O Departamento do Tesouro dos Estados Unidos fez em poucas semanas o que autoridades brasileiras levaram anos: mencionado diretamente para um suposto esquema envolvendo empresas que tiveram Victor Henrique de Oliveira Shimada como operador financeiro de uma suposta rede de lavagem de dinheiro envolvendo o Primeiro Comando da Capital (PCC).
Sua proteção nega qualquer envolvimento com organização criminosa ou lavagem de dinheiro. Ele é o principal alvo da primeira rodada de avaliação dos Estados Unidos depois das facções PCC e Comando Vermelho terem sido definidas por Washington como organizações terroristas.
Ao menos uma empresa operada por Shimada estava no radar das autoridades brasileiras desde 2024. Mas, somente nesta sexta-feira (3), depois de ele ser sancionado pelos EUA, foram expedidas ordens de prisão contra ele e outros pelo menos dez alvos, incluindo sua secretária Stella Stefanie Nunes Henrique de Oliveira. Até a publicação desta reportagem o empresário não havia sido localizado e é considerado foragido.
Para especialistas, o andamento das prisões no Brasil só aconteceu depois que o governo americano bloqueou bens, proibiu transações e classificou suas empresas como parte de uma estrutura criminosa. No Brasil Shimada estava em liberdade, sem sequer ter seus sigilos bancários quebrados em pedidos feitos pela Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do INSS.
Seu nome surgiu inicialmente na delação premiada de Vinícius Grisbach o delator do PCC que acabou assassinado em novembro de 2024 no Aeroporto de Guarulhos.
Depois Shimada entrou na apuração da CPMI por ter realizado lavagem de dinheiro de Antônio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS, apontado articulador do esquema bilionário dos descontos indevidos. A defesa de Antunes disse que não comenta as investigações em curso e ele não é alvo da operação desta sexta-feira (3).
A empresa do suspeito recebeu recursos da rede Arpar, como a CPMI nomeou um conjunto de empresas fantasmas usadas para lavar dinheiro tanto de facções quanto de organizações criminosas envolvidas no desvio de recursos de aposentados do INSS.
Especialistas alertam que os sistemas judiciais, de fiscalização e de controle brasileiros podem ter falhas durante todo esse período para deixar o suspeito agir praticamente de forma livre, sem que as investigações sejam aprofundadas.
Para o constitucionalista André Marsiglia, o Brasil desenvolveu uma cultura de tolerância a determinados crimes, especialmente os de colarinho branco, realidade que, segundo ele, contrasta com a resposta imposta pelas autoridades dos EUA.
Para ele, essa diferença revela um choque jurídico e cultural, evidenciando que haveria, no Brasil, uma postura de complacência que alcançaria diferentes esferas do poder público, incluindo setores do Executivo. “A atuação das autoridades americanas não representa uma intervenção nos assuntos internos do Brasil, mas uma consequência ao impacto que organizações criminosas brasileiras estariam provocando sobre empresas e interesses econômicos dos EUA”.
VEJA TAMBÉM:
-

PF prende sancionados pelos EUA por ligação com o PCC
-

Quem são os alvos das avaliações dos EUA por ligações com o PCC e fraudes no INSS?
Autoridades americanas têm mais iniciativa que as brasileiras, alerta jurista
O doutor em Direito Internacional pela USP, Luiz Augusto Módolo, diz estar preocupado que as autoridades dos EUA demonstrem a maior iniciativa no enfrentamento de facções brasileiras que o próprio Estado brasileiro, que só agiu efetivamente contra o bando nesta sexta-feira (3), após medidas terem sido tomadas pelo FBI (polícia federal dos EUA) e por outros órgãos investigativos americanos.
Na avaliação do Método, embora existam membros do sistema de Justiça que há anos combatem essas organizações, autoridades que ocupam cargos de maior poder deveriam aproveitar o interesse dos EUA para intensificar a cooperação internacional e fortalecer o combate ao crime organizado.
O especialista considera legítimo questionar como as autoridades americanas aparentemente dispõem de mais informações sobre o caso dos órgãos brasileiros. Para ele, esse cenário reforça a necessidade de ampliar o intercâmbio e a atuação coordenada.
A Embaixada e o Consulado dos Estados Unidos no Brasil informaram que as avaliações foram resultado de uma investigação integrada pela Força-Tarefa de Segurança Interna (HSTF), com a participação do FBI, do Departamento de Justiça (DOJ) e do Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros (OFAC). O governo americano disse que a rede operava a partir da Flórida e de São Paulo, e Shimada seria o elo entre operadores do PCC nos Estados Unidos e traficantes internacionais, tendo lavado milhões de criptomoedas.
Modelo processual brasileiro e as garantias constitucionais
Juristas avaliam que o modelo processual brasileiro, orientado pelas garantias constitucionais e pela necessidade de produção de provas dentro do ordenamento nacional, dificulta a adoção imediata de medidas cautelares apenas com base em informações produzidas por autoridades estrangeiras.
Os juristas afirmam ainda que, caso as autoridades brasileiras tenham acesso aos elementos que embasaram as avaliações americanas, caberia ao Ministério Público Federal e à Polícia Federal avaliar a instauração ou o aprofundamento de investigações próprias, podendo inclusive requerer medidas judiciais como as ordenadas nesta sexta-feira (3).
“A manifestação das autoridades dos Estados Unidos reduz dúvidas sobre a necessidade de apuração no Brasil, embora, por si só, não substitua a exigência do processo penal brasileiro”, cita o criminalista Márcio Nunes.
Porém, na avaliação do especialista, o argumento de que as autoridades americanas não deveriam compartilhar provas não eliminaria o dever e as obrigações das instituições brasileiras de buscar cooperação jurídica internacional para obter esses elementos. Segundo ele, um caso dessa relevância exige atuação coordenada para verificar se as informações que fundamentaram as avaliações podem ser incorporadas às investigações.
“O contraste expõe um problema que se arrastava há anos: nomes que constavam há tempos em relatórios de inteligência financeira e no relatório final da própria CPMI, mas a investigação brasileira não tinha avançada, até então, o suficiente para resultar em ações e bloqueios efetivos e prisões”, destaca Marsiglia. Ele também alertou para o fato de que a demora do Brasil em agir proporcionou que o principal investigado pudesse fugir.
O advogado Alex Erno Breunig, presidente da Associação dos Oficiais Militares do Paraná e coordenador jurídico da Federação Nacional de Entidades de Oficiais Militares, destaca a defasagem histórica de efetivo na PF o que impactaria o desempenho das atividades da instituição, mas o problema se agravaria no caso de forças-tarefa, que são estruturadas para investigações de maior complexidade, tecnicidade e relevância institucional.
Ao comentar a ausência, até então, de decretação de prisões ou bloqueio de bens no âmbito das investigações sobre fraudes no INSS ou do crime organizado internamente, Breunig avalia que o fator determinante não parece ser apenas uma falta de eficácia, mas poderia se tratar mais provavelmente de uma decisão de natureza estratégica de investigador, podendo envolver critérios técnicos próprios de condução do inquérito.
O advogado acrescenta que não se pode descartar a possibilidade de influência de fatores políticos e institucionais, que podem ter interferido na definição de medidas cautelares ao longo das investigações.
Quem é Victor Shimada e por que seu nome apareceu nas avaliações dos EUA
O empresário Shimada, considerado foragido da Justiça, é dono da Victory Trading Intermediação de Negócios, uma das empresas sancionadas por realizar operar lavando dinheiro do PCC. Documentos da CPMI do INSS alertaram que a Victory Trading recebeu R$ 514,5 milhões da Wave Intermediações de setembro de 2023 a setembro de 2024.
A Wave Intermediações é apontada como CNPJ da chamada rede Arpar, um conjunto de empresas que, segundo a CPMI, apresentavam desculpas de operar como estrutura de fachada para lavagem de dinheiro. O nome do grupo faz referência a uma empresa ligada a um associado ao Careca do INSS.
Além da Shimada e da Victory Trading, os Estados Unidos sancionaram a Wave Construções Inteligentes, a Pixwave Soluções de Pagamentos, também de propriedade da Shimada, a secretária presa Stella Stefanie Nunes Henrique de Oliveira e a empresa portuguesa Avenidas Flutuantes Unipessoal.
A defesa de Victor Henrique de Oliveira Shimada informou, ainda na quarta (1º), que não havia tido acesso aos documentos que embasaram as avaliações americanas e que não era possível se manifestar sobre o mérito da decisão. Os advogados alegaram que Shimada negou qualquer envolvimento com organização criminosa ou lavagem de dinheiro, classificando-os como prematuros, tirando instruções antes da análise da documentação e afirmam que os fatos serão esclarecidos pelas vias legais.
UM Gazeta do Povo não conseguiu contato com a defesa de Stella Stefanie Nunes Henrique de Oliveira e aguarda retorno da Avenidas Flutuantes Unipessoal.
Relator da CPMI acusa PT e sobra de acabar com a investigação
O relator da CPMI do INSS, deputado Alfredo Gaspar (PL-AL), descreveu em seu relatório final a rede Arpar como “estrutura de lavagem de capitais” que teria movimentado quase R$ 40 bilhões, dando aparência de legalidade a recursos desviados do INSS.
Gaspar afirmou que as avaliações americanas desta semana, e agora as prisões, reforçam os alertas de que havia feito na CPMI com menções semelhantes às empresas, antes de o governo americano agir. O parlamentar criticou o PT, os partidos de esquerda e a base do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva por, segundo ele, terem impedido a prorrogação da comissão e rejeitado seu relatório. O parlamentar defendeu a retomada imediata das investigações.
O caso de Shimada ilustra bem, segundo o investigador aposentado das forças federais de segurança, Sérgio Gomes, o ritmo de muitas investigações no Brasil. Nesta semana, um Gazeta do Povo revelou que as investigações das fraudes do INSS estão praticamente travadas por falta de eficácia na Polícia Federal, com a força-tarefa operando com defasagem de pelo menos 30 profissionais.
Uma das frentes da investigação apura a suposta ligação de Fábio Luís Lula da Silva, filho do presidente Lula, com o Careca do INSS. Lulinha não é investigada. “Mais um sinal de como a apuração no Brasil move lentamente enquanto o cerco internacional se abre rapidamente”, destaca.
Vale lembrar que os EUA não acusam o Careca do INSS de participar de lavagem de dinheiro para grupos criminosos, nem o incluem na lista de sancionados. O que existiria é uma suposta ligação indireta, já que ele aparece nas investigações brasileiras conectadas a empresas que agora foram alvo das avaliações americanas.
As análises ampliam o alcance das investigações justamente porque vão além do sistema de Justiça brasileiro. Com a medida americana, todos os bens e ativos dos sancionados sob jurisdição americana ficam bloqueados naquele país. Cidadãos e empresas dos EUA também estão proibidos de manter relações comerciais com eles, e instituições financeiras estrangeiras que realizem transações relevantes com alvos também podem ser punidas com avaliações secundárias.
“Na prática, o que os EUA fizeram em poucas semanas como identificar, nomear e bloquear, é o que a Justiça brasileira levou meses, anos para fazer”, completa Nunes.













Deixe o Seu Comentário