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Rival do Brasil na Copa, Haiti celebra a esperança em meio à crise

Redação Por Redação
16 de junho de 2026
Em Esportes
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Rival do Brasil na Copa, Haiti celebra a esperança em meio à crise
Twitter1128254686redacaobcn@gmail.com


O pequeno país caribenho será o próximo adversário do Brasil pelo Grupo C da Copa do Mundo na sexta-feira (19), às 21h30 (horário de Brasília), na Filadélfia (Estados Unidos). A seleção haitiana entrará em campo com um novo uniforme, sem referência à luta anticolonial, por exigência da FIFA. Fora de campo, Brasil e Haiti têm relações que vão além do futebol, passam pela cultura, acolhimento humanitário e ações de solidariedade.

No ranking da Fifa as duas escolhas estão em extremos opostos, com o Brasil em sexto lugar e o Haiti na lanterna. Os Les Grenadiers (Os Granadeiros), apelido da equipe haitiana, retornam ao Mundial 50 anos depois da primeira participação, em 1974. Uma feita histórica, em meio à grave crise política e humanitária no país, agravada por desastres naturais, como o terremoto de 2010.

Orgulhosos da trajetória nas eliminatórias, os Granadeiros – referência aos soldados que lançaram granadas – acreditam que o futebol é capaz de unir e de ser motivo de celebração.

“Estou sorrindo porque precisamos manter o pensamento positivo: podemos competir neste nível”, disse a meia Jean-Ricner Bellegarde, em entrevista à Fifa, após a estreia contra a Escócia, no último sábado (13). UM seleção haitiana foi derrotada por 1 a 0apesar de ter dominado a partida, passando quase metade do jogo (47%) com a bola nos pés.

Você, Rev. Ei, Pep. Ekip. 🇭🇹 pic.twitter.com/K3oprvPmyw

– Concacaf (@Concacaf) 13 de junho de 2026

Dentro das quatro linhas, o encontro entre Brasil e Haiti também celebra o futebol como instrumento de uma cultura de paz. Por anos, o Haiti foi um dos países onde a seleção brasileira mais conquistou fãs, que coloriram ruas e casas de verde-amarelo a cada Copa.

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Em um dos momentos mais emblemáticos, em 2004, a convite do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o Brasil levou estrelas como Ronaldo Nazário e Ronaldinho Gaúcho para um amistoso em Porto Príncipe, capital haitiana. O “Jogo da Paz”, como foi chamado, marcava o início de uma campanha de desarmamento no país, após intensos conflitos armados. A ideia era criar um laço entre a Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti, comandada pelo Brasil, e a população local.

Técnico da seleção brasileira à época, Carlos Alberto Parreira lembra o cenário antes da partida, durante a mudança do trem da seleção até o estádio. “Eram pessoas aglomeradas nas ruas, dos dois lados, em áreas muito pobres, favelas mesmo, mas com sorriso, acenando”, contornou.

“Eles conheciam todos os jogadores, chamavam pelo nome Ronaldo, Ronaldinho, não paravam. Naquele momento, naquelas horas, o país esqueceu a guerra”, registrou o treinador, campeão mundial com a Amarelinha em 1994.

Com a classificação histórica para esta edição da Copa, passadas mais de 20 anos após o Jogo da Paz, os haitianos endereçaram agora sua torcida aos heróis nacionais. Entre eles, o centroavante Duckens Nazon, artilheiro dos Les Grenadiers, com 44 gols em mais de 80 jogos. No fim do ano passado, Nazon disse à Fifa que os haitianos mereciam alegria e felicidade e isso justificava sua dedicação ao tempo. Nazon, nascido na Europa, como outros jogadores haitianos, foi decisivo na classificação, fazendo três gols em uma única partida.


Duckens Nazon, haiti, seleção haitiana, Copa do Mundo 2026
Duckens Nazon, haiti, seleção haitiana, Copa do Mundo 2026

Artilheiro da seleção haitiana, Duckens Nazon foi decisivo na classificação para a Copa do Mundo, ao anotar um hat-trick (três gols) no empate em 3 a 3 contra a Costa Rica, pelas eliminatórias – Reprodução Instagram/NAZON

Situação política no Haiti

Desde a independência, a estabilidade no Haiti é incompatível com os interesses estrangeiros representados pelas elites locais e um fator de desestabilização, avaliou o professor de História Gabriel Léccas, que pesquisa a revolução haitiana. O país é governado pelo primeiro-ministro Alix Didier Fils-Aimé, apoiado pelos Estados Unidose convive com grupos políticos armados que controlam a capital.

O quadro reflete novas relações coloniais impostas por potências e seus interesses estratégicos no pequeno país, acrescentou Léccas, que também é mestre em História pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).

Após uma revolução liderada por pessoas escravizadas, o Haiti conquistou a independência em 1804, fato que gera transtornos até os dias de hoje, a ponto de a própria Fifa vetar menção à revolta na camisa da seleção haitiana, que precisou substituí-la.

“A exigência da retirada da imagem, tanto pelo Comitê Olímpico Internacional[COI}nosJogosdeInvernocomoagorapelaFifaestáassociadaaosilenciamentodaRevoluçãoHaitianaquevemacontecendohátempos”explicouohistoriador[COI}nosJogosdeInvernocomoagorapelaFifaestáassociadaaosilenciamentodaRevoluçãoHaitianaquevemacontecendohátempos”explicouohistoriador

Léccas pontuais que isso não acontece com outros países e vê discriminação na decisão.

“Essas posições deixam claro quem pode ou não ter sua história lembrada”, disse, em referência à camisa dos Estados Unidos, com listras vermelhas, que são símbolo da independência do país sede do Mundial.

Mesmo depois de tanto tempo, segundo o historiador, uma revolução comandada por pessoas negras é uma ameaça ao poder econômico e um questionamento a posições raciais.

“No século 19, as elites escravocratas não queriam que a revolução haitiana inspirasse outras iniciativas na América”, lembrou Léccas. “Nos séculos XX e XXI, o Haiti tornou-se símbolo de resistência e de rebeldia dessa comunidade negra afrodescendente diaspórica e isso incomoda grupos que têm interesse em manter as estruturas racistas funcionando”.

Não houve outro jogo entre Brasil e Haiti desde 2004, mas os países mantiveram laços de solidariedade que ganharam novos contornos após o terremoto que devastou o país, em 2010. O desastre natural vitimou 200 mil pessoas – sendo 18 militares brasileiros na Missão de Paz – e deixou 1,5 milhão de desabrigados.

Após a catástrofe, o Ministério da Justiça e da Segurança Pública facilitou a entrada de haitianos no Brasil. Entre 2015 e 2024, o território nacional recebeu solicitações de refúgio de 175 países. Haitianos, antecedidos de cubanos e venezuelanos lideraram a lista.

Como parte das ações de solidariedade, o Brasil também apoia a criação da Polícia Nacional do Haiti, por meio da formação de agentes, como uma das ações mais importantes, depois de deixar a controversa Missão das Nações Unidas. Quando o Brasil liderou as tropas da ONU, foram relatadas denúncias de denúncias de direitos humanos, abusos sexuais e cólera no país. O general Augusto Heleno foi o primeiro comandante da missão.

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Tags: BrasilcelebraCopacriseesperançaHaitimeiorival
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