O Irã anunciou que voltou a bloquear o estratégico Estreito de Ormuz neste sábado (18), e órgãos de imprensa internacionais afirmaram que pelo menos duas embarcações foram alvos de ataques na passagem, por onde cerca de 20% do petróleo e do gás natural liquefeito (GNL) do mundo transitavam antes do conflito dos Estados Unidos e de Israel contra os iranianos.
O regime iraniano tomou uma medida porque o presidente americano, Donald Trump, disse que o bloqueio naval às embarcações do Irã continuará até que seja fechado um acordo para encerrar a guerra.
O primeiro bloqueio promovido pelo regime na passagem ocorreu logo após o início do conflito, em 28 de fevereiro, o que fez os preços do petróleo e do gás dispararem globalmente.
No último dia 7, Washington e Teerã anunciaram um cessar-fogo de duas semanas, mas o Irã fechou o Estreito de Ormuz em seguida porque alegaram que a trégua foi desrespeitada com a continuidade dos ataques de Israel ao grupo terrorista Hezbollah (aliado de Teerã) no Líbano. Estados Unidos e Israel afirmaram na ocasião que o cessar-fogo com o Irã não incluiu o Líbano.
Na quinta-feira (16), entrou em vigor um cessar-fogo de dez dias no Líbano, após o que veio um anúncio do ministro das Relações Exteriores iraniano, Abbas Araghchi, nesta sexta-feira (17), de que Ormuz foi desbloqueado. Entretanto, o anúncio de Trump sobre a continuidade do bloqueio naval fez o regime voltar atrás novamente.
Em artigo para o site The Conversation, Ali Mamouri, pesquisador associado de estudos do Oriente Médio da Universidade Deakin (Austrália), afirmou que, após décadas de ameaças, o Irã resolveu usar o Estreito de Ormuz como forma de pressão sobre os adversários.
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O especialista destacou três motivos principais para isso: o potencial significativo de receita com o pedágio cobrado de navios que atravessam a passagem, num momento em que o país enfrenta grave crise económica; o uso do estreito como uma “garantia de segurança”, já que o Irã pode bloqueá-lo como forma de dissuadir ações militares contra o regime; e busca por influência geopolítica, “particularmente junto aos países do Sul Global”.
“O controle sobre o Estreito permite que o Irã negocie com os Estados Dependentes de Energia, incentivando-os a contornar as avaliações americanas contra o regime e aprofundar o engajamento econômico na troca de concessões de acesso ao Estreito”, escreveu Mamouri.
Em entrevista à Gazeta do Povoo economista e doutor em relações internacionais Igor Lucena afirmou que a situação é particularmente dramática para os vizinhos iranianos no Golfo Pérsico, já que grande parte das suas exportações de petróleo e gás passam por Ormuz.
“Os países do Golfo sabem que estão na mão do Irã, com a possibilidade de o Irã radicalizar as negociações e sempre utilizar o Estreito de Ormuz como ‘faca no pescoço’. Isso ficou muito claro no conflito atual, era algo que estava um pouco em aberto e agora de fato de se tornar uma realidade”, afirmou.
Como fato à chantagem iraniana, Lucena disse que a guerra reavivou debates para expandir gasodutos e oleodutos e “até sobre a possibilidade de fazer um canal para que os navios possam contornar o Estreito de Ormuz, entrando pelos Emirados Árabes”.
Também à Gazeta do PovoSandro Teixeira Moita, professor do programa de pós-graduação em ciências militares da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (Eceme), disse que o regime passou a exercer poder de barganha com Ormuz e, especialmente para os países do Golfo Pérsico, a nova realidade de “lidar com um Irã assertivo, que cobra taxas dos navios [para transitar pelo estreito]é realmente surreal”.
“Os iranianos estudaram o que eles poderiam fazer para não repetir o que tinham sofrido na Guerra dos 12 Dias [contra Israel, em junho de 2025]. E hoje a percepção que fica generalizada é que, apesar do dano material e da situação econômica iraniana ser extremamente frágil nesse momento, tanto que as principais demandas do Irã são todas em torno de obter recursos, conseguir reparações, conseguir alívio de sanções, para o Irã e no espaço informacional, passa o sentimento de que o Irã conseguiu vencer os Estados Unidos”, disse Teixeira Moita.
“O que é uma completa e total loucura, se a gente por afirmar isso. Mas a impressão que parece é essa. E o pior é que isso vai começar a ser compartilhado em redes sociais e essa impressão vai ficar, vai cristalizando”, afirmou o analista.












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