Um curso sobre como agir nas redes sociais foi estruturado pelo Partido dos Trabalhadores (PT) para ensinar a militância a combater a direita nas redes sociais e defender as ações do governo de Luiz Inácio Lula da Silva, que deve ser candidato à reeleição nas eleições de outubro. O projeto quer formar “portas-vozes” de Lula no ambiente digital e incentivar militantes e simpatizantes a dedicar alguns minutos por dia para compartilhar conteúdos e mensagens alinhadas ao partido.
A iniciativa, que foi divulgada no site oficial do PT, fornece treinamento, padronização de linguagem e orientação jurídica aos militantes digitais em meio ao período pré-eleitoral.
O projeto foi materializado no site “Pode Espalhar”, que reúne conteúdo para compartilhamento. Vídeos, imagens e panfletos para impressão são reunidos no site e acompanhados de tutoriais para facilitar a disseminação por todas as redes sociais mais usadas no Brasil. O material também contém legendas prontas e funcionalidades que permitem o download ou compartilhamento direto do site.
Mas a iniciativa levanta questionamentos sobre os limites entre mobilização política e construção de uma máquina de influência e, de acordo com analistas ouvidos pela Gazeta do Povo, evidencia uma contradição ética do partido. Para o cientista político Alexandre Bandeira, a nova estratégia digital do Partido dos Trabalhadores é uma evolução desenvolvida que antes a esquerda chamava de “gabinete do ódio”.
“O conteúdo aponta uma contradição ética, pois o grupo agora utiliza métodos de comunicação direcionados que criticaram severamente em gestões anteriores”, aponta Bandeira ao relembrar o termo usado pela oposição ao governo do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). A expressão “gabinete do ódio” foi utilizada pela esquerda para descrever um suposto grupo de assessores e apoiadores, que, segundos adversários políticos, teria atuado dentro do Palácio do Planalto durante o governo de Bolsonaro.
No site de recrutamento para ser “porta-voz do Lula”, os específicos preenchem um formulário e têm que apontam a maneira como querem contribuir com a iniciativa. Algumas das opções oferecidas são a participação em grupos de WhatsApp para receber conteúdos prontos, a coleta de conteúdo por e-mail e a participação em workshops e cursos de comunicação. Um aviso no pé da página indica que, após a inscrição, os porta-vozes serão contatados por uma equipe para alinhar nas próximas etapas.
O chamado de porta-vozes foi feito, especialmente pelo presidente do PT, Edinho Silva, nas redes sociais e em encontros estaduais. “Nós estamos criando uma campanha que a gente tem que fazer chegar em cada diretório nosso, cada comissão provisória, em cada sindicato nosso, em cada núcleo dos movimentos sociais, que é pra gente criar a corrente dos porta-vozes do Lula. Cada um aqui tem uma procuração para ser porta-voz do Lula”, afirmou Edinho em vídeo publicado em suas redes sociais.
O site indica que a atividade de porta-voz de Lula é voluntária. Mas há outra categoria intitulada “Embaixador” ou “Embaixadora” da época Lula. Essa função está descrita na página como destinada a ajudar “a trazer mais gente para as comunidades e também é uma fonte com substituição para falar sobre a política, as iniciativas do governo Lula e a defesa da democracia”. Para esta segunda modalidade, o site prevê a possibilidade de “recompensas”, embora não explique quais são elas.
UM Gazeta do Povo buscou contato com o partido para buscar posicionamento sobre o projeto dos porta-vozes, mas não obteve retorno até o fechamento da matéria.
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Projeto do PT aposta na mobilização de um “exército de CPFs”
Para o cientista político Alexandre Bandeira, a iniciativa representa uma “nova camada” dentro de um processo mais amplo na tentativa de ocupação das redes sociais pelo governo. Segundo ele, após investimentos em influenciadores e criação de perfis institucionais, o PT agora avança para mobilizar diretamente cidadãos comuns.
“Não é mais apenas o influenciador ou o perfil estruturado. É a convocação de um “exército de CPFs”, pessoas físicas que passam a atuar na disseminação de narrativas”, afirma. Na avaliação dele, isso amplia a capilaridade da comunicação governamental e dá aparência de maior organicidade ao discurso político.
Bandeira sustenta que a estratégia se aproxima de práticas que o próprio PT criticou no passado, durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), quando denunciava a existência de uma suposta estrutura organizada de difusão de mensagens nas redes. “O que se observa é um aperfeiçoamento desse modelo, agora com uma camada adicional de engajamento voluntário”, diz.
Ele argumenta que o governo atual agora instrumentaliza cidadãos comuns e simpatizantes para atuarem como porta-vozes voluntários de suas narrativas nas redes sociais. Essa tática visa ocupar espaços digitais e influenciar a opinião pública, utilizando uma base orgânica para replicar mensagens oficiais de forma coordenada.
Apesar de se tratar de uma iniciativa do partido, o foco das publicações está em propostas do governo, obras realizadas com recursos federais e em ataques contra figuras da direita, como o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas.
Nesse contexto, Bandeira também aponta possíveis implicações no campo jurídico, especialmente no que diz respeito ao abuso de poder político ou econômico, caso haja uso de recursos públicos ou desequilíbrio na disputa eleitoral — tema que, segundo ele, tende a ganhar relevância no debate institucional.
UM Gazeta do Povo Você questionou o partido sobre a utilização de recursos públicos no projeto, mas não obteve retorno até o fechamento da matéria.
Analistas apontam preocupação com transparência e limites no projeto de porta-vozes do Lula
Um dos pontos centrais levantados pelos analistas é a transparência. O cientista político Elias Tavares destaca que a legitimidade da mobilização depende da conscientização pública que se trata de uma ação organizada por um partido.
“O problema não é uma mobilização em si, mas quando uma estratégia coordenada tenta parecer fluir para influenciar a percepção pública”, afirma Tavares. Ele alerta que a replicação massiva de conteúdos pode criar uma sensação artificial de consenso, distorcendo a leitura da opinião pública.
Bandeira, por sua vez, chama atenção para o impacto mais amplo desse tipo de iniciativa no debate democrático. Segundo ele, a ampliação das estruturas geográficas pode contribuir para a disseminação de narrativas unilaterais, influenciando não apenas o ambiente digital, mas também desenvolvendo no cotidiano offline.
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Como o PT treina militantes para atuar como porta-vozes digitais de Lula nas redes
Uma das áreas do site “Pode Espalhar” apresenta o conteúdo programático do workshop de comunicação para formar os porta-vozes de Lula. O curso é dividido em três módulos e combina formação política, estratégia digital e produção de conteúdo.
No primeiro, “Porta-voz do Lula”, os participantes recebem orientações sobre o papel da disputa de narrativa, a função de atuar como representante digital do presidente e do governo, além do uso estratégico do WhatsApp, introdução ao uso do ComunicaBR e boas práticas para circulação de conteúdos. O ComunicaBR é uma plataforma de transparência do Governo Federal, gerenciada pela Secretaria de Comunicação Social (SECOM), que centraliza dados, investimentos e resultados de programas federais em todos os 5.570 municípios brasileiros.
O segundo módulo é chamado de “Construção de redes e influência digital” e aborda técnicas para ampliar o alcance nas plataformas, dialogar com diferentes públicos e consolidar a presença digital com influenciadores e lideranças locais, incluindo estratégias específicas para X (antigo Twitter), Instagram, TikTok, Kwai, Facebook e YouTube.
Já o terceiro, “Estúdio de criação com inteligência artificial”, é direcionado à produção prática de peças para redes sociais, com uso de ferramentas de IA para criação de textos, vídeos curtos, conteúdos visuais e materiais de comunicação política com maior rapidez e apelo digital.
“Manual do influenciador do time Lula” incentivo crítico, mas busca blindagem contra processos
Além dos tutoriais que orientam a partilha dos conteúdos disponibilizados, a iniciativa do PT conta também com um manual que ensina os influenciadores e militantes o que podem e o que não podem fazer para se blindar contra possíveis processos.
De acordo com o próprio site, o manual apresenta “dicas para sua segurança jurídica e em defesa da liberdade de expressão”. “Ele é um apoio simples, mas essencial, para ajudar a prevenir processos e ataques de extrema direita, que constantemente tenta silenciar e ameaçar a liberdade de expressão”, evidencia o texto de apresentação do material.
Na prática, o manual incentiva os militantes a fazerem críticas duras contra Bolsonaro e a direita. Também são incentivados o uso de ironia e sátira e ainda comparações entre Bolsonaro e Lula. “O governo Lula salvou vidas; o de Bolsonaro atrasou vacinas”, diz um dos trechos do manual.
A criação de perfis para compartilhamento do conteúdo também é incentivada, mas “[…] desde que sem esconder a autoria em caso de questionamento judicial”, pondera o documento.
O material também apresenta orientações como a de “virar a narrativa” em caso de processos por publicações. “Não é derrota ser processada; é prova de que o opositor teme a força da militância”, afirma o documento.
Outra orientação trata da transformação de imputação de crimes em opinião política. O manual orienta os militantes a usarem frases como: “na minha visão, essa conduta é corrupta” ao invés de “Bolsonaro é corrupto”, apontando que a primeira forma é juridicamente mais segura.
Há também uma série de páginas dedicadas à produção de provas contra possíveis ataques e perseguições. “Provas digitais são fundamentais para sustentar ações judiciais (contra oponentes, plataformas ou perfis de ódio) e também para defesa em processos”, diz o manual.












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