Uma camisa que parece de um tempo de futebol, mas que no lugar do distintivo do clube traz um bordado com a seguinte frase: “Deus ama todos” sobre um coração com as cores do arco-íris, associado ao movimento LGBT. Uma cartela de adesivos onde se vê escrito “Jesus é legal, o que estraga são os fãs”. Uma camiseta com a estampa de um homem negro usando uma coroa de espinhos em meio à inscrição “bandido morto”.
Estes são alguns dos produtos à venda na loja online do movimento Novas Narrativas Evangélicas – ou Novas, na forma reduzida. O site é uma forma de monetização do coletivo, criada em 2021, que cita como seus principais objetivos “afirmar, validar e legitimar a pluralidade de cristianismo, contemplando os ‘diversos jeitos de ser crente’” – uma forma suave de descrever a ligação direta com o movimento LGBT.
O Novas ganhou visibilidade recente ao aparecer entre os apoiadores da campanha envolvendo o “Votinho”, o mascote da mobilização “meu voto não é neutro”, apresentado durante a Parada do Orgulho LGBT de junho de 2026 em São Paulo. A pauta política passou a integrar o evento na tentativa de estimular a participação eleitoral da comunidade gay nas eleições de outubro.
Em seu perfil oficial no Instagram, o Novas mantém uma publicação na qual explica que o movimento “surgiu de uma turma que foi muito machucada pela igreja evangélica, mas que não queria ter que abandonar sua espiritualidade por causa das pessoas”.
“E é assim, juntando os nossos caquinhos, que estamos nos tornando um vaso colorido nas mãos do oleiro, reconstruindo tudo a nossa volta enquanto somos reconstruídos pela Graça”, segue o post.
O movimento é formado por diversos grupos e tem vitórias eleitorais
Não há uma denominação evangélica única por trás do Novas. Segundo dados do movimento, a iniciativa é formada por coletivos, como Fluxo, Movimento Negro Evangélico, Mulheres Profetizando Vida, Esperançar, Perifa Sustentável, PerifaConnection, SPW Watch, Jesus Hope, Projeto Redomas, Aliança de Batistas do Brasil, Igreja Cristã Carioca, Refugo e Cristãos e Cristãs contra o fascismo.
Na “Agenda e Justiça Cristã”, documento disponível em seu site oficial, o Novas traz mais informações sobre seus objetivos. Entre eles, “afirmar a pluralidade de identidades evangélicas” por meio de “reflexões estratégicas para a mobilização da Igreja evangélica brasileira e da sociedade por caminhos de justiça”.
As reais que aparecem logo abaixo, no trecho em que o coletivo explica que a tal agenda pode “sofrer atualizações a partir dos debates e propostas produzidas pelos coletivos e pessoas da comunidade Novas durante os períodos eleitorais municipais e federais”.
A visão eleitoral será confirmada no decorrer do texto. O movimento – que apoiou a Parada Gay, onde o partido de Jair Bolsonaro foi retratado como “Partido de Lúcifer” – defende a necessidade de um “enfrentamento direto ao fundamentalismo religioso crescente, que produziu discursos, teologias e afins que produzem violência e morte, por meio de interpretações literais, convenientes e invejadas dos textos bíblicos”.
Movimento quer fornecer ferramentas para ajuda política e roupas evangélicas
Para ajudar as lideranças políticas, tendências evangélicas e demais comunidades de fé nesse caminho, o Novas promete dar ferramentas para “desconstruir as lógicas de discriminação e violência de classe, raça, gênero e sexualidade e toda espécie de opressão vigente na sociedade”.
Essas ferramentas baseiam-se em diversos eixos, entre eles alguns fortemente vinculados à esquerda, como “justiça climática” e “racismo ambiental”, “racismo estrutural” e “privilégios de branquitude” e a orientação LGBT.
Sobre esse último tópico, o Novas se vale de uma narrativa difícil de sustentar com base nos dados: o Brasil seria o país onde mais se matam pessoas LGBT no mundo. Para o movimento, o enfrentamento à “LGBTfobia” precisa ser abraçado pelos evangélicos e pelos representantes políticos, uma vez que “a diversidade é consequência do poder criativo de Deus”.
Como nos outros eixos, a agenda cita uma passagem da Bíblia para embasar seus conceitos sobre a população LBGT+. Neste caso, o trecho escolhido foi João 15:12: “O meu mandamento é este: amem-se uns aos outros como eu os amei”.
“Entendemos o movimento de luta por justiça como um posicionamento evangélico intrínseco à nossa tradição protestante”, completa o texto.
Teologia queer mistura o movimento LGBT e a religião
Não há menções diretas em seu site, mas as Novas Narrativas Evangélicas são fortemente influenciadas pelo que ficou conhecido como “teologia queer”. Esse movimento, que tem a teóloga argentina Marcella Althaus-Reid uma de suas maiores expoentes, ganhou força no início do século XXI ao tentar aplicar estudos de gênero e sexualidade à interpretação da fé, das Escrituras e das tradições religiosas.
Em sua obra fundamental, o livro “A Teologia Indecente”, uma argentina questiona e crítica o que chama de normas da teologia patriarcal, e busca “resgatar o direito de [renomear Deus e] assumir uma identidade divina humana sem restrições”. A forma como ela imagina essa tarefa pode ser lida aqui.













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