
‘Michael’, cinebiografia do rei do pop, emociona com música, mas não explora o personagem Michael Jackson não é chamado de “Rei do Pop” à toa. Com ideias mirabolantes, uma voz inigualável e um grande talento para dança, ele se tornou um ícone que vai muito além da música. Mas Michael Jackson tinha suas sombras e defeitos. “Michael”, cinebiografia que chega aos cinemas nesta terça-feira (21) em que o protagonista é interpretado por seu sobrinho (Jaafar Jackson), de maneira certa pela qual retrata o lado musical do astro, com cenas emocionantes e bem construídas. Mas, de resto, fica muito aquém da complexidade do ser humano que foi o cantor. Assim que foi anunciado para o mundo, o filme dirigido por Antoine Fuqua (“Dia de Treinamento”) foi envolvido pela polêmica sobre os casos de abusos sexuais contra Michael. O tema vai ser abordado? Se sim, com que grau de profundidade? Inicialmente, a imprensa especializada destacou os casos, sim, tratados. Porém, por uma questão legal com os acusadores, as menções de possíveis crimes foram retiradas da obra, que ganhou um novo final. Como o filme se passa entre a infância e o final dos anos 1980 – portanto, antes das primeiras denúncias –, não é algo que pesa. Agora, situações como o “desaparecimento” de Janet Jackson e o pouquíssimo tempo de tela do produtor Quincy Jones (Kendrick Sampson) privam o espectador de conhecer melhor a história de Michael. O espólio do cantor atuoso na produção executiva do filme e Michael Jackson acabou sendo retratado com um artista que não tinha forças para quebrar contratos e encarar o próprio pai, Joseph Jackson, muito bem interpretado por Colman Domingo. Claramente, uma visão bem parcial de quem foi o Rei do Pop. Filme que dá vontade de dançar… A biografia segue uma linha cronológica, mostrando como o pai de Michael tirava a couro dos filhos para que fossem músicos de sucesso. “Na vida, ou você é um vencedor ou você é um perdedor”, repete constantemente na primeira parte do longa. A criação e o sucesso de “Jackson 5”, até sua compra pela gravadora Motown, em 1968, é contado de forma rápida, mas com bom desenvolvimento. Trecho do filme ‘Michael’ Reprodução/YouTube Michael criança (interpretado por Juliano Valdi) tem uma relação horrível com o progenitor – e não melhora com o passar da idade. Fã das histórias de “Peter Pan”, em um dos livros ele nomeia o vilão das histórias, o capitão Gancho, como Joseph. Num piscar de olhos, os Jackson passam de uma casa humilde para uma mansão. Essa confirmação é difícil de se explicar, ainda mais num filme que foca tanto na família. Essa correria, principalmente no período da infância do cantor, decepcionante. O distúrbio de imagem do cantor, por exemplo, ocupa uma breve passagem do filme, se agarrando num pequeno diálogo durante uma cirurgia no nariz. Entre os momentos mais emocionantes estão a criação de “Off The Wall”, contada sob a trilha de “Don’t Stop Til You Get Enough” e as referências para a criação de “Thriller”. A escolha de Jaafar Jackson para interpretar seu tio na fase adulta, com uma caracterização tão bem feita, é um dos maiores acertos do filme. Ele não tem grandes diálogos ou cenas de tirar o fôlego, mas, para uma estreia como ator na pele do Rei do Pop, foi tudo dentro do esperado. Trecho do filme ‘Michael’ Reprodução/YouTube Quando o assunto é exibido pelo artista para além dos palcos, o longa retrata uma estrela diminuta e amedrontada. Michael Jackson e suas camadas Michael foge de conflitos, leva uma vida extremamente infantilizada e deixa grandes decisões nas mãos de terceiros. Tudo bem, ele não era, foi além, um rebelde. Mas o astro tinha suas polêmicas e debates. Diferentemente do que o filme retrata, a saída da Motown não se deu como uma anedota importadora em sua carreira. Após conflitos criativos com o produtor Berry Gordy (Larenz Tate), o cantor saiu da gravadora para a CBS, após fazer sua “despedida” no evento de aniversário de 25 anos da Motown, cantando “Billie Jean”. Outro momento anedótico no filme, mas crucial na história de Michael, é a relação com Quincy Jones, um dos maiores produtores da história da música e peça-chave na construção de “Off The Wall” e “Thriller”, os principais trabalhos da primeira parte do filme. Filme “Michael” Reprodução/YouTube Quem assistir a “Michael” não saberá detalhes de como os dois se encontraram e muito menos terá a dimensão da relação entre uma das maiores duplas da história da música pop. Não ficando muito distante de outros cinébios do mundo da música, como “Bohemian Rhapsody”, que tem o mesmo produtor, Michael Graham King, o filme se apoia muito nas cenas musicais, momentos que emocionam e prendem o espectador. “Michael” é um filme que corre sem um motivo aparente e um dos maiores nomes da história da música, com tantas camadas, é retratado com alguém infantilizado e sem independência. Ao final, a obra sugere uma continuação. A melhor parte da carreira musical do Rei do Pop já foi explorada, mas ainda existem episódios marcantes que merecem registro, como o show no Super Bowl em 1993 e a passagem no Brasil para gravação do videoclipe “They Don’t Care About Us”. Porém, sem abordar escândalos de abuso, a criação de Neverland, mergulha no vício em opioides após o acidente grave no comercial da Pepsi e a relação com o vitiligo, o público não terá a chance de conhecer melhor um personagem complexo e cheio de camadas, como Michael Jackson foi. Arte/g1
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