O relatório final da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do INSS aponta a existência de uma estrutura criminosa de lavagem de dinheiro e evasão de divisas que funcionava como um “banco clandestino” para operadores das fraudes na Previdência Social. Entre as operações suspeitas dessa rede está o pagamento de R$ 3 milhões para Paulo Augusto de Araújo Boudens, que é ex-assessor do presidente do Senado Davi Alcolumbre (União-AP).
UM Gazeta do Povo Tentei contato com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, e com seu ex-assessor, mas não recebeu retorno até a publicação da matéria.
De acordo com a CPMI, a chamada rede era formada por cerca de 40 empresas e teria movimentado aproximadamente R$ 39 bilhões. Ela carregava operadores financeiros suspeitos que já foram identificados em investigações contra a facção criminosa PCC (Primeiro Comando da Capital). Assim, de acordo com o relatório, esse banco clandestino atuaria não apenas para os fraudadores do INSS, mas para outros agentes criminosos.
Entre seus objetivos estariam criar uma aparência de legalidade para dinheiro proveniente de crimes e até retirar grandes somas do Brasil por meio de complexos operações financeiras. O dinheiro ilícito está passando por várias transferências entre as empresas do esquema para dificultar o rastreio. Depois, os valores foram enviados para corretoras de câmbio, operadores financeiros e fintechs que negociavam criptomoedas e moedas estrangeiras.
De acordo com a CPMI, as empresas da rede funcionavam como uma engenharia de anonimização de pagamentos e evasão de divisas, utilizando empresas de fachada para simular relações comerciais e transferências financeiras.
Uma das empresas da rede, a Arpar, passou a ser alvo da CPMI por ter recebido R$ 150 milhões de Antônio Camilo, o “Careca do INSS”, considerado o principal operador do furto das aposentadorias.
“A ARPAR faz parte de uma complexa rede de empresas destinadas à lavagem de capitais, envolvendo diversas camadas e contando com mais de 40 empresas.
A reportagem também buscou contato com a Arpar Administração, Participação e Empreendimento SA, mas não obteve retorno.
O fato de Boudens, o ex-assessor de Alcolumbre, ter recebido R$ 3 milhões dessa empresa – sem que fosse bloqueado até o momento qualquer prestação de serviço – foi considerado pela CPMI motivo para pedir seu indiciamento.
“É premente a necessidade dos órgãos competentes investigarem a motivação de uma empresa de fachada depositar valores milionários para um dos principais assessores de um Senador da República”, aponta o documento apresentado pela CPMI.
O pedido de indiciamento consta no relatório final da CPMI do INSS, que até a noite desta sexta-feira (27) ainda não havia sido votado.
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Blindagem de ex-assessor é apontada como um dos motivos para não prorrogação da CPMI
A não prorrogação dos trabalhos da CPMI tem sido alvo de críticas por parte dos parlamentares da oposição, que apontam uma possível tentativa de blindagem.
“Até censura aconteceu, porque eu expus a razão desse conflito de interesses, que não foi prorrogada porque chegou no andar de cima”, declarou o senador Eduardo Girão (Novo-CE) nesta sexta-feira (27).
Segundo ele, a comissão deixou de avançar em linhas de investigação sensíveis, incluindo a depuração de possíveis vínculos entre a rede de lavagem de dinheiro e o ex-assessor do senador Davi Alcolumbre.
Girão citou reportagem da revista Veja para afirmar que “um homem de confiança” de Alcolumbre teria recebido valores milionários de empresa investigados em fraudes contra o INSS. “Nós quisemos trazer aqui esse Sr. Paulo Boldes [sic]. Quem foi que cegou? O PT”, afirmou o senador, ao sugerir que teria uma reunião política para evitar o aprofundamento das investigações.
Ao menos quatro pedidos de convocação de Boudens foram apresentados pelos parlamentares, mas nenhum foi sequer apreciado. A CPMI também tentou quebrar o sigilo do ex-assessor de Alcolumbre, mas a exigência foi rejeitada em outubro de 2025.
Ao criticar a não prorrogação da CPMI, o senador Girão também exige a blindagem feita ao filho e ao irmão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, e José Ferreira da Silva, o Frei Chico.

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