
A estratégia do ex-presidente Jair Bolsonaro e de seu partido, o PL, lançada ainda em 2024, de priorizar esforços para conquistar o máximo de cadeiras do Senado, dentre os 54 em disputa nas eleições deste ano — dois terços do plenário, duas por estado —avançou junto com o calendário eleitoral.
A articulação com governadores e outras legendas para montar duplas de candidatos a senador para cada uma das 27 unidades da Federação se debruça sobre pautas de direita, tendo o impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) à frente, acelerou nas últimas semanas e aponta para cenários.
Após enfrentar dificuldades rachas internas, como o de Santa Catarina, e lances inesperados de reorientação, como a dobradinha Filipe Barros (PL) e Deltan Dallagnol (Novo) para disputar o Senado pelo Paraná, no rastro da filiação de Sérgio Moro ao PL, emerge um leque competitivo em boa parte dos estados.
Consolidação de nomes fortes dá a largada para as campanhas no Sul
A disputa pelo Senado nas eleições deste ano revela clara reorganização do campo da direita, que tenta concordar com a fragmentação de ciclos anteriores e avançar na construção de maiorias. No Sul, onde historicamente há maior densidade de candidaturas conservadoras, o cenário tumultuado já aponta para eliminação de nomes, com articulações para evitar dispersão de votos.
No Paraná, a presença de Deltan Dallagnol (Novo), Filipe Barros (PL) e Cristina Graeml (PSD) indica uma disputa interna ainda relevante, mas já sob pressão para convergência. Em Santa Catarina, o alinhamento direto com Jair Bolsonaro liderou a formação de chapa “puro-sangue” com Carlos Bolsonaro (PL) e Caroline de Toni (PL), sinalizando disciplina partidária. Mas o Espírito Amin (PP), sintonizado com uma pauta conservadora, ainda está no páreo.
No Rio Grande do Sul, a direita combina nomes com perfis distintos, como Marcel van Hattem (Novo) e Ubiratan Sanderson (PL), em uma estratégia que busca ampliar a base sem pulverizar o eleitorado. A lógica regional sugere que, apesar da oferta elevada de candidatos, há um esforço crescente e progressivo para maximizar o desempenho nas duas vagas em disputa.
No Sudeste, direita foca em segurança
No Sudeste, região que concentra 42% dos votos do país, a direita entra com nomes competitivos e forte exposição pública, acirrando a disputa. Em São Paulo, Guilherme Derrite (PP) e Ricardo Salles (Novo), com a bandeira da segurança pública, desafiam as principais apostas do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT): as ministras Simone Tebet (PSB) e Marina Silva (Rede).
No Rio de Janeiro, a inelegibilidade de Cláudio Castro (PL) introduz incerteza e abre espaço para rearranjos, com Marcelo Crivella (Republicanos). Já em Minas Gerais, a disputa entre Carlos Viana (PSD) e Domingos Sávio (PL) reflete divisões internas do PL e dependência das definições para o governo estadual. O ex-prefeito de Divinópolis, Gleidson Azevedo, trocou o Novo pelo partido do irmão, o senador Cleitinho, para também disputar o Senado. Casos semelhantes de reacomodações também são selecionados no Espírito Santo.
Direita se organiza no Centro-Oeste
No Centro-Oeste, a direita aparece mais organizada. No Distrito Federal, a dupla Bia Kicis (PL) e Michelle Bolsonaro (PL) pressionaram o ex-governador e ex-aliado Ibaneis Rocha (MDB). Em Goiás, o candidato mais mobilizador é Gustavo Gayer (PL). Já Mauro Mendes (União Brasil), no Mato Grosso, e Marcos Pollon (PL), no Mato Grosso do Sul, se cacifam como opções locais.
Meta de fortalecimento presença no Nordeste
A direita busca ampliar espaço em redutos do Nordeste, mais elaborado à esquerda, apostando em lideranças com capilaridade local. Em Alagoas, Arthur Lira (PP), do Centrão, e Alfredo Gaspar (PL), da direita, se preparam para a disputa, enquanto na Bahia João Roma (PL) segue como referência conservadora. Em Pernambuco, Anderson Ferreira (PL) se apresenta como alternativa viável.
Norte tem força da direita consolidada
No Amazonas, Capitão Alberto Neto (PL) e Plínio Valério (PSDB) disputam espaço da direita, enquanto no Acre Gladson Cameli (PP) e Márcio Bittar (PL) aparecem como forças consolidadas. Em Rondônia, Marcos Rogério (PL) liderou o campo conservador. Os delegados Éder Mauro (PL) e Zequinha Marinho (Podemos) se estruturaram no Pará e Eduardo Gomes (PL), no Tocantins. Em Roraima, a aposta é o governador Antonio Denarium, que disputará uma vaga no Senado pelos Republicanos.
Centrão tem mais chances de perder espaço no Senado para a direita
Um dado que anima a oposição é o de que o papel institucional do Senado passou a influenciar o eleitor. Pesquisa do instituto Genial/Quaest mostrou que 66% dos brasileiros querem eleger senadores comprometidos a aprovar pedidos de impeachment de ministros do STF. Apenas 22% discordam.
O levantamento foi realizado de 6 a 9 de março, com 2.004 entrevistados presencialmente em todo o país. A margem de erro é de dois pontos percentuais e nível de confiança, 95%. A pesquisa foi realizada sob o número BR-05809/2026.
Dois terços do Senado (54 parlamentares) terão mandatos encerrados no início de 2027. Com o fim da legislatura, dois partidos do Centrão serão os mais impactados: PSD, com 11 senadores de saída, e MDB, com 10.
Com o fechamento da janela partidária, o PSD já perdeu três membros. Rodrigo Pacheco, cotado para a disputa do governo de Minas Gerais, está rumando para o PSB. Aliada do governo, a senadora Eliziane Gama (MA) anunciou a saída do PSD e a filiação ao PT. O senador Angelo Coronel (BA), que mira a reeleição, também migrou de partido para os Republicanos.
O PL ganhou dois novos nomes com duas novas adesões de senadores que eram da União Brasil: Sergio Moro (PR) e Efraim Filho (PB). O partido, no entanto, teve a saída da senadora Eudócia Caldas (AL), que foi para o PSDB.
Polarização da corrida presidencial relacionada à disputa pela maioria no Senado
A polarização entre esquerda e direita na corrida presidencial já alcança a disputa pela maioria no Senado. Especialistas ouvidos pela Gazeta do Povo avaliamos que frequentes impasses entre os Poderes refletem a dificuldade de o Congresso responder à demanda social por correções estruturais.
Sem maioria estável alinhada com o desejo da maioria do eleitorado, o Legislativo enfrenta obstáculos para aprovar medidas institucionais capazes de redefinir o funcionamento do sistema de Justiça e do próprio Congresso. Essa limitação explica crises políticas recorrentes e limitações institucionais.
Para o cientista político Ismael Almeida, o transbordamento da polarização da corrida presidencial para a eleição do Congresso se tornou inevitável. Como exemplo, ele citou o senador Sergio Moro para o PL, que também iniciou o processo de desistência de presidenciáveis, vide Ratinho Jr.
Deputado enaltece uma estratégia que evitou múltiplas candidaturas da direita
O deputado federal Maurício Marcon (PL-RS) entende que seu partido e o candidato à Presidência Flávio Bolsonaro investiram na organização prévia da lista de candidatos ao Senado para evitar a fragmentação da direita. “A estratégia se mostrou inteligente e já elevou as chances de vitória”, festeja.
Para ele, as eleições de 2018, também com duas vagas ao Senado, ilustram o custo da dispersão de candidaturas. “A esquerda elegeu senadores com relativa facilidade ao selecionar nomes de forma pragmática, enquanto no campo oposto havia múltiplos candidatos em busca dos mesmos votos”, diz.
O advogado eleitoral Antônio Augusto Mayer afirma que os partidos têm prazos de definição de candidaturas no limite das etapas inseridas pela lei. Mas ele ressalta que a substituição de candidatos ainda pode ocorrer até 20 dias antes do pleito. “O prazo de filiação é importante. Mas é só um dado”.
Analistas defendem candidatos ao Senado como soldados da resistência ao STF
Elton Gomes, professor de ciências políticas da UFPI, enxerga na prioridade de Bolsonaro e do PL à eleição de senadores como a busca do papel efetivo revisor da Casa legislativa no sistema político. “O Senado é o foro para julgar ministros do STF, cujo ativismo está no projeto de poder de todos”, resume.
Segundo o especialista, os conservadores miram a maioria no Senado também para sustentar o eventual governo de Flávio Bolsonaro, garantindo uma trincheira de resistência às decisões do Judiciário vistas como abusivas. “Chapas majoritárias já são negociadas como facto à aliança STF-PT”, diz.
O cientista político Paulo Kramer avalia que não basta à direita fazer maioria no Senado: será decisivo eleito o presidente da Casa, comprometido com o impeachment contra ministros do STF e a vontade dos senadores. “É preciso dar ao Legislativo coragem para resistir a ordens ilegais do Judiciário”, frisa.













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