarifaço americano anunciado pela administração do presidente Donald Trump sobre produtos brasileiros. Este embate tornou-se um dos símbolos das eleições deste ano.
Lula credita a crise à atuação da família Bolsonaro junto à Casa Branca, classificando supostas investidas como “entreguistas”. Já Flávio sustenta que as tarifas decorrem da condução diplomática do PT, hostil aos Estados Unidos, e tentaram negociar para evitar prejuízos econômicos ao país. O recebimento de ambos nesse caso é colher desgastes para o eleitorado.
Outro fator inédito é a presença constante do próprio governo americano no debate político brasileiro. Declarações de assessores diretos de Trump, manifestações públicas do presidente americano sobre a situação política do Brasil e a interlocução de autoridades dos EUA com aliados de Flávio conectaram a campanha às brigas internacionais iniciadas por Washington.
Rede internacional de líderes direitistas acompanha a disputa no Brasil
A aproximação da direita brasileira com governos conservadores, principalmente das Américas, chama atenção nessa eleição. A disposição do presidente argentino Javier Milei de participar de atos políticos ligados à candidatura de Flávio Bolsonaro reforça a ligação do pleito com a rede mundial de líderes de direita, que inclui o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu.
Paralelamente, Lula aposta em fóruns multilaterais, nos quais defende a agenda antiamericana do grupo dos Brics, liderada pela China e por quem o Irã faz parte. O debate interno segue a discussão no plano externo, que inclui o protesto dos EUA contra o PIX, acordos do Mercosul, exploração de minerais críticos e classificação americana de facções como terroristas.
Para Leandro Gabiati, professor de Relações Políticas do Ibmec-DF, a eleição presidencial de 2026 terá uma influência internacional incomum, principalmente pela atuação explícita dos EUA. Segundo ele, esse cenário ganhou força com o primeiro tarifaço americano contra o Brasil, há um ano, acompanhado de críticas do próprio presidente Trump à perseguição à direita pelo Judiciário.
O cientista político ressalta, porém, que nem todas as decisões americanas que afetam o Brasil levam em conta o cenário da política brasileira. Medidas como a classificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas refletem interesses estratégicos da Casa Branca, que coincidem com pautas da direita brasileira e pesam na sucessão presidencial”, diz.
Para especialista, a separação entre cenários externos e internos ficou difusa
Para Eduardo Galvão, especialista em risco político e diretor da consultoria internacional Burson, a eleição presidencial de 2026 está entre as mais influenciadas pelo cenário externo desde a volta do voto direto, em 1989. Temas como tarifaço dos EUA e decisões do Supremo Tribunal Federal (STF) alcançando cidadãos americanos estão explicitados na agenda eleitoral.
Segundo ele, essa mudança significativa decorre da competição global entre EUA e China, que ampliou o alcance da geopolítica para áreas antes de vistas apenas sob a ótica econômica. “Comércio, tecnologia, inteligência artificial, infraestrutura digital e sistemas de pagamento tornaram-se instrumentos de poder. Eles estão elevando a importância estratégica do Brasil”, destaca.
Galvão ressalta, porém, que apesar do pleito muito internacionalizado, o eleitor continuará decidindo o seu voto principalmente com base em fatores internos, como inflação, emprego, renda e segurança pública. “A diferença mais importante é que esses temas passaram a sofrer influência crescente de acontecimentos internacionais, aproximando-se das duas esferas”.
Na avaliação do especialista, a fronteira entre a política doméstica e a política internacional está se tornando cada vez mais difusa. “Decisões tomadas em Washington, Pequim ou Bruxelas repercutem rapidamente no Brasil, enquanto a expectativa do resultado da eleição brasileira passou a ter maior relevância para os interesses das grandes potências”, conclui.













Deixe o Seu Comentário