
A briga entre Estados Unidos e China pelas terras raras do Brasil invadiu o debate político e acirra a polarização. O tema escalou após a empresa americana USA Rare Earth anunciar, neste mês, uma compra da mineradora Serra Verde, em Minaçu (GO), por US$ 2,8 bilhões. A negociação faz parte de um esforço americano para reduzir a dependência de fornecedores chineses de produtos minerais essenciais para a fabricação de chips e itens de alta tecnologia.
Segundo analistas ouvidos pela Gazeta do Povoas terras raras reforçam o debate ideológico: enquanto a esquerda defende uma agenda nacionalista e hostil aos Estados Unidos, a direita acusa o governo brasileiro de intervencionismo, de travar investimentos e de favorecer indiretamente a dominação chinesa do Brasil.
A empresa americana agora opera a mina Pela Ema – única no território nacional que está ativa no ramo de mineração de terras raras. Essa é também uma das únicas minas fora da Ásia que produz neodímio, praseodímio, térbio e disprósio, insumos usados em ímãs, baterias, turbinas, drones e eletrônicos. Com 90% da produção global de terras raras, a China controla preços e suprimentos.
O negócio evocou o tom geopolítico porque a USA Rare Earth recebeu apoio financeiro de US$ 1,6 bilhão do governo americano e financiamento de US$ 565 milhões à Serra Verde. Além disso, a produção da mina terá contrato de fornecimento completo de 15 anos sustentado por capital público e privado dos EUA.
Lula e partidos de esquerda investem no discurso de soberania nacional
Governistas encaram o caso da mina goiana como questão de soberania. Há uma semana, na Espanha, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) disse que o Brasil negocia com qualquer país, mas “ninguém será dono de nossas riquezas minerais”. Para ele, as terras raras servirão para industrializar o país.
No Congresso, a base governamental reagiu rápido. O líder do PT na Câmara, Pedro Uczai (SC), e outros deputados de esquerda apresentaram projetos para criar a estatal Terrabras, adotando regime de partilha inspirado no pré-sal e limitando as exportações. A proposta é o contraponto à parceria com os EUA.
Esquerda crítica parceria com a proposta de EUA de Flávio Bolsonaro
No fim de março, durante o encontro conservador CPAC, nos EUA, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência, disse que o Brasil é uma “solução” para os EUA reduzirem a dependência da China em terras raras e que o país é campo de batalha para definir o futuro do hemisfério ocidental.
Guilherme Boulos (PSOL), ministro da Secretaria Geral da Presidência, classificou a fala de Flávio como o “fato mais grave das eleições de 2026 até aqui” e acusou o senador de se comprometer a “entregar as terras raras do Brasil aos Estados Unidos” na troca de apoio do governo de Donald Trump.
Os deputados petistas Lindbergh Farias (RJ) e Gleisi Hoffmann (PR) chamamam Flávio e seu grupo de “vendilhões da pátria”. Já o ministro das Relações Institucionais, José Guimarães (PT), chamou a presidência do PL de “candidato a gerente de negócios dos bilionários dos EUA no Brasil”.
Direita vê sanha estatista do governo e risco de o país perder investimentos
A oposição, por sua vez, aponta riscos de estatismo, insegurança jurídica e uso político da mineração. Entidades do setor mineral criticaram projetos da Terrabras para prever a absorção de funções do Serviço Geológico do Brasil, regime de partilha e presença mínima de 50% da estatal na produção.
Os deputados da bancada do Novo Marcel Van Hattem (RS), Luiz Lima (RJ), Adriana Ventura (SP) e Gilson Marques (SC) protestaram publicamente e pediram a exclusão de projetos para criar o estado das terras raras, alegando inconstitucionalidade e os apelos de estatizantes e intervencionistas.
Antes da popularização do debate sobre as terras raras, o então deputado Jair Bolsonaro (PL) já classificava em 2016 o nióbio como símbolo de soberania mineral. Na Câmara, ele disse que o mineral gerou cobiça internacional e acusou o PT de deixar “vazar bilhões de dólares”, entregando riquezas minerais para os chineses.
Governo desiste de criar a Terrabras, mas PT estuda levá-la à campanha
Lula encontrou a ideia de criar a Terrabras, defendida por parte do PT e do governo. Venceu a tese de que o projeto teria resistências no Congresso e no setor de mineração, além de trazer riscos fiscais. A área econômica foi rejeitada, alegando alto custo e baixa eficácia, tal como o monopólio de urânio.
O Executivo decidiu então barrar a inclusão da iniciativa no marco dos minerais críticos e priorizar incentivos setoriais e um conselho ligado à Presidência. Apesar disso, o 8º Congresso do PT, realizado no último fim de semana em Brasília, tratou do tema como pauta prioritária nas eleições.
O conselheiro de empresas Ismar Becker acredita que o Brasil não tem alto potencial em terras raras e prova disso seria justamente o interesse manifestado pela esquerda. “A proposta de estatal carrega o risco de se repetir os erros no pré-sal, que custaram anos de atrasos e desperdícios de recursos”, resumiu.
O debate sobre terras raras segue a lógica da polarização, diz especialista
Eduardo Galvão, professor de Políticas Públicas do Ibmec-DF, avalia que a disputa pelas terras raras fez um tema técnico virar. “A ocorrência do governo, o envolvimento de [Ronaldo] Caiado [ex-governador de Goiás e pré-candidato à Presidência] na venda da mina e na judicialização dela emoldurou o duelo de soberania nacional versus atração de investimentos”.
Esse tipo de divisão, acrescenta ele, conecta economia, identidade nacional e política externa na mesma narrativa. Para os governantes, o tema abre espaço para fortalecer o discurso de controle estratégico de recursos naturais, com críticas públicas de Lula sinalizando risco em decisões descentralizadas.
Já para Caiado e setores de oposição, o caso pode ser lido como agenda de desenvolvimento e inserção do país em cadeias de valor globais. “A defesa da atração de capital estrangeiro e da exploração mais acelerada desses recursos conversa com investidores interessados em crescimento e emprego”, afirmou.
Partidos acionam PGR e STF contra a venda de mina
Deputados do PSOL, Rede e PCdoB recorreram à Procuradoria-Geral da República (PGR) para barrar a venda da mineradora Serra Verde, alegando eventuais ilegalidades e invasão de competência da União pelo então governador Ronaldo Caiado (PSD), pré-candidato à Presidência, na mediação da venda.
Os deputados Talíria Petrone (PSOL-RJ) e Orlando Silva (PCdoB-SP) iniciaram a PGR contra a Agência Nacional de Mineração (ANM) e a venda da mina sob o argumento de que o aval do órgão não pode ser apenas documental e que o financiamento estatal americano sugere intervenção em ramo estratégico.
A deputada Heloisa Helena (RJ) e seu partido, a Rede Sustentabilidade, entraram no STF com ação para suspender a venda da Serra Verde, alegando que a operação transfere controle econômico sobre ativos estratégicos pertencentes à União sem proteção suficiente ao interesse nacional.












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