A notificação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) à ação do presidente Donald Trump para capturar o ditador Nicolás Maduro e derrubar o regime tirânico na Venezuela contrasta com o tom ambíguo adotado em relação ao presidente autocrata Vladimir Putin na invasão da Ucrânia.
A dualidade na política externa brasileira reflete a estratégia do governo Lula de fortalecer o bloco dos Brics (formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, Egito, Etiópia, Indonésia, Irã e Emirados Árabes Unidos), que recentemente incluiu a Venezuela e outros países não democráticos, ao mesmo tempo em que rechaça a influência norte-americana na América Latina, reforçada sob a administração Trump.
Nessa reportagem, a Gazeta do Povo lista as principais manifestações de Lula e do governo brasileiro em relação aos dois conflitos, destacando a diferença de tratamento nos dois casos.
Lula e a defesa da Venezuela contra a pressão dos EUA contra Maduro
Nas manifestações sobre a Venezuela, o governo brasileiro frequentemente abandona a neutralidade para classificar as ações dos EUA como medidas desumanas e visíveis flagrantes da soberania. Em maio de 2023, ao receber Nicolás Maduro no Brasil, Lula não poupou críticas ao governo americano, comparando o impacto das avaliações, então recém-impostas, a crimes de guerra.
“Eu sempre acho que o bloqueio é pior do que uma guerra, porque na guerra, normalmente, morre soldado que está em batalha, mas o bloqueio mata criança, mulheres, pessoas que não têm nada a ver com a disputa ideológica que está em jogo, disse o presidente brasileiro no Palácio do Planalto.
Na época, o então presidente do Chile, de esquerda, criticou Lula. “Não é uma construção de narrativa, é uma realidade, é séria… Eu vi a dor de centenas de milhares de venezuelanos que hoje vivem em nosso país e que desabilitam uma posição firme e clara”, afirmou Gabriel Boric, na Cúpula Sul-Americana.
Tamara Taraciuk Broner, diretora da Vigilância dos Direitos Humanoscriticou a falta de ênfase em direitos humanos nas declarações de Lula sobre a pressão americana. “Falar em ‘narrativas’ enquanto há relatórios documentados da ONU sobre crimes contra a humanidade na Venezuela é um insulto às vítimas e enfraquece a autoridade moral do Brasil”, afirmou um ativista.
Em outubro do ano passado, frente ao aumento da frota naval americana no Caribe no início do segundo mandato de Donald Trump, o Tom de Lula subiu. “Nenhum presidente deve dar palpite sobre a Venezuela… O que nós dizemos publicamente é que [a Venezuela] é um país de povo e dignidade. É preciso respeitar a autodeterminação dos povos”, afirmou Lula em entrevista à imprensa, em Brasília.
Ainda em outubro, Lula foi questionado sobre operações americanas contra o narcotráfico na costa venezuelana. “Você não pode simplesmente dizer que vai invadir o território de outro país. É preciso respeitar a Constituição, a autodeterminação dos povos e a soberania territorial”, disse Lula, em entrevista na Indonésia.
Neste sábado (3), após os bombardeios em Caracas e a captura de Maduro, Lula declarou que os EUA “ultrapassam uma linha inaceitável”. “Esses atos representam uma frente gravíssima à soberania da Venezuela”, afirmou, em nota.
VEJA TAMBÉM:
- Lula condena ataques de Trump à Venezuela: “ultrapassam linha inaceitável”
Ambiguidade de Lula em relação à agressão de Putin sobre a Ucrânia
Em contraste com a explicação ao defensor da Venezuela, as declarações de Lula sobre a Rússia são marcadas por uma divisão de responsabilidades entre agressor e agredido, excluindo a declaração direta e exclusiva a Vladimir Putin.
Em maio de 2023, em uma das declarações que mais gerou atritos com o Ocidente, Lula sugeriu que a Ucrânia também seria responsável pelo início do conflito. “Eu continuo achando que quando um não quer, dois não brigam. É preciso encontrar quem quer a paz, palavra que até agora foi muito pouco utilizada”, afirmou o presidente brasileiro, durante a cúpula do G7 no Japão.
Em abril daquele ano, ele criticou os EUA por enviar armas para ajudar a Ucrânia em reação à agressão da Rússia. Washington vê o apoio militar como essencial para a sobrevivência da Ucrânia; para Lula, seria um fomento ao conflito. “É preciso que os Estados Unidos parem de cultivar a guerra e comecem a falar em paz”, disse Lula, então em Portugal.
Na época, John Kirby, porta-voz do Conselho de Segurança Nacional dos EUA, criticou Lula por culpar a Ucrânia pela invasão. “O Brasil está papagueando a propaganda russa e chinesa sem observar os fatos… É profundamente problemático a forma como o Brasil abordou essa questão de forma pragmática, indicando que os EUA e a Europa não têm interesse na paz”, disse.
Em setembro do ano passado, após bombardeios russos aos centros civis de Kiev, as notas oficiais do Itamaraty mantiveram um tom impessoal, sem citar a Rússia como autor dos disparos. “O governo brasileiro manifesta sua profunda pesar pelas vítimas dos intensos ataques realizados contra a Ucrânia… Reafirma, igualmente, sua disposição em contribuir para que se possa alcançar uma solução diplomática para o conflito”, afirmou em nota o Itamaraty.
VEJA TAMBÉM:
- EUA capturaram ditador Maduro em ataque surpresa na Venezuela
- Petistas voltam a atacar o “imperialismo” dos EUA após comemorar acordo Lula-Trump

Deixe o Seu Comentário