
Sob intensa pressão dos Estados Unidos, o regime chavista, agora comandado interinamente por Delcy Rodríguez, iniciou nos últimos dias a libertação de parte dos presos políticos detidos durante a gestão do ditador Nicolás Maduro, que capturou junto com sua esposa, Cilia Flores, pelas forças americanas no último dia 3, durante uma operação militar em Caracas.
O regime chavista afirma que já libertou mais de 400 pessoas, embora organizações de direitos humanos contestem os números oficiais e apontem falta de transparência no processo. Segundo a ONG Justicia, Encuentro y Perdón (JEP), apenas 257 libertações autorizadas foram confirmadas com base em verificações independentes. A ONG Foro Penal, que acompanha casos de detenções arbitrárias no país há mais de duas décadas, também rejeita os dados divulgados pelo regime chavista e afirma que o número de presos políticos na Venezuela ainda ultrapassa mil pessoas.
Aqueles que já saíram das prisões venezuelanas, relatando nos últimos dias a forma desumana como foram tratados. Eles descreveram a existência de um padrão recorrente de tortura física, violência psicológica, isolamento absoluto, uso imposto de medicamentos e ameaças constantes de morte por parte de agentes chavistas.
O colombiano David, um dos presos políticos libertações após a captura de Maduro e pressão dos EUA, contorno ao canal chileno Meganotícias que passou cerca de 13 meses preso no território venezuelano após ser detido por forças chavistas na fronteira entre a Colômbia e a Venezuela, onde trabalhou como mototaxista. David relatou que na época, foi detido sem explicações formais, acusado de associação criminosa e impedido de falar com advogados ou familiares. Levado inicialmente a um quartel, o homem afirmou ter sido algemado, encapuzado e espancado antes de ser transferido durante a madrugada para Caracas.
David disse ao canal chileno que passou por diferentes centros de detenção até ser levado ao Centro Penitenciário Rodeo I, onde permaneceu por 13 meses. O homem contou que foi vítima de sessões de choques elétricos, queimaduras com água quente misturada com cal e tortura contínua por privação de sono. Segundo ele, os guardas chavistas jogaram spray de pimenta na cela onde ele estava, bateram portas e apontaram lanternas no rosto dos presos para impedir qualquer descanso. Ele afirmou ainda que recebia comprimidos sem saber o que eram e que passou todo o período da prisão sem qualquer contato com a família, que não sabia se ele estava vivo ou morto.
Sobre a libertação, David contou que foi retirado da cela nos últimos dias sem explicação. Eles o obrigaram a vestir roupas civis e a manter um documento afirmando que não houve maus-tratos sofridos e que seus direitos humanos foram respeitados. David relatou ter sido algemado, encapuzado e colocado em um ônibus.
“Comecei a chorar, mas de alegria, porque sabia que minha irmã estava lutando por mim”, disse. A irmã de David, identificada como Nubia, afirmou na reportagem que ainda há ao menos nove colombianos presos injustamente nas prisões venezuelanas.
Cidadãos europeus que também foram libertadores nos últimos dias fizeram relatos semelhantes aos de David. O empresário italiano Mario Burlò, de 52 anos, que foi preso no final de 2024 sob acusação de “terrorismo e conspiração”, sem que nenhuma acusação formal fosse apresentada contra ele, relatou ao jornal El País que passou quase um ano incomunicável, período em que seus familiares na Itália acreditaram que estariam mortos.
Burlò descreveu as condições no presídio Rodeo I, o mesmo onde David ficou, como degradantes. O italiano disse que tinha que dormir no chão, entre baratos, em celas pequenas, sem luz adequada, podendo dar apenas alguns passos. Ele afirmou que os presos receberam comida pouquíssima, que foi entregue por uma pequena abertura na porta da cela, sem contato humano. O acesso ao pátio do centro penitenciário era limitado a uma hora por dia, cinco vezes por semana, e não havia autorização para visitas familiares.
“Até os cães têm necessidades diárias. Nós fomos tratados pior que os cães”, afirmou Burlò.
Embora tenha dito que não sofreu tortura física direta, Burlò classificou o isolamento prolongado e a ausência de contato com os filhos como tortura psicológica. Ele relatou ainda que, à noite, os guardas chavistas usavam balaclavas, adotavam apelidos e promoviam intimidação constante. Um deles, segundo Burlò, se identificou como “Hitler”. O italiano afirmou que temia ser morto a qualquer momento.
Outro cidadão italiano libertado, Alberto Trentini, voluntário de serviços humanitários que foi preso em novembro de 2024, limitou-se a divulgar um comunicado lido por sua advogada. Segundo o texto, os 423 dias de prisão na Venezuela deixaram marcas “indeléveis” e sua felicidade ao ser libertada “teve um preço muito alto”. Trentini afirmou que seus pensamentos permanecem com os presos que ainda estão detidos na Venezuela e com suas famílias.
Na Argentina, o jornal Clarín publicou nesta terça-feira (14) o relato da família do argentino-israelense Yaacob Eliahu Harary, de 72 anos, que foi libertado nesta semana após ficar 490 dias na prisão chavista. Segundo a família, Harary descreveu a experiência como “sair do inferno”. Ele relatou que foi vítima de maus-tratos, humilhações constantes e uso recorrente de medicamentos psiquiátricos sem indicação médica, usados como sedativos para os presos políticos.
Harary também ficou preso no presídio Rodeo I e contou com uma tentativa de suicídio presenciada, inclusive de seu amigo e companheiro de cela, que tentou cortar o próprio pescoço. Segundo o relato, o regime chavista nunca informou Harary sobre a morte de sua companheira, ocorrida durante o período em que esteve na prisão, e ele encontrou cerca de 15 meses incomunicável. Ao ser libertado, o argentino disse ter tido um encontro direto com Diosdado Cabello, o número 2 do chavismo, que teria acompanhado pessoalmente sua saída da prisão.
Apesar das libertações anunciadas nos últimos dias e da queda de Maduro, líderes opositores e organizações independentes alertam que o sistema de repressão chavista permanece intacto na Venezuela. Segundo a oposição e organizações de direitos humanos, a ausência de transparência, a continuidade das detenções arbitrárias no país e os relatos consistentes de tortura nas prisões indicam que as libertações feitas até este momento não representam uma mudança estrutural na Venezuela.
Do lado do regime, Diosdado Cabello afirmou nesta quarta em seu programa transmitido pela emissora estatal Venezolana de Televisão (VTV) que as libertações em curso no foram decisões “unilaterais” da ditadura e negou, novamente, a existência de presos políticos na Venezuela. Segundo Cabello, as libertações em curso no país tratam-se de uma revisão de casos que teriam sido ordenadas pelo ditador Maduro antes de sua captura.
“Não é uma concessão graciosa”, disse Cabello.
Já Delcy Rodríguez, a ditadora interina, declarou nesta semana aos jornalistas no Palácio de Miraflores que a Venezuela estava vivendo neste agora um “novo momento político” e que o processo de libertações busca “promover o entendimento político”.












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