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Por que o Nordeste recebe mais shows públicos do que o restante do país?

Por Redação
20 de julho de 2026
Em Celebridade, Celebridades, Cinema, Entretenimento, Eventos, Famosos, Música, TV e Cinema
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Por que o Nordeste recebe mais shows públicos do que o restante do país?
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Natanzinho Lima se apresenta durante o Festival de Inverno Bahia 2025. Laécio Lacerda O Nordeste ostenta hoje o título de principal casa dos shows públicos no Brasil. É o que aponta um levantamento do observatório “De Olho nos Ruralistas”, que analisou mais de 20 mil contratos firmados por prefeituras e governos estaduais entre janeiro de 2024 e março de 2026. Das 7.412 apresentações fornecidas no período, 5.818 entregas no Nordeste. Para viabilizá-las, foram desembolsados ​​R$ 2,22 bilhões dos cofres públicos em contratos com artistas. Mas por que uma única região do país concentra mais recursos públicos para shows do que todas as outras juntas? Para responder a essa pergunta, o g1 reuniu pesquisadores responsáveis ​​pelo estudo, especialistas em gestão pública e profissionais do mercado de espetáculos. Segundo eles, as características são resultado de uma combinação de fatores, como: 💼 concentração do mercado nas mãos de grandes produtoras nordestinas; 👥 articulações de políticos locais considerando o retorno de visibilidade; 🚌 geografia preferencial, que reduz custos e facilita rotas de entrega. Antes de detalhar essas explicações, confira outros recortes do levantamento: 💰 Quais estados gastaram mais? Pablo canta ‘Tomara’ no Festival de Inverno Bahia Reprodução/TV Sudoeste Bahia e Pernambuco lideram os gastos com shows públicos no país. Desembolsaram R$ 578,47 milhões e R$ 573,10 milhões em contratos, respectivamente. No outro extremo do ranking, o Piauí foi o estado que menos gastou na região: R$ 79 milhões. Os valores consideram tanto os cachês pagos diretamente pelos governos estaduais quanto aqueles firmados pelas prefeituras. Confira o ranking completo abaixo: Quais estados do Nordeste contrataram mais? A região concentrou 72% do total de caches pagos e 78% das apresentações realizadas desde 2024 até março de 2026. Arte g1 🪗 Quais gêneros faturaram mais? Zé Vaqueiro, São João de Petrolina 2026 Ascom/PMP Apesar do avanço do sertanejo nas populares nordestinas dos últimos anos (como mostrado a reportagem “Cantores de forró cobram por espaço e cachês maiores no São João do Nordeste”), os ritmos tradicionais da região ainda dominam o mercado de shows públicos. Entre os 40 artistas mais contratados do país, os do piseiro movimentaram R$ 913,04 milhões em contratos públicos, dos quais 88% foram pagos por estados nordestinos. 🎤 Quais artistas receberam mais? Natanzinho Lima entrega show para espantar o frio na primeira noite do Festival de Inverno Baiano Fabrício Santiago No topo da lista aparece o cantor sergipano de 23 anos, Natanzinho Lima. Considerando os contratos firmados em todo o país entre janeiro de 2024 e março de 2026, ele recebeu R$ 158,17 milhões para a realização de 336 shows. Como o período aplicado corresponde a 27 meses, a média equivale a 12,4 shows públicos por mês — três apresentações financiadas com aproximadamente dinheiro público por semana. Logo atrás aparecem Henry Freitas, com R$ 125,9 milhões, e Wesley Safadão, com R$ 113 milhões em contratos públicos. Veja ranking completo abaixo: O top 10 dos artistas que mais receberam dinheiro público com shows desde 2024. Arte g1 💸 Quanto R$ 3 bilhões representam para a cultura brasileira? Henry Freitas Divulgação O levantamento completo, disponível no site do observatório, reúne uma série de recortes sobre o mercado de espetáculos públicos no Brasil. Um deles traz o ranking dos 40 artistas que mais receberam recursos públicos para apresentações desde 2024. Juntos, esses nomes acumularam R$ 3,08 bilhões em contratos no período. O valor se aproxima do registro anual de captação pela Lei Rouanet, que alcançou R$ 3,41 bilhões em 2025. Mas há uma diferença importante: os recursos da Lei Rouanet são destinados a milhares de projetos culturais, como teatro, dança, literatura, museus, patrimônio histórico, artes visuais e audiovisual, por meio de incentivo fiscal. Já os valores identificados no levantamento aplicado a pagamentos diretos de cofres públicos para contratar shows de apenas 40 artistas. Os números mostram, até aqui, o tamanho da indústria dos shows públicos no Brasil. Agora, entenda o que explica a concentração desses recursos em uma única região do país: 1) A força das produtoras nordestinas 👨‍💼 Wesley Safadão (Camarote Shows), Xand Avião (Vybbe) e Pablo (M&P) são sócios fundadores de grandes produtoras de shows. Redes sociais Um dos principais fatores que ajudam a explicar a concentração dos shows públicos no Nordeste está na estrutura do próprio mercado musical. Cinco produtoras sediadas na região administradas como carreiras de 21 dos 40 artistas que mais receberam recursos públicos desde 2024 no Brasil. Juntas, elas somam R$ 2,4 bilhões em contratos. Confira abaixo quem são esses produtos e o tamanho da presença deles no mercado de shows públicos: As 5 produtos que passaram a concentrar parte dos artistas mais contratados por prefeituras e governos. arte g1 Além de administrar uma carreira de artistas já consolidados, esses produtos também impulsionaram novos nomes e aceleraram a valorização de seus caches. “Eles conseguem fechar muitos contratos por causa do poder institucional e político junto às prefeituras e aos governos estaduais. É preciso dizer: a agenda dos shows públicos no Brasil, hoje, quem faz são as produtoras”, afirma Alceu Castilho, jornalista que coordenou o levantamento do observatório De Olho nos Ruralistas. 2) A vontade política de investir 🗳️ Raquel Lyra (PSD) ao lado do cantor Natanzinho Lima durante apresentação do festival Pernambuco Meu País, em edição no Recife, em dezembro de 2025. Recebeu R$ 800 mil pela apresentação. Redes sociais A força das produtoras, porém, depende de um elemento central: a decisão dos gestores públicos de destinar recursos para a contratação desses shows. Entre os governadores de todo o país, Raquel Lyra (PSD), de Pernambuco, aparece como a gestora que mais contrata artistas do ranking. Desde 2024, sua administração destinou R$ 57 milhões em caches para 25 dos 40 nomes mais contratados. Para Wallace Corbo, doutor em Direito Público e professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), uma das razões que ajudam a explicar a decisão de destinar grandes quantidades dos recursos públicos para mostrar que não há retorno político mais imediato que eles podem oferecer aos investidores. “É um contraste com outras áreas, como saúde, saneamento e educação, em que o retorno demora anos para aparecer. São investimentos necessários e importantes, mas que não trazem aquela satisfação imediata do eleitorado que os shows podem trazer”, afirmou. Diante do volume de recursos destinados a esses contratos, o g1 questionou o Governo de Pernambuco para saber como a gestão avalia os benefícios desses investimentos para a população e de que forma equilibra os gastos com outras áreas prioritárias. Até a publicação desta reportagem, não houve resposta. 3) A geografia que favorece os circuitos 🛣️ João Gomes viajando de ônibus com a banda Divulgação/Daniel Mendes Além da concentração do mercado nas mãos de poucas produtoras e dos governos de governos locais de destino de grandes volumes de recursos públicos para shows, há um terceiro fator que ajuda a sustentar esse modelo: a geografia. Segundo Elver Panda, produtor e empresário que já trabalhou com nomes como Marília Mendonça e Henrique e Juliano, a proximidade entre os municípios do Nordeste reduz custos e permite que artistas encaixem diversas apresentações em uma mesma rota. “A logística é um dos principais vilões do roteiro de um artista. Se você vai para uma região para cumprir um único show, você deixa todo o lucro na estrada, na logística. No Nordeste, você consegue fazer muita ‘dobra terrestre’, porque muitos municípios estão a apenas 80 ou 100 milhas de distância uns dos outros”, afirmou. Segundo ele, essa dinâmica é diferente em regiões como o Norte do país, onde as maiores distâncias entre os municípios, somadas à menor oferta de malha aérea e aeroportos, tornam esse tipo de operação mais cara e complexa. Em relação às diferenças para a região Centro-Sul, o produtor explica que o mercado de shows segue uma lógica distinta. Enquanto o Nordeste consolida um circuito de festas públicas municipais, no Sul, Sudeste e Centro-Oeste predominam os grandes eventos privados. “As prefeituras do Centro-Sul fazem festas, sim, mas em menor número e com uma estrutura menor. Os grandes eventos, como os rodeios, são privados. Já no Nordeste, tanto as festas do interior, como o São João, quanto as do litoral, como Carnaval e Réveillon, contam com grandes investimentos públicos e chegam a ter um padrão quase internacional”, concluiu. Filho do Piseiro comemora sucesso após viralizar com ‘boca de médio grave’: ‘Tenho até ônibus agora’ Natanzinho Lima admite uso de estimulantes antes de shows e relata episódio de arritmia: ‘Achei que ia morrer’ Fantástico percorre 5 mil milhas e acompanha a rotina dos cantores na volta das festas juninas ⚠️ O lado da conta Um dia após fortes outras chuvas, bairros de Goiana, em Pernambuco, seguem submersos. Em alguns pontos, só é possível ver o telhado das casas Reprodução/TV Globo Essa mesma estrutura que transformou o Nordeste no principal circuito de shows públicos do país também levanta uma discussão sobre o espaço que esses investimentos ocupam dentro de orçamentos municipais limitados. Um dos exemplos que mais chama a atenção dos pesquisadores no levantamento é o de Goiana, na Zona da Mata Norte de Pernambuco. Com cerca de 85 mil habitantes, o município aparece como o quarto maior contratante de shows públicos do país, atrás apenas das capitais Aracaju, Salvador e Maceió. Destinou R$ 25,58 milhões para a contratação de artistas, entre janeiro de 2024 e março de 2026. A grande questão é que, paralelamente a isso, a cidade enfrenta desafios severos em serviços básicos: segundo o Instituto Água e Saneamento (IAS), cerca de 45% da população vive sem água tratada e 60% não têm acesso à rede de esgoto. Além disso, há menos de um mês, fortes chuvas deixaram bairros inteiros submersos e cerca de 500 pessoas ficaram desalojadas, conforme noticiado pela TV Globo e pelo g1. Vídeo mostra alagamento na cidade de Goiana, na Mata Norte de Pernambuco, em meio às fortes chuvas na região Reprodução/redes sociais É nesse tipo de cenário que Wallace Corbo recorre à metáfora do “cobertor curto”, usada para explicar as escolhas feitas pelos gestores na hora de distribuir recursos. “Como se diz na gestão pública, quando você cobre o peito, deixa o pé descoberto. O orçamento é limitado, ou seja, se há um investimento muito grande em shows, esses recursos deixam de estar disponíveis para outras áreas”, afirmou. O g1 recorreu à Prefeitura de Goiana para saber quais critérios são orientados a definição das prioridades orçamentárias do município e como a gestão está equilibrando os investimentos em eventos com as outras demandas da população. Até a publicação desta reportagem, não houve resposta.

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Tags: maisNordestepaísporpúblicosreceberestanteshows
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