Uma auditoria do Tribunal de Contas do Estado da Bahia (TCE-BA) recomendou a recolha das contas do ex-ministro da Casa Civil e pré-candidato ao Senado, Rui Costa (PT), referentes ao período em que governou a Bahia e presidiu o Consórcio Nordeste, em 2020.
De acordo com a Folha de S.Pauloque teve acesso ao documento, o técnico concluiu que houve “erro administrativo grosseiro” na condução da compra de 300 respiradores pulmonares durante a crise sanitária da covid-19.
O parecer técnico ainda será apresentado ao plenário do TCE-BA. Caso seja aprovado pelos Conselheiros, caberá à Assembleia Legislativa da Bahia dar a palavra final sobre a aprovação ou revisão das contas.
Procurado pela Gazeta do Povoo TCE-BA informou, por meio de sua assessoria de comunicação, que não comenta processos em andamento e que a aparência permanece sob sigilo. Questionada sobre a teoria do documento, que veio a público, a Corte afirmou que não pode “confirmar nem negar” seu conteúdo.
Relatório aponta falhas na contratação
Segundo os auditores, Rui Costa e o então secretário-executivo do Consórcio Nordeste, Carlos Gabas, autorizaram a contratação da empresa Hempcare Pharma Representações sem observar cautelas consideradas essenciais pela administração pública.
O relatório atribuiu a Rui Costa e Carlos Gabas uma responsabilidade pelo prejuízo de R$ 48,7 milhões porque ambos autorizaram o pagamento antecipado pela compra de 300 respiradores que a Hempcare nunca entregou.
Os auditorias sustentam que a Hempcare possuía capital social de apenas R$ 100 mil — equivalente a cerca de 0,2% do valor do contrato —, iniciou suas atividades poucos meses antes da negociação e não possuía registro na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para comercializar equipamentos médicos.
Os técnicos também apontam que o contrato continha cláusulas frágeis e que os gestores realizaram o pagamento antecipado sem garantias suficientes.
Outro ponto destacado é que os alertas da Procuradoria-Geral do Estado (PGE) foram ignorados. O órgão havia condicionado o pagamento antecipado à adoção de medidas como proposta prévia de preços e apresentação de certificações negativas.
Para os auditores, houve “evidente descoberta” na análise dos riscos para permitir que uma empresa sem experiência comprovada atuasse como competitiva em uma compra internacional de equipamentos hospitalares.
Rui Costa contratou o desconhecimento do inglês
Após a repercussão do caso, Rui Costa afirmou que não desconfiou da empresa porque não sabia que a palavra inglesa cânhamo significa cânhamo, planta da qual deriva a cannabis. Segundo o ex-governador, ele não associou o nome Hempcare ao mercado de produtos à base de cannabis por não dominar o idioma inglês.
Além do episódio dos respiradores, as auditorias de acordos contábeis, irregularidades em contratos, deficiência de controles internos e problemas de transparência na gestão do Consórcio Nordeste entre janeiro e setembro de 2020.
O parecer recomenda ainda que a entidade continue adotando medidas para recuperar os R$ 48,7 milhões desembolsados.
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Defesas contestam conclusão de auditoria
Nos autos do processo, a defesa de Rui Costa argumentou que a contratação ocorreu num contexto excepcional de emergência sanitária e deficiência mundial de respiradores.
Os advogados sustentam que os governadores do Consórcio Nordeste tomaram a decisão de forma colegiada, que o pagamento antecipado era compatível com o cenário da época e que não houve dolo nem erro grosseiro.
Também afirmam que foram adotadas medidas preventivas para tentar recuperar os recursos após o descumprimento do contrato.
A defesa de Carlos Gabas também negou irregularidades e alegou que o Consórcio Nordeste enfrentou limitações estruturais em seu primeiro ano de funcionamento.
Caso segue sob investigação
A Polícia Federal (PF) conduz a investigação do caso, enquanto o processo tramita sob sigilo no Superior Tribunal de Justiça (STJ).
Em abril de 2025, o Tribunal de Contas da União (TCU) arquivou o processo envolvendo Rui Costa e Carlos Gabas, mas determinou a abertura de uma tomada de contas especial contra a Hempcare para buscar o ressarcimento dos valores pagos.

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