[ad_1]

Após uma crise econômica que atingiu o país no início dos anos de 1990, a Suécia promoveu uma ampla reformulação do Estado, reduzindo o peso dos gastos públicos, que caiu de cerca de 72% para aproximadamente 50% do Produto Interno Bruto (PIB) ao longo de três décadas, reformando a previdência social com a criação de contas individuais e mecanismos automáticos de ajuste fiscal, abrindo para a concorrência privada setores antes dominados pelo Estado, como a educação básica, e implantando um rígido arcabouço fiscal com teto de gastos e metas de superávit.
Este conjunto de medidas ajudou a recolocar a economia sueca, antes totalmente adepta ao Estado de bem-estar social, em trajetória de crescimento semelhante a países como os Estados Unidos, além de levar a dívida pública para cerca de 35% do PIB, um dos níveis mais baixos da Europa atualmente.
O “lar do povo” que fracassou
Nos anos 1930, a Suécia, sob liderança do Partido Social-Democrata, de centro-esquerda, começou a construir um modelo político conhecido como folkhemmet ou “lar do povo”, a ideia de que o Estado deveria funcionar como uma “grande casa coletiva”, protegendo os cidadãos “do berço ao túmulo”. Tal sistema de bem estar social foi ampliado principalmente entre os anos 1970 e meados dos anos 1980. Na prática, ele garantia saúde universal, educação gratuita do ensino básico à universidade, seguro-desemprego generoso, aposentadorias amplas, licença parental remunerada, creches subsidiadas e programas de habitação.
A ideia central do modelo era oferecer benefícios e serviços públicos a praticamente toda a população, independentemente da renda. Isso fez o Estado sueco aumentar de forma acelerada, até se tornar um dos maiores funcionários do país e exigir uma das cargas tributárias mais altas do mundo desenvolvido. O Partido Social-Democrata, que governou o país ininterruptamente entre 1932 e 1976, aumentou as alíquotas de impostos sobre o trabalho, o capital e as empresas para financiar a expansão dos serviços públicos. Em alguns casos, a tributação sobre trabalhadores de alta renda aumentou 90% no início dos anos 1980.
Este modelo, no entanto, começou a dar sinais de esgotamento ainda na década de 1970. Naquele período, as exportações suecas, base da economia, perderam competitividade num momento em que a economia global já estava sendo abalada pela crise do petróleo de 1973. Com um modelo estatizante e custoso, a Suécia começou a ver o crescimento desacelerar, a inflação disparar e os déficits orçamentários se tornarem. O cenário abalou pela primeira vez em mais de quatro décadas a hegemonia política dos sociais-democratas: na eleição de 1976, o partido perdeu o poder pela primeira vez para a centro-direita desde 1932.
Uma virada
Mesmo com uma mudança de governo, uma crise se agravou ao longo dos anos de 1980 e explodiu no início dos anos de 1990. O PIB sueco caiu por três anos consecutivos, os bancos quebraram em série, o desemprego saltou de 2% para 11% entre 1990 e 1993, e a taxa básica de juros do banco central chegou a 500% ao ano. O gasto público também atingiu o pico histórico de mais de 70% do PIB, segundo dados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).
Sob pressão, tanto a centro-direita quanto o centro-esquerda concordaram que o modelo de total bem-estar social não poderia continuar, e, ao longo dos anos 1990 e 2000, os governos que se sucederam, tanto os de centro-direita quanto os de centro-esquerda, promoveram um amplo conjunto de reformas pró-mercado: cortes no seguro-desemprego e nos subsídios habitacionais, privatização de diversos serviços públicos, abrindo os setores da saúde e educação para o mercado privado, reduções de impostos, reforma do sistema previdenciário para torná-lo sustentável no longo prazo (substituindo a aposentadoria de valor fixo garantido pelo Estado por contas individuais vinculadas às contribuições de cada trabalhador) e limites rígidos sobre a dívida pública e gastos públicos, obrigando o governo a sempre ficar no azul.
O imposto sobre herança e patrimônio também foi eliminado e a alíquota máxima do imposto de renda, que chegou perto de 90% nos anos 1980, caiu para próximo de 50%, patamar ainda elevado no comparativo internacional, mas significativamente menor do que no auge do modelo mais estatizante.
Menos Estado, mais mercado
As reformas inovadoras transformaram a Suécia atual em um país diferente do que foi no passado. O gasto público total caiu de mais de 70% do PIB no pico da crise, nos anos 1990, para cerca de 50% atualmente, segundo dados da OCDE. Dentro desse total, o gasto social, que inclui especificamente saúde, educação e benefícios sociais, caiu para menos de 24% do PIB, bem abaixo dos mais de 30% de outros países europeus como França e Itália, segundo a mesma organização.
Atualmente, quase metade das unidades de atenção primária de saúde do país (47%) já é administrada por operadores privados, segundo dados de 2024 de Vårdföretagarnaassociação que reúne empresas privadas do setor de saúde e assistência social na Suécia, com base em estatísticas do instituto oficial Estatísticas Suécia (SCB). O modelo ampliou o acesso dos cidadãos ao atendimento básico, apesar de ainda não alcançar de forma total as áreas rurais.
A abertura do setor de educação para o mercado privado também ampliou a competição, fazendo com que os melhores serviços fossem disponibilizados às famílias. Segundo estudo publicado em 2012 pelo Instituto de Economia do Trabalho (IZA), instituto alemão de pesquisa econômica especializado em mercado de trabalho e políticas públicas, a oposição gerada pelo modelo também melhorou moderadamente o desempenho das escolas públicas.
Em entrevista ao Jornal de Wall Street, a ministra das Finanças da Suécia, Elisabeth Svantesson, do governo de centro-direita do premiê Ulf Kristersson, disse que a política imposta após uma crise ajudou a transformar a Suécia em uma “terra de oportunidades”.
“Quero que as pessoas e o capital permaneçam aqui e cresçam”, disse ela.
A política atual está viabilizando resultados econômicos expressivos. Segundo as tendências mais recentes da OCDE, o crescimento real do PIB da Suécia deve aumentar de 1,6% em 2025 para 2,6% neste ano e 2,3% em 2027, impulsionado por estímulo fiscal, política monetária estável e demanda doméstica robusta. O ritmo de crescimento é superior ao projetado para Alemanha e França no mesmo período. Atualmente, a dívida pública sueca também é controlada em torno de 35% do PIB, conforme dados da Comissão Europeia, bem abaixo da dívida de outros países europeus como Itália e França, que está acima de 100%.
Ao WSJo economista Stefan Fölster, ex-funcionário do Ministério das Finanças sueco, disse que a renda real das famílias do país dobrou desde os anos 1990, após estagnação durante os anos 1970 e 1980 sob alta tributação.
Ó Instituto Fraser, grupo de reflexão canadense de estudos econômicos, afirma em estudo publicado em 2023 que as reformas dos anos 1990 e início dos anos 2000 trouxeram a Suécia mais orientada ao mercado livre do que os Estados Unidos em vários critérios competitivos em seu “ranking de mercado livre”, exceto no tamanho do governo. Segundo o instituto, uma mudança feita ao longo dos anos ajudou a Suécia a “recuperar o dinamismo, criar novas empresas e elevar os salários reais”.
Apesar do crescimento, os políticos fizeram ajustes para gastar mais
Em out. de zero, ou seja, o governo passaria a poder gastar tudo o que arrecada, sem a obrigação de guardar reservas. A mudança foi aprovada formalmente pelo Parlamento em novembro do ano passado e passa a valer a partir de 2027.
A iniciativa partiu do atual governo de centro-direita do primeiro-ministro Ulf Kristersson e foi aprovada com apoio de seis dos oito partidos que compõem o parlamento sueco, representando cerca de 90% dos parlamentares. Como justificativa para as alterações, o governo de Kristersson argumentou que os desafios da Suécia atuais são profundamente diferentes daqueles da crise de três décadas atrás.
Segundo ele, existe nesse momento a necessidade do fim da política de austeridade para destravar investimentos em quatro áreas consideradas críticas: a modernização da infraestrutura de transportes e energia, o financiamento da “transição verde” – investimento em iniciativas de energia renovável, o reforço da segurança pública para conter a violência de gangues e, principalmente, o cumprimento da meta de gastos militares de 5% do PIB pela Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan).
A aprovação aconteceu cerca de um ano antes das eleições gerais marcadas para acontecer no dia 13 de setembro deste ano. As pesquisas de intenção de voto feitas pelos institutos Novus e Ipsos, realizadas em abril, mostram a oposição de centro-esquerda na liderança para retornar ao controle do país: o bloco formado pelo Partido Social-Democrata, o Partido de Esquerda e os Verdes concentra atualmente entre 52% e 54% das intenções de voto, contra 44% a 46% para o atual bloco governista, composto pelos Moderados, Democratas-Cristãos e Liberais – que formam o atual governo minoritário de Kristersson, que possui ainda o apoio parlamentar formal dos Democratas Suecos, partido da direita nacionalista.
O Partido Social-Democrata liderou as pesquisas como o maior partido do país, com cerca de 32% a 34% das intenções de voto e os Democratas Suecos, com cerca de 19% a 21% das intenções de voto, estão em segundo lugar, à frente da legenda Moderados, de Kristersson.
Se a tendência for confirmada nas urnas em setembro, o centro-esquerda poderá retornar ao poder pela primeira vez desde 2022. Na campanha atual, o Partido Social-Democrata tem defendido a proibição do lucro nas escolas privadas financiadas com recursos públicos. O argumento é que operadores com fins lucrativos têm incentivo a cortar custos em vez de investir na qualidade do ensino. O partido também defende agora maiores investimentos em serviços públicos e a reversão de parte dos cortes de impostos aprovados nos últimos anos.
[ad_2]














Deixe o Seu Comentário