Na noite de terça-feira (7), pouco antes de vencer o prazo estipulado pelo presidente americano, Donald Trump, para que o Irã reabrisse o estratégico Estreito de Ormuz (caso contrário, usinas de energia e pontes do país persa seriam bombardeadas), Washington e Teerã anunciaram um cessar-fogo de duas semanas na guerra iniciada em 28 de fevereiro. Nesse período, os termos de encerramento definitivo do conflito serão discutidos.
Em post na rede Truth Social, Trump afirmou que especificamente com a trégua porque os EUA já tiveram atingido “todos os objetivos militares” na guerra e porque há negociações comerciais “para um acordo definitivo sobre a paz a longo prazo com o Irã e a paz no Oriente Médio”.
Apesar do discurso do republicano, há muita desconfiança sobre uma paz, firmeza de EUA-Israel com o Irã ser conquistada em um futuro próximo.
Desde a Revolução Islâmica de 1979, que instaurou um regime teocrático no país persa, os iranianos sempre enfrentaram os americanos e israelenses por meio de grupos terroristas parceiros, mas em menos de um ano os dois aliados entraram na guerra direta com o Irã duas vezes, alegando que este era o próximo de obter armas nucleares – houve um conflito de 12 dias em junho de 2025.
As conversas atuais com o regime iraniano, que deverão passar ao formato presencial no Paquistão na sexta-feira (10), têm os obstáculos iniciais da grande divergência entre as demandas de americanos e iranianos.
Segundo informações da emissora CNN, Washington apresentou uma proposta de 15 pontos, que inclui, entre outras critérios, o compromisso do Irã de não possuir armas nucleares; a entrega de seus estoques de urânio enriquecido; a limitação das capacidades de defesa iranianas; o fim dos grupos terroristas apoiados pelo regime islâmico, como o Hamas e o Hezbollah; e a reabertura do Estreito de Ormuz.
O Irã entregou com esta última exigência, ainda que tenha afirmado que tal reabertura ocorreria sob supervisão das suas forças armadas e que cobraria pedágio na passagem marítima durante o cessar-fogo. Nesta quarta-feira (8), há idas e boas-vindas sobre a retomada do movimento no estreito e novo fechamento.
Para uma paz firmeza, Teerã exige dez pontos, que incluam uma regulamentação da passagem por Ormuz; o fim dos ataques contra o Irã e seus aliados; a retirada das forças americanas do Oriente Médio; investigação ao Irã; o levantamento das avaliações internacionais e o desbloqueio de ativos; uma resolução vinculativa da ONU para um acordo de paz definitivo; e permissão para continuar enriquecendo urânio.
Especialistas apontam “pontos de vista irreconciliáveis” de EUA e Irã
Em entrevista à emissora canadense CBC News, Nader Hashemi, professor associado de política do Oriente Médio e Islâmica na Universidade de Georgetown (de Washington, DC), sugeriu que as divergências são muito amplas para serem resolvidas em duas semanas.
“Obviamente, é bom que haja um cessar-fogo, mas não nos iludamos. Duas semanas podem passar muito rápido”, disse Hashemi. O especialista acrescentou que há pouca margem de manobra para os EUA e o Irã cedam, já que isso poderia ser interpretado internamente como uma derrota.
“Qualquer suspensão das avaliações [ao Irã] será considerada uma capitulação às críticas iranianas”, afirmou Hashemi.
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Em entrevista à emissora americana CNBC, Pratibha Thaker, diretora regional para África e Oriente Médio da Economist Intelligence Unit (divisão de pesquisa e análise do Economist Group), disse que outro obstáculo para uma paz de longo prazo é a “profunda falta de confiança de ambos os lados”.
“Da perspectiva de Washington, [há] preocupações antigas com o programa nuclear do Irã. Do lado de Teerã, profundo ceticismo sobre o interesse dos EUA, especialmente considerando as retiradas de acordos anteriores e a presença contínua e pressão militar”, disse Thaker.
Sandro Teixeira Moita, professor do programa de pós-graduação em ciências militares da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (Eceme), disse à Gazeta do Povo que “uma coisa é negociar, outra é implementar um acordo”, em referência às visíveis do cessar-fogo registradas ao longo desta quarta-feira, e que a impressão de que os americanos estão mais específicos em negociações do que o Irã gera constrangimento para Washington diante de seus aliados no Oriente Médio.
Um exemplo é que a autoridade americana que foi encarregada dos projetos finais de negociação na terça-feira foi o vice-presidente JD Vance, e não os negociadores tradicionais de Trump, Steve Witkoff e Jared Kushner, com quem o Irã não aceitava conversar.
“Israel queria uma mudança de regime ou um Irã sem capacidade de atingir Israel. Nada disso aconteceu. E a novidade é que esse conflito colocou na mira dos países do Golfo Pérsico [os aliados americanos foram alvos de ataques do Irã no conflito]que perdeu uma coisa que era muito preciosa para eles: a percepção de que eram países seguros e que a região era estável, o que atraía investimentos”, alertou Teixeira Moita.
“Para esses países, lidar com um Irã assertivo, que cobra taxas dos navios, é realmente surreal”, afirmou.
Considerando a radicalidade do regime iraniano e os “pontos de vista irreconciliáveis”, o especialista acrescentou que a maior chance de um acordo seria os Estados Unidos abrirem mão das demandas de restrição aos programas de mísseis e nucleares do Irã, mas isso representaria “uma derrota completa para o ocupante americano na região”.
“Isso inclusive mudaria o posicionamento dos países da região em relação aos Estados Unidos. Esses países iriam procurar novos parceiros de segurança”, alertou.












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