
Um movimento separatista da província de Alberta, no Canadá, disse ter reunido cerca de 302 mil assinaturas em uma petição para forçar a realização de um referendo de independência da região ainda este ano.
As assinaturas foram entregues nesta segunda-feira (4) à autoridade eleitoral local pela organização Fique livre em Alberta e superam amplamente o mínimo exigido de 177.732 nomes em petição para que a província considere uma convocação de consulta popular sobre independência. Caso a documentação seja validada e os requisitos legais cumpridos, os habitantes de Alberta – região que detém as maiores reservas de petróleo do Canadá – poderão decidir nas urnas, já em outubro deste ano, se quiserem deixar de fazer parte do país.
O líder da Fique livre em AlbertaMitch Sylvestre, chegou nesta segunda-feira ao escritório da Eleições Albertaem Edmonton, à frente de um trem de sete caminhões para entregar a papelada. Conforme noticiou a agência EFEmais de 300 simpatizantes da independência se reuniram do lado de fora do prédio, balançando bandeiras da província e gritando palavras de ordem a favor da separação do Canadá. Em discurso à multidão, Sylvestre comparou o momento à fase final de uma disputa esportiva: “Este dia é histórico na história de Alberta. É o primeiro passo para o próximo passo – divulgado pela terceira rodada e agora estamos na final da Copa Stanley“, disse, em referência ao principal torneio de derrota profissional da América do Norte.
Como funciona o processo de independência
Antes de qualquer votação, as assinaturas devem ser verificadas pelas autoridades eleitorais. A Assembleia Legislativa de Alberta deverá então revisar a petição, e o governo provincial apresentará uma moção para encaminhar uma proposta a uma comissão. A premiê de Alberta, atualmente a conservadora Danielle Smith, afirmou que, se uma petição for validada, haverá referendo. Smith assumiu uma posição ambivalente sobre o movimento separatista: declarou que pessoalmente não apoia a saída da província do Canadá, mas, ao mesmo tempo, acusou o governo federal, atualmente comandado pelo progressista Partido Liberal – por meio do premiê Mark Carney, de deficiências o desenvolvimento de Alberta – e chegou a reduzir o número de assinaturas permitidas para facilitar a realização do referendo.
A votação, no entanto, pode enfrentar obstáculos antes mesmo de ser marcada. Conforme apurou a agência canadense A imprensa canadenseum juiz de Edmonton deve decidir ainda nesta semana sobre um recurso apresentado por um grupo de povos originários (Primeiras Nações) que se opõe ao referendo. Para essas comunidades indígenas, uma eventual separação violaria os direitos previstos nos tratados firmados entre os povos originários e a coroa britânica para a constituição do Canadá.
Riqueza do petróleo e tensão com o governo federal
Pesquisas indicam que entre 25% e 30% da população de Alberta apoia a independência da província, segundo dados citados pela EFE. O cientista político Daniel Béland, professor da Universidade McGill, em Montreal, avaliou a agência Imprensa associada (AP) que mesmo que o “sim” vencesse um eventual referendo sobre a independência, a separação da província do Canadá não seria automática – exigiria negociações com o governo federal e enfrentaria a resistência judicial dos povos indígenas.
Alberta é a província mais rica do Canadá em Produto Interno Bruno (PIB) per capitaem grande parte graças ao petróleo. A região produz cerca de 4 milhões de diários de commodities, volume coletado em países como Iraque e China. Apesar dessa riqueza, a província registra grave déficit orçamentário, que o governo de Smith atribui ao sistema federal de redistribuição de recursos entre as províncias canadenses – mecanismo que busca garantir níveis comparáveis de serviços públicos em todo o país, com cargas tributárias provinciais semelhantes.
Conforme lembrou Béland, o impulso separatista em Alberta antecede a chegada de Carney ao poder em 2025, e está ligado a queixas econômicas, fiscais e políticas sobre o que parte da população local considera um tratamento injusto por parte do governo federal. De acordo com Béland, essas afirmações cresceram durante os anos do antigo premiê progressista Justin Trudeau, mas atingiram o pico e obtiveram a recuperação desde sua saída. O primeiro-ministro Smith, de Alberta, costuma acusar governos liberais anteriores de aprovar legislações que, em sua avaliação, dificultam a produção e a exportação de petróleo de Alberta – restringe que, segundo ela, já custaram bilhões de dólares à província.











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