Primeira-ministra Judith Suminwa defende que países produtores de minerais estratégicos também tenham acesso a empregos, tecnologia, conhecimento e maior participação no valor gerado pela nova economia
A República Democrática do Congo (RDC) levou à Organização das Nações Unidas (ONU) um alerta sobre as desigualdades tecnológicas que acompanham a expansão da inteligência artificial, da transição energética e da chamada economia verde. Em discurso durante a 81ª sessão da Assembleia Geral da ONU, a primeira-ministra congolesa, Judith Suminwa, afirmou que não é sustentável manter uma divisão internacional na qual países ricos em minerais fornecem matérias-primas, enquanto o processamento, a pesquisa, a tecnologia e grande parte dos lucros permanecem concentrados em outras regiões.
A manifestação ocorre em um momento especialmente delicado para o país africano. Enquanto governos e empresas de todo o mundo ampliam investimentos em tecnologias digitais, veículos elétricos, baterias e sistemas de inteligência artificial, o leste da RDC continua enfrentando instabilidade e deslocamentos provocados pelo conflito armado.
Tecnologia e minerais estratégicos no centro do debate
A RDC possui uma posição importante na cadeia global de minerais estratégicos, especialmente por sua produção de cobalto. O mineral é utilizado em diferentes tecnologias, incluindo baterias empregadas em veículos elétricos e dispositivos eletrônicos.
Segundo dados citados pelo JURIST, o país respondeu por aproximadamente 76% do mercado mundial de cobalto em 2024 e possui uma parcela significativa das reservas globais do mineral.
Para o governo congolês, entretanto, a participação na economia tecnológica internacional não deveria terminar na extração dos recursos naturais.
A primeira-ministra Judith Suminwa defendeu que as comunidades e os países produtores também tenham acesso a empregos qualificados, conhecimento técnico, pesquisa, desenvolvimento industrial e tecnologias associadas aos minerais extraídos em seus territórios.
A preocupação está relacionada ao chamado valor agregado. Em vez de exportar somente matérias-primas, países produtores buscam ampliar sua participação nas etapas de transformação, fabricação e desenvolvimento tecnológico.
“Fratura digital” pode aumentar desigualdades
Em outra manifestação relacionada ao tema, Suminwa afirmou que a RDC apoia o diálogo global da ONU sobre governança da inteligência artificial e a criação de um fundo mundial voltado ao fortalecimento de capacidades.
A primeira-ministra alertou que a chamada fratura digital não deve se transformar em uma nova desigualdade relacionada à inteligência artificial. Para o governo congolês, países que fornecem recursos essenciais para novas tecnologias também precisam participar dos benefícios econômicos e científicos dessa transformação.
A questão ganha importância diante da velocidade com que sistemas de inteligência artificial e outras tecnologias estão sendo incorporados à economia mundial.
O secretário-geral da ONU, António Guterres, também colocou a inteligência artificial entre os grandes desafios contemporâneos durante a abertura do debate geral da Assembleia Geral. Ele destacou preocupações relacionadas à concentração de poder tecnológico, às desigualdades e aos riscos associados ao desenvolvimento acelerado da IA.
Conflito continua afetando o leste da RDC
O debate econômico e tecnológico acontece paralelamente à crise de segurança no leste da República Democrática do Congo.
Segundo o JURIST, o conflito provocou o deslocamento de mais de sete milhões de pessoas. A região também possui importantes recursos minerais, fazendo com que a exploração e o comércio desses recursos estejam ligados às discussões sobre segurança, desenvolvimento e estabilidade.
O grupo rebelde M23 continua sendo apontado como uma das forças que controlam áreas do leste do país. A situação permanece complexa e envolve fatores históricos, políticos, sociais e econômicos.
A exploração ilegal de recursos naturais também é uma preocupação das Nações Unidas. O secretário-geral António Guterres afirmou anteriormente que a exploração ilícita de minerais estratégicos pode fortalecer grupos armados e redes criminosas, dificultando os esforços de construção da paz.
Minerais para a transição energética
O debate sobre a RDC também está diretamente relacionado à transição energética mundial.
A expansão de veículos elétricos, baterias e outras tecnologias de baixo carbono aumenta a demanda por minerais considerados estratégicos. Isso cria oportunidades econômicas para países produtores, mas também levanta questões sobre distribuição de renda, condições de trabalho, proteção ambiental e desenvolvimento industrial.
Para a liderança congolesa, uma transição energética considerada justa precisa beneficiar também as populações que vivem nas regiões onde os recursos são extraídos.
A posição apresentada na ONU é que não basta substituir tecnologias baseadas em combustíveis fósseis por tecnologias de menor emissão se as cadeias produtivas continuarem reproduzindo desigualdades econômicas.
Inteligência artificial também é questão de segurança
A discussão sobre tecnologia não ficou restrita à economia.
A ministra de Estado das Relações Exteriores da RDC, Thérèse Kayikwamba, afirmou em uma reunião do Conselho de Segurança da ONU que a inteligência artificial já representa uma questão relacionada à paz e à segurança internacionais.
Segundo ela, entre os riscos estão vulnerabilidades em infraestruturas críticas, possíveis perdas de controle humano em aplicações militares e comportamentos inesperados de sistemas autônomos.
A manifestação demonstra como a discussão sobre IA passou a envolver não apenas empresas de tecnologia e governos, mas também diplomacia, segurança internacional e direitos humanos.
RDC busca transformar riqueza mineral em desenvolvimento
O desafio colocado pela RDC é transformar sua importância como fornecedora de minerais em uma participação maior na economia tecnológica.
Isso significa ampliar investimentos em formação profissional, infraestrutura, pesquisa, processamento industrial e desenvolvimento de empresas locais.
A discussão também envolve a capacidade de atrair investimentos privados para construir uma cadeia produtiva mais próxima das regiões produtoras.
Na avaliação apresentada pelo governo congolês à ONU, empregos qualificados e conhecimento tecnológico precisam fazer parte dos benefícios gerados pela crescente demanda internacional por minerais estratégicos.
Paz continua sendo um desafio central
Apesar do potencial econômico, a instabilidade no leste do país continua sendo um dos principais obstáculos.
Em seu discurso, Judith Suminwa afirmou que, para milhões de congoleses, a paz ainda permanece apenas uma promessa.
A declaração sintetiza o contraste enfrentado pela RDC: ao mesmo tempo em que o país possui recursos fundamentais para algumas das tecnologias que estão moldando a economia mundial, parte de sua população continua convivendo com os efeitos de um conflito prolongado.
O governo busca, portanto, inserir a questão congolesa em um debate internacional mais amplo: como garantir que a corrida por tecnologias, minerais estratégicos e energia limpa produza desenvolvimento compartilhado, em vez de aprofundar desigualdades já existentes.
Um debate que ultrapassa as fronteiras da África
A discussão levantada pela RDC interessa diretamente ao futuro da economia mundial.
A expansão da inteligência artificial e da transição energética dependerá de cadeias internacionais capazes de fornecer minerais, energia, infraestrutura e conhecimento. Nesse cenário, a forma como os países produtores participarão dessas cadeias deverá continuar sendo tema de negociações internacionais.
Para a RDC, o objetivo é avançar de uma posição baseada predominantemente na exportação de matérias-primas para uma participação maior nas etapas de processamento, pesquisa, fabricação e inovação.
Enquanto isso, a continuidade dos conflitos no leste do país mantém o desafio humanitário no centro da agenda internacional.
A mensagem levada por Judith Suminwa à ONU combina, assim, três questões que estão cada vez mais conectadas: paz, desenvolvimento econômico e soberania tecnológica.
O debate sobre o futuro da inteligência artificial e da transição energética não envolve apenas quem desenvolve as tecnologias. Envolve também quem fornece os recursos necessários para que elas existam — e, segundo a posição apresentada pela RDC, essas nações precisam ter participação maior nos empregos, no conhecimento e no valor econômico gerado por essa transformação.

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