Mesmo com a denúncia da primeira proposta de delação premiada de Daniel Vorcaro por parte da Polícia Federal, após manifestação dedicada à colaboração, as investigações sobre o caso Master e a atuação do ex-banqueiro já foram desdobradas e estão específicas em pelo menos cinco linhas principais de apuração.
Em primeiro lugar, há suspeitas de fraudes financeiras bilionárias, como manipulação de balanços e criação de ativos sem último para transmitir uma falsa imagem de solidez ao mercado. O desdobramento mais recente dessa linha de investigação foi uma operação para apreender evidências de envolvimento do ex-governador do Rio, Cláudio Castro (PL), em investimentos de um fundo de previdência em operações de risco do Master.
A segunda frente investiga possível corrupção institucional em operações com o BRB, incluindo suposta cooptação de agentes públicos e influência sobre dirigentes do Banco Central. A purificação sobre a tentativa de compra do Master pelo BRB é a mais avançada da PF até o momento. Os policiais deverão apresentar em breve um relatório conclusivo sobre esses crimes.
Já a terceira linha de investigação envolve suspeitas de espionagem, intimidação e obstrução de investigações por grupos ligados ao conglomerado. A quarta será possível tráfego de influência e políticas comportamentais em Brasília. Por fim, a quinta frente investiga vazamentos de informações sigilosas do próprio inquérito.
Veja abaixo os principais desdobramentos de cada uma delas.
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1. Fraudes financeiras bilionárias
A primeira linha de investigação da Operação Compliance Zero é especializada em suspeitas de fraudes financeiras e sem impacto provocado pelas operações do Banco Master. A apuração da Polícia Federal tenta esclarecer como o conglomerado teria utilizado mecanismos financeiros considerados artificiais para transmitir ao mercado uma imagem de solidez e alta liquidez, mesmo diante de acusações de desequilíbrio patrimonial bilionário.
Segundo as investigações, o grupo teria realizado emissões em larga escala de títulos financeiros de alto risco, proporcionando rentabilidades acima da média do mercado para atrair investidores. Paralelamente, há suspeitas de criação de carteiras de crédito sem lastro econômico consistente, utilizadas para inflar ativos e melhorar artificialmente os balanços da instituição.
Esse modelo funcionava em ciclo: o banco captava recursos via CDBs, direcionando parte para empresas de fachada, que aplicavam os valores em fundos vinculados ao próprio ecossistema financeiro do grupo. Os fundos, por sua vez, compraram os créditos originados pela Master, deslocando o risco de inadimplência para Fundos de Investimento em Direitos Creditórios e evitando que os calotes aparecessem diretamente nos controles regulatórios do Banco Central.
O pesquisador também analisa possíveis estratégias de blindagem patrimonial e movimentações de bens entre familiares e empresas ligadas ao conglomerado.
Dentro dessa linha investigativa, uma operação nesta terça-feira (26) teve como alvo o ex-governador do Rio de janeiro Cláudio Castro (PL) que apura aplicações de cerca de R$ 3 bilhões do Rioprevidência em produtos financeiros ligados ao Master, incluindo letras financeiras sem cobertura do Fundo Garantidor de Crédito realizadas em 2023 e 2024.
Segundo a PF, os transportes aumentaram a exposição de recursos previdenciários públicos a ativos de alto risco em meio às suspeitas sobre a situação financeira real do banco. A defesa de Castro disse que não houve irregularidade e que as transações seguiram critérios técnicos e legais.
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2. Venda do Master para o BRB
A segunda linha de investigação é focada nas suspeitas de corrupção institucional envolvendo operações realizadas entre o Banco Master e o Banco Regional de Brasília (BRB).
Segundo a Polícia Federal, a cúpula do BRB teria realizado um amplo esforço coordenado para comprar e manter o Banco Master operacional, evitando sua liquidação antes da conclusão da tentativa de compra, injetando bilhões em ativos, concentrando a maior parte das aquisições de carteiras da instituição e acelerando pagamentos internos mesmo diante de alertas jurídicos e relatórios que apontavam riscos severos de liquidez.
Essa transferência, segundo a PF, demonstrou “pleno interesse do BRB em que o Banco Master não fosse liquidado”, até que o Banco Central acabou vetando a operação.
Nesse contexto, a PF também apura suspeitas de favorecimento indevido, cooptação de agentes públicos e possíveis vantagens ilícitas envolvidas em dirigentes do BRB e do Banco Central.
Parte das investigações se concentrou nas denúncias que envolveram a compra de carteiras de crédito do Master pelo banco estatal, operação que passou a ser questionada por órgãos de controle e fiscalização.
As apurações ainda analisam possíveis tentativas de influência sobre os órgãos reguladores, especialmente o BC, responsável pela supervisão do sistema financeiro nacional.
Dentro desse braço investigativo, o ex-presidente do BRB Paulo Henrique Costa e diretores do BRB foram presos. Houve ainda o afastamento funcional de dois diretores de alto escalonamento do Banco Central, suspeitos de darem sustentação ao esquema.
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3. Espionagem, hackers e intimidação
A terceira linha de investigação apura a suposta existência de uma estrutura de espionagem, intimidação e obstrução de investigações ligadas ao entorno do banqueiro Daniel Vorcaro.
Segundo a Polícia Federal, o grupo atuaria de forma organizada para monitorar adversários, pressionar desprotegidos, acessar informações confidenciais até dentro da Polícia Federal e tentar neutralizar críticas em veículos de comunicação e em redes sociais envolvendo os negócios do conglomerado financeiro.
A organização seria dividida em dois núcleos distintos. Um deles – que ficou conhecido como “A Turma” – teria atuação física, voltada para ações de intimidação direta, monitoramento presencial e pressão contra pessoas consideradas estratégicas nas investigações.
O outro braço seria especializado em operações digitais, incluindo invasões de sistemas, obtenção irregular de dados, monitoramento virtual e utilização de ferramentas tecnológicas para rastreamento de dados e investigações sigilosas envolvendo Vorcaro e o Master. Esse grupo era chamado de “Os Meninos”.
As apurações indicam ainda suspeitas de acesso indevido a bases restritas de informações e tentativas de movimentações antecipadas das autoridades responsáveis pelos inquéritos.
Diante da gravidade das acusações, o caso resolvido em medidas cautelares determinadas pelo STF, incluindo prisões preventivas como o retorno de Vorcaro à prisão em março, a prisão de seu cunhado, Fabiano Zettel, buscas e apreensões e transferência de investigados para o sistema penitenciário federal.
A PF prendeu o pai de Daniel Vorcaro, Henrique Vorcaro, suspeito de atuar na operacionalização e manutenção das atividades demonstradas ilícitas após a prisão do filho.
A defesa de Henrique Vorcaro afirmou que a prisão do empresário é “grave e desnecessária” e sustentou que a decisão judicial teria sido baseada em factos que, segundo os advogados, ainda não possuem comprovação no processo.
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4. Tráfego de influência e articulações políticas
A quarta linha de investigação está focada nas suspeitas de tráfego de influência e políticas políticas atribuídas ao entorno de Daniel Vorcaro. Segundo a Polícia Federal, o conteúdo de oito celulares diferentes do ex-banqueiro, bolsas de outros aparelhos e documentos apreendidos indicaram orientações com membros dos meios políticos, jurídicos, institucionais, além de profissionais ligados aos órgãos de fiscalização e controle do sistema financeiro.
Tudo isso para defender os interesses do conglomerado financeiro de Vorcaro, influenciar decisões estratégicas e acompanhar movimentações que possam impactar os negócios do ex-banqueiro em Brasília.
As apurações mencionam supostos repasses financeiros a políticos, além de conversas que agentes sugeriram trânsito frequente dos empresários entre gabinetes do Congresso Nacional e magistrados de tribunais superiores.
Ligações de uma empresa do ministro Dias Toffoli com um fundo do Master e um contrato de serviços advocatícios de R$ 129 milhões com a mulher de Alexandre de Moraes vieram a público. Mas até o momento nenhum ministro do STF ou seus familiares é alvo de investigação.
Na quinta fase da operação Compliance Zero, a PF alertou para um esquema de supostos pagamentos ilícitos envolvendo o banqueiro Daniel Vorcaro e o senador Ciro Nogueira, presidente do Partido Progressistas, incluindo busca e apreensão em endereços do parlamentar.
Ciro Nogueira afirmou que as investigações representam uma tentativa de atingir sua audiência pessoal e negociar qualquer envolvimento em irregularidades relacionadas ao caso.
Em manifestação pública, declarou estar à disposição das autoridades para colaborar com os esclarecimentos necessários e sustentou que não participou de atividades ilícitas investigadas pela PF.
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5. Vazamentos de dados
A quinta linha de investigação passou a apurar suspeitas de vazamento de informações sigilosas ligadas ao caso Master. A Polícia Federal investiga como dados extraídos de celulares apreendidos de investigados e autoridades foram acessados e divulgados indevidamente, incluindo conversas, documentos internos e informações protegidas por sigilo judicial. O inquérito corre sob sigilo.
As apurações alcançaram inclusive integrantes da própria PF. Um perito criminal federal foi afastado das funções na sétima fase do Compliance Zero e passou a ser investigado sob suspeita de ter repassado informações reservadas relacionadas às investigações envolvidas Daniel Vorcaro e contratos ligados ao entorno de ministros do STF, como dados das relações comerciais com o escritório da esposa de Alexandre de Moraes, a advogada Viviane Barci de Moraes.
Medidas cautelares foram determinadas, incluindo afastamento funcional e aprofundamento das perícias técnicas sobre os acessos a materiais apreendidos e possíveis vazamentos. A PF e a PGR também apuraram se houve atuação coordenada para antecipar conteúdos sigilosos das investigações e identificar possíveis responsáveis pelo compartilhamento irregular das informações.












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