A decisão da Polícia Federal (PF) de suspender novos depoimentos de ex-sócios do Banco Master, incluindo o CEO da instituição, Daniel Vorcaro, no fim de janeiro, pode ter relação direta com o relatório entregue nesta semana pela PF ao presidente do Supremo Tribunal Federal, Edson Fachin. Naquele momento, o relatório que trata de uma possível ligação entre o então relator do caso do Mestre no STF, o ministro Dias Toffoli, e Vorcaro já estava em elaboração e com evidências de contatos formais entre ambos. Foi quando as defesas dos investigados comunicaram à Polícia Federal que seus clientes permaneceram em silêncio em eventual novo depoimento pelo fato de não terem tido acesso a todas as provas e documentos.
A decisão ocorreu duas semanas após a segunda fase da operação Compliance Zero, quando a PF já havia acessado dados extraídos dos aparelhos eletrônicos apreendidos e na primeira fase da operação, em novembro de 2025, e identificados suspeitos de contatos entre o empresário e o ministro. Segundo fontes ligadas às investigações, havia a expectativa de que o investigador questionasse possíveis conexões com autoridades, o que teria contribuído para a estratégia de silêncio pelas defesas, levando à suspensão das ações por parte da PF.
A deflagração da segunda etapa da investigação, no dia 14 de janeiro, voltou a ter como alvo o empresário Daniel Vorcaro e pessoas de seu entorno. Quando convocados aos depoimentos, que ocorreram nos dias 27 e 28 de janeiro, as defesas informaram previamente que seus clientes exerceriam o direito constitucional de permanência em silêncio, alegando que não tiveram acesso integral ao conteúdo das apurações, especialmente aos dados extraídos de celulares e documentos apreendidos.
A primeira fase do Compliance Zero foi deflagrada em novembro, quando a PF apreendeu um celular de uso pessoal de Vorcaro, do qual o banqueiro não informou a senha de acesso. Já na segunda etapa, realizada em janeiro, os investigadores encontraram quase 40 aparelhos eletrônicos, dos quais cinco foram apontados ao próprio empresário.
O volume de provas teria ampliado de forma significativa o escopo da investigação, permitindo a remoção de novos dados considerados estratégicos para o avanço do inquérito e o aparecimento de nomes influentes na cena política, econômica e jurídica em Brasília.
Na época, os advogados sustentaram que a falta de acesso completo às provas inviabilizaria o exercício do pleno do direito de defesa, já com acusações claras de que nomes influentes deveriam ser aparecidos nas investigações. Com isso, a corporação decidiu reavaliar a necessidade de redesenhar os depoimentos antes da conclusão do inquérito, o que deverá ocorrer até meados de março.
A única oitiva mantida no fim de janeiro foi a do ex-diretor de compliance do Banco Master Luiz Antônio Bull, que prestou esclarecimentos no dia 27 do mês passado por cerca de uma hora. O teor de seu depoimento permanece sob sigilo.
A rodada de interrogatórios teve como foco aprofundar a apuração sobre supostas irregularidades na venda do Master ao BRB – negócio que está no centro das investigações -, e as ligações políticas e jurídicas de Vorcaro que poderiam proporcionar blindagem em processos e investigações.
Nos bastidores, o pesquisador da PF avalia que o cancelamento dos depoimentos pode ter sido influenciado também pelo avanço das análises técnicas realizadas após a segunda fase da operação. As extrações de dados dos aparelhos apreendidos, especialmente dos cinco celulares atribuídos a Vorcaro, revelaram conexões antes negadas por Vorcaro, no depoimento de 30 de dezembro, e ampliado a teia investigatória. Parte desse material ainda estaria sendo submetida a cruzamentos de dados que envolvem interlocuções sensíveis, o que teria elevado o grau de complexidade do caso.
Nesta semana, no entanto, Daniel Vorcaro manifestou-se ao Senado que está disposto a comparecer à Comissão de Assuntos Económicos (CAE), no dia 24 de fevereiro, para prestar esclarecimentos públicos sobre o caso envolvido o Mestre. Um novo depoimento à PF ainda não foi agendado. Vorcaro está em prisão domiciliar com uso de tornozeleira eletrônica desde o fim de novembro.

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