Bombeiro auxilia mulher exausta pelo calor no Texas, em 26 de junho de 2023.
Kaylee Greenlee Beal/Reuters
Os impactos das mudanças climáticas na saúde estão aumentando mais rapidamente do que há uma década, apesar dos compromissos internacionais para conter o aquecimento global.
O alerta é de um relatório publicado nesta última terça-feira (27) pela prestigiada revista científica “The Lancet”, que aponta uma aceleração das mortes relacionadas ao calor, da exposição a secas extremas e dos problemas de saúde provocados pelas mudanças no clima.
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Segundo o levantamento, o calor esteve associado a aproximadamente 710 mil mortes em todo o mundo em 2023, o maior número estimado para um único ano no período analisado.
Dessas mortes, 71,5% foram atribuídas às mudanças climáticas provocadas pelas atividades humanas.
Diante dos resultados, os pesquisadores defendem que a crise climática seja formalmente reconhecida e tratada como uma emergência sanitária global, para que seus efeitos sobre a saúde tenham prioridade nas decisões dos governos.
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A avaliação faz parte da edição de 2026 do Lancet Countdown, uma iniciativa científica internacional que acompanha, todos os anos, como as mudanças climáticas afetam a saúde da população e o que os países estão fazendo para enfrentar esses impactos.
O trabalho reúne 146 pesquisadores de mais de 100 instituições em mais de 30 países, sob coordenação da University College London (UCL), em colaboração com a Organização Mundial da Saúde (OMS).
O estudo compara a década posterior à entrada em vigor do Acordo de Paris, de 2016 a 2025, com os dez anos anteriores, de 2006 a 2015.
A conclusão é que diversos danos à saúde se intensificaram em um ritmo superior ao observado antes do acordo, firmado para limitar o aquecimento global e reduzir os riscos associados às mudanças climáticas.
“Uma década após o Acordo de Paris, nossas conclusões são inequívocas: os danos das mudanças climáticas à saúde estão crescendo mais rapidamente do que a resposta mundial a eles e, em muitos casos, estão até se acelerando”, afirmou Marina Romanello, diretora-executiva do Lancet Countdown.
Segundo ela, houve avanços na expansão das energias renováveis e na preparação dos sistemas de saúde, mas essas iniciativas ainda não são suficientes para compensar o agravamento dos impactos climáticos.
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Mortes por calor e eventos extremos
O relatório estima que o calor esteve associado a uma média de 540,8 mil mortes por ano entre 2016 e 2023, um aumento de quase 36% em relação à média anual da década anterior.
Desse total, cerca de 369,9 mil mortes anuais foram atribuídas ao aquecimento provocado pelo ser humano.
Em 2023, o número de mortes associadas ao calor chegou a 710 mil, superando as estimativas de mortes causadas individualmente pela malária e pelo HIV naquele ano.
🌡️ ENTENDA: As mortes associadas ao calor incluem casos em que as temperaturas elevadas contribuem para agravar doenças cardiovasculares, respiratórias e outras condições de saúde. Por isso, o número não corresponde apenas aos óbitos classificados diretamente como consequência de uma onda de calor.
Para Christovam Barcellos, pesquisador sanitarista do Observatório de Clima e Saúde da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), que não participou do estudo, os resultados são compatíveis com os impactos das mudanças climáticas observados no Brasil.
“A conclusão é preocupante e consistente com o que observamos no Brasil. O relatório da Lancet Countdown mostra que os riscos climáticos para a saúde estão se agravando”, afirmou ao g1.
Segundo ele, o país apresenta sinais dessa intensificação, como ondas de calor mais frequentes e intensas, enchentes e períodos prolongados de seca.
O pesquisador cita a seca na Amazônia e as enchentes no Rio Grande do Sul, em 2024, como exemplos de eventos cujas consequências para a população vão além dos danos imediatos.
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Nas enchentes gaúchas, por exemplo, houve casos de leptospirose e problemas de saúde mental. Na Amazônia, a seca comprometeu o abastecimento de água, alimentos e medicamentos, além de agravar doenças respiratórias devido à fumaça dos incêndios.
Barcellos ressalta que parte das consequências das mudanças climáticas ainda não é contabilizada adequadamente no Brasil.
Isso ocorre porque os sistemas de monitoramento conseguem identificar principalmente mortes e ferimentos diretamente relacionados aos desastres, mas têm mais dificuldade para acompanhar os efeitos que surgem semanas ou meses depois.
Entre eles estão o agravamento de doenças crônicas, os surtos de infecções e os problemas de saúde provocados pela falta de água e alimentos.
“Nossa principal preocupação são os impactos que não vêm sendo medidos”, afirmou o pesquisador.
O novo relatório também mostra que as secas extremas atingiram 51,8% das terras do planeta durante pelo menos um mês em 2025, o segundo maior percentual registrado, atrás apenas de 2023.
Desde 2016, a expansão das áreas afetadas por secas ocorreu em um ritmo mais de sete vezes superior ao observado na década anterior.
As chuvas muito intensas também se tornaram mais frequentes. Entre 2016 e 2025, esses episódios atingiram, em média, 17,2% das áreas terrestres do planeta a cada ano, contra 14,8% entre 2006 e 2015.
Segundo os pesquisadores, essas mudanças aumentam a exposição da população a inundações, deslizamentos, doenças transmitidas pela água e problemas de abastecimento.
Vista de drone mostra bancos de areia devido à pior seca da história que afeta o rio Madeira em Humaitá (AM), em 4 de setembro de 2024.
Bruno Kelly/Reuters
Sistemas de saúde ainda não estão preparados
Apesar do agravamento dos impactos, o levantamento identifica avanços na preparação dos países para enfrentar os efeitos das mudanças climáticas.
Atualmente, 56 dos 194 países-membros da OMS possuem planos nacionais para adaptar seus serviços de saúde às alterações do clima. Em 2015, eram apenas 14.
O documento também aponta que sistemas de alerta e monitoramento têm ajudado a reduzir o crescimento das mortes provocadas por eventos meteorológicos extremos nos locais onde foram implantados.
Ainda assim, a resposta internacional permanece insuficiente.
Entre os países em desenvolvimento que apresentaram estimativas de custos para adaptar seus sistemas de saúde, as necessidades identificadas somam pelo menos US$ 3,3 bilhões por ano.
Em 2024, porém, apenas US$ 1,1 bilhão havia sido comprometido para atender a essas demandas.
No Brasil, Barcellos reconhece avanços na capacidade de identificar os riscos climáticos e preparar respostas de saúde pública.
Ele destaca a criação de sistemas de alerta, centros de monitoramento e o Plano de Adaptação do Setor Saúde às Mudanças Climáticas, lançado em 2025.
Mas afirma que ainda é necessário ampliar os investimentos no Sistema Único de Saúde (SUS), especialmente na prevenção e na capacidade de atendimento durante eventos extremos.
O pesquisador também alerta que crianças, idosos, gestantes e pessoas com doenças crônicas estão entre os grupos mais vulneráveis.
As desigualdades sociais agravam esses impactos, porque comunidades de baixa renda geralmente têm menos recursos para se proteger e se recuperar dos desastres.
Outro obstáculo apontado pelo relatório é a permanência da dependência mundial dos combustíveis fósseis, principais responsáveis pelas emissões de gases que aquecem o planeta.
Embora os investimentos globais em energia limpa tenham alcançado o recorde de US$ 2,1 trilhões em 2025, petróleo, carvão e gás natural ainda respondem por mais de 80% da energia consumida no mundo.
O estudo estima que a poluição atmosférica provocada por esses combustíveis esteja associada a aproximadamente 2,8 milhões de mortes por ano.
O Sistema Único de Saúde (SUS) foi criado pela Constituição Federal de 1988
Agência Brasil
Ao mesmo tempo, a melhora da qualidade do ar em pelo menos 77 países desde 2016 teria evitado cerca de 323 mil mortes anuais.
Para os autores, os resultados mostram que políticas de redução de emissões podem trazer benefícios imediatos à saúde, mas precisam ser ampliadas.
“As mudanças climáticas são uma das maiores ameaças à saúde enfrentadas pela humanidade. Seus impactos já podem ser observados no agravamento do estresse térmico, dos eventos climáticos extremos, da insegurança alimentar e das doenças”, afirmou Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da OMS.
Por isso, os pesquisadores defendem que o reconhecimento formal da emergência sanitária global seja acompanhado de medidas concretas, como redução das emissões, fortalecimento dos serviços de saúde e aumento dos recursos destinados à adaptação climática.
Para Barcellos, no Brasil, essa resposta exige maior integração entre as políticas ambientais, climáticas e de saúde.
Ele defende que o SUS receba mais recursos para ampliar os sistemas de vigilância, prevenção e atendimento, especialmente nos municípios mais vulneráveis.
Também considera necessário incorporar os impactos sobre a saúde às decisões sobre energia, transporte, agricultura e uso da terra.
“O reconhecimento de uma emergência global de saúde deveria implicar mudanças profundas”, afirmou.
Fonte: G1

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