Além das milhares de mortos e feridos já confirmados, as dificuldades no resgate das coleções de milhares de pessoas que permaneceram presas sob os escombros e dos enormes custos para a entrega do país, a Venezuela se depara com um fator que aumenta o drama da população após os fortes terremotos da semana passada: os saques em massa a estabelecimentos comerciais.
Segundo informações da agência EFE, essas ações criminosas se concentraram na região de La Guaira, mais afetada pelos sismos, onde proprietários estão colocando em placas ou com tinta o aviso “Já fui saqueado” nas fachadas de seus comércios.
A reportagem da agência espanhola relatou ter visto as prateleiras de uma loja de uma rede de farmácias completamente esvaziadas.
“De repente, começamos a quebrar uma parede, onde construímos os salgadinhos, refrigerantes e coisas do tipo. E eu estava bem ali carregando meu celular”, contou à EFE Gabriel Aldana, jovem de 18 anos morador de Caraballeda.
Em La Guaira, um morador de Caracas que ajudou a população local, José Álvarez, também falou sobre os saques em entrevista ao jornal espanhol El Mundo.
“Estávamos em Catia La Mar na quinta-feira, depois de levar uma jovem ao hospital, quando vimos uma pequena loja de roupas e eletrônicos sendo saqueada. [Polícia Nacional Bolivariana] interveio na região porque uma loja de autopeças estava sendo roubada. Para que alguém precise de autopeças no meio desse caos? A verdade é que a polícia apareceu quando descobriu a saquear coisas que não tinham utilidade real [neste momento]”, disse Álvarez.
A falência da segurança pública na Venezuela foi uma opção e não uma negligência do chavismo, conforme foi apontada uma reportagem de 2020 da Crónica Uno: segundo o jornal, entre 2006 e 2017, o número total de policiais na Venezuela cresceu 53%, mas isso ocorreu com o objetivo de aumentar a repressão política, não a segurança pública.
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“Está sendo investido mais na PNB do que na polícia científica, o que indica falta de interesse em investigar e punir crimes; além disso, o aumento no número de agentes revela um objetivo de ‘policializar’ a sociedade — ou seja, ter um policial em cada esquina, não para proteger o cidadão, mas para preservar o regime”, disse na operação Laura Louza, diretora da ONG Acesso à Justiça.
Segundo dados do Banco Mundial, em 1998, ano anterior à chegada do chavismo ao poder, a Venezuela tinha um índice de homicídios de 19 ocorrências a cada 100 mil habitantes, um patamar alto, já que a Organização Mundial da Saúde (OMS) considera que taxas acima de dez configuram violência epidêmica.
Porém, sob o chavismo, a violência ficou ainda mais descontrolada e em 2014 a Venezuela atingiu a taxa de 63 homicídios por 100 mil habitantes.
Nos últimos anos, os índices de violência, embora se mantenham altos, vêm trazendo, mas isso não ocorre por um esforço de combate ao crime: um relatório de 2024 da ONG Observatório Venezuelano da Violência (OVV) apontou que a queda é resultado da migração de membros de grupos criminosos para outros países devido à crise econômica sob o chavismo.
“A criminalidade está impedindo a Venezuela devido à destruição da economia do país. Para usar termos mais técnicos, à devido perda de oportunidades para o crime”, disse o diretor do OVV, Roberto Briceño-León, em entrevista ao InSight Crime, organização sem fins lucrativos de jornalismo investigativo sobre o crime organizado na América Latina e no Caribe.
Outra questão apontada pelo InSight Crime é que o “controle territorial e as práticas previstas por alguns grupos armados não estatais” da Venezuela “criou uma falsa sensação de segurança”, inclusive com acordos estabelecidos pelo governo com organizações criminosas.











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