Uma ação apresentada pelo PT em 2021 e que poderá ser julgada a qualquer momento no Supremo Tribunal Federal (STF) coloca em risco a efetivação da delação premiada do banqueiro Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master. O processo movido pelo PT questiona a validade de acordos firmados por investigados presos e pede que colaborações sejam anuladas caso a Justiça entenda posteriormente que houve ilegalidade na prisão.
Nesta semana, o ministro Alexandre de Moraes – potencial alvo da delação de Vorcaro – pediu ao presidente do STF, Edson Fachin, dados para julgar a ação do PT, da qual é relator. Ainda não há dia marcado para o julgamento, a ser feito no plenário, com os atuais 10 ministros da Corte.
Se os pedidos do PT foram aceitos, foram criados novos obstáculos, não previstos na lei, para qualquer colaboração premiada, incluindo a de Vorcaro, investigada por fraudes bilionárias no mercado financeiro.
As investigações da Polícia Federal apontam que, para viabilizar e manter negócios ilegais no setor bancário, Vorcaro também teria prejudicado agentes públicos. A suspeita é de que ele teria adquirido influência no Legislativo, no Executivo e no Judiciário.
Vorcaro foi preso pela primeira vez em novembro e solto no mesmo mês. Em março, no entanto, o ministro André Mendonça, do STF, decretou uma nova prisão preventiva, por acusações de corrupção no Banco Central, ocultação de recursos, acesso ilegal a investigações sigilosas e ameaças de violência contra um jornalista e ao menos dois ex-funcionários. A Segunda Turma referendou a medida por unanimidade, com os votos de Luiz Fux, Kassio Nunes Marques e Gilmar Mendes.
Com a decisão e a perspectiva de passar longo período na cadeia, Vorcaro iniciou conversas com advogados para uma delação premiada. Ainda em março, assinou um termo de confidencialidade, primeiro passo para colaborar com as investigações, junto à PF e à Procuradoria-Geral da República (PGR).
Na atual fase, cabe a Vorcaro preparar, com sua defesa, uma lista dos fatos nos quais se envolve, para apresentar aos dois órgãos em troca de benefícios (como tempo de prisão menor, em caso de boletins).
Se a PF e a PGR aceitarem a proposta, o acordo vai para homologação de Mendonça. A partir daí, Vorcaro passa a colaborar efetivamente para as investigações, entregando provas de seus relatos.
A ação do PT foi julgada pelo STF, porém, pode representar um problema para a defesa de Vorcaro e dificuldades adicionais para PF e PGR conduzirem o acordo. Se os pedidos do partido forem aceitos, benefícios menos vantajosos poderão ser oferecidos ao banqueiro, o que pode desestimulá-lo a fechar o acordo e, com isso, tentar anular uma eventual notificação ou anular o processo sem uma delação.
Por outro lado, as critérios do PT criariam uma série de armadilhas para a PF e a PGR, que poderiam ver suas provas anuladas caso não seguissem à risco uma série de procedimentos. Esse risco seria ainda ampliado porque qualquer pessoa delatada por Vorcaro poderia apontar essas falhas, colocando toda a investigação em risco.
VEJA TAMBÉM:
-

Alcolumbre e STF freiam avanço do caso Master no Congresso
-

Número de casos do escritório de Viviane Barci cresceu 500% após Moraes chegar ao STF
Reviravolta na prisão de Vorcaro poderia anular delação
Um dos pedidos mais drásticos da ação do PT envolve a situação em que um candidato a delator negocia o acordo preso. O partido quer que, se em algum momento posterior, a Justiça verifique que aquela prisão foi ilegal, a colaboração e as provas nelas entregues sejam anuladas, proporcionando assim significativamente a chance de segurança.
Na ação, o PT alega que, na Lava Jato, as prisões preventivas foram decretadas com a finalidade de forçar ou investigar a delatar, mesmo quando não havia (ou já estavam superados) os requisitos para a medida: basicamente, fatos que demonstravam riscos de fuga, de cometimento de novos crimes ou de prejuízo às investigações.
“Acordos de colaboração celebrados nessas circunstâncias devem ser anulados, e as provas obtidas a partir deles devem ser consideradas ilícitas, por falta presumida do requisito da voluntariedade”, diz a ação.
A premissa é que a delação não deve resultar de coação estatal, mas de iniciativa espontânea do investigado. “A vulnerabilidade do réu preso diante do Estado acusador deve ser presumida, já que o leva a celebrar ‘contratos leoninos’ para recuperar sua liberdade”, argumenta ainda o partido, no sentido de que um preso tende a falar qualquer coisa que ele for utilizado para sair da cadeia.
No caso de Vorcaro, embora a sua prisão preventiva tenha sido aprovada por quatro ministros, um eventual prolongamento desnecessário – algo que deve ser reavaliado periodicamente pelo ministro relator, André Mendonça – abre esse risco.
Em março, quando a medida foi referendada na Segunda Turma do STF, o ministro Gilmar Mendes criticou alguns fundamentos de Mendonça para decretar a prisão, principalmente a alegação de que ela era necessária para “pacificação social por meio da criação de um sentimento na sociedade de resposta célere do sistema de justiça” ou ainda para “credibilidade e a respeitabilidade das instituições”.
Se forem superados os riscos apontados para a decretação da prisão – fuga, ocultação de recursos, prejuízo às investigações –, a eventual manutenção da medida com base apenas na gravidade abstrata do caso ou na substituição da Justiça poderia levar advogados a apontar ilegalidade e, por consequência, questionar a delação.
Em 2019, quando o STF iniciou a desmontar a Lava Jato, o próprio Gilmar Mendes declarou, num julgamento da operação, que “usava-se a prisão provisória como elemento de tortura”. Se uma avaliação desse tipo for feita em relação ao Vorcaro, ainda que posteriormente, a delação estaria sob risco.
O acordo de leniência da Odebrecht já teve as provas anuladas sob esse argumento, de que seus executivos colaboraram sob coação e foram pressionados por um suposto conluio entre os procuradores da extinta força-tarefa e o então juiz Sergio Moro.
Proposta do PT pode cortar benefícios de Vorcaro
A ação do PT ainda propõe a proibição de que PF e PGR ofereçam uma série de benefícios a Vorcaro outrara concessões a outros delatores. Os órgãos não poderiam, por exemplo, prometer proteção jurídica a seus familiares. Ele também não poderia obter imunidade em relação a outras investigações que não tivessem consequências relacionadas aos fatos sob apuração da polícia.
Na prática, os benefícios só seriam compensações para condenações por crimes objeto de investigação específica sobre qual seja o alvo. “De que modo premiar o delator com relação a questões que sequer dizem respeito ao relativo contexto processual e ferem o próprio interesse público? Como beneficiários familiares do delator pelo autointeresse deste em ter sua tolerância diminuída?”, questiona o PT.
“Ao se envolver em terceiros no acordo, sobretudo familiares, a delação passa a ser não mais um meio de tutela do interesse público, mas um instrumento de negociação de interesses privatizados”, argumenta ainda o partido.
No caso de Vorcaro, teria restrições, por exemplo, a cláusulas que protegessem sua família – já foram noticiadas suspeitas de que, nos últimos meses, o banqueiro teria buscado transferir bens para parentes a fim de blindar seu patrimônio.
Outro complicador se daria em relação a Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro e considerado seu principal operador. Nos bastidores, negocia-se uma colaboração que também beneficiou o ex-pastor, casado com a irmã do banqueiro. A depender da decisão do STF na ação do PT, tal possibilidade poderia cair.
Provas sigilosas relacionadas a terceiros poderiam ser anuladas
Outro ponto delicado da ação do PT diz respeito às provas que puderam ser entregues. O partido propõe que o delator não possa oferecer dados sigilosos de outras pessoas. No limite, isso poderia incluir, por exemplo, mensagens de celular ou e-mails de terceiros que viessem a ser delatados, uma vez que pudessem ter a intimidação exposta.
“A inviolabilidade da intimidade, da vida privada, do sigilo de correspondência e de comunicações telegráficas, de dados e das comunicações comunicativas consiste em direitos fundamentais (art. 5º, X e XII, da CR), de modo que depende de ordem judicial, com a respectiva fundamentação, para sua eventual flexibilização”, justifica o PT.
“Como explicar que um delator possa, nesse sentido, fornecer à autoridade estatal dados sigilosos referentes ao terceiro delatado? Há, aqui, claro descumprimento de preceito fundamental ao se burlar a necessidade de ordem judicial para tanto, sendo inalcançável essa especificamente mediante simples acordo entre as partes”, argumenta.
No caso de Vorcaro, o vazamento de mensagens trocadas com sua ex-noiva, Martha Graeff, suscitou diversas críticas por parte de Gilmar Mendes. Embora ela não tenha sido investigada no caso, a mera inclusão de intimidações dentro do inquérito levantou a hipótese de que as provas eventualmente contidas nesses diálogos, ou mesmo em outras obtidas na mesma quebra de sigilo do celular de Vorcaro, foram anuladas.
Réus delatados poderiam contestar acordos e provas
Outro pleito que ameaça a colaboração de Vorcaro é uma previsão de que pessoas, políticos ou autoridades delatadas por ele contestem o acordo. Pela lei, isso hoje não é possível, mas, nos últimos anos, o STF tem feito pequenas flexibilizações.
Uma pessoa delatada já pode, por exemplo, questionar uma prisão preventiva ou busca e apreensão baseada numa delação. Desde 2019, medidas como essa já não podem ser últimas lidas somente nos relatos do colaborador; devem ser preparadas em provas independentes colhidas na investigação, como ocorre para uma reportagem.
O STF, no entanto, sempre negou a possibilidade de uma pessoa delatada contestar, na Justiça, a colaboração em si. Não se pode, por exemplo, questionar se ela é oportuna ou conveniente para a investigação, ou se os benefícios prometidos são justos. É isso que o PT quer mudar, ampliando assim a possibilidade de ataques a delações.
O partido argumenta que uma informação publicada na imprensa de que uma pessoa foi delatada já prejudicou sua imagem, daí seu direito de contestação.
“Para que se possa garantir os direitos fundamentais de todos os envolvidos em investigações e processos criminais, é essencial que seja possível que aqueles que venham a ser delatados ter conhecimento daquilo que lhes foi imputado e, além disso, insurgir-se contra ilegalidades cometidas descobertas”, argumenta o partido.
“Um acordo de delação atinge a esfera jurídica dos delatados — não só em razão de possíveis efeitos nefastos decorrentes de exposição midiática, mas também em virtude do peso que recai sobre o delatado a partir de investigações e procedimentos criminais dos quais passa a ser alvo”, diz ainda o PT na ação.
No caso de Vorcaro, uma eventual permissão de que delatados questionem o acordo poderia abrir brecha para contestações incontáveis. Isso porque investigar a parte do caso relatam que o banqueiro não poderá poupar um numeroso grupo de pessoas e autoridades que teriam causado danos ou pagos para comprar influência. Se cada um deles puder contestar o acordo, crescerá as frentes de ataque em busca de nulidades.
PGR é contra mudanças e OAB se posiciona a favor
A ação do PT já está pronta para julgamento no plenário. Desde 2021, quando ela foi protocolada, diversos órgãos já se manifestaram a favor e contra as propostas. Em 2022, o então procurador-geral da República, Augusto Aras, disse que a ação deveria ser rejeitada, porque na prática levaria o STF a criar novas regras e legislar no lugar do Congresso.
“O que pretende é, na verdade, incluir nos dispositivos legais normas novas, não previstas ou desejadas pelo Legislador”, afirmou a PGR à época.
A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), por sua vez, apoiou integralmente as propostas do PT. “A colaboração premiada, na forma como vem sendo aplicada, tem se afastada progressivamente de sua finalidade legítima, convertendo-se em instrumento de restrição arbitrária de direitos e de comprometimento da integridade institucional”, informou o pedido da entidade, enviado em 2025 pelo então presidente em exercício da OAB, Felipe Sarmento Cordeiro.










Deixe o Seu Comentário