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Da Idade do Bronze a 'Wicked': as origens do chapéu de bruxa

Redação Por Redação
30 de novembro de 2025
Em Celebridade, Celebridades, Cinema, Entretenimento, Eventos, Famosos, Música, TV e Cinema
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Da Idade do Bronze a 'Wicked': as origens do chapéu de bruxa
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As ilustrações de Arthur Rackham (1867-1939) no livro As Lendas de Ingoldsby (1907) retratam a feiticeira de manto preto e chapéu alto Alamy Qual é a primeira imagem que vem à sua mente quando você ouve falar em uma bruxa? Talvez seja uma vassoura, relacionada à heresia e à bruxaria desde 1342, quando a irlandesa Alice Kyteler (1280-1325) foi acusada de feitiçaria. Ao fazer uma busca em sua casa, um investigador encontrou o objeto subversivo, “que ela usava para passear e galopar em qualquer situação”. Ou pode ser o caldeirão, usado para preparar as poções em Macbeth, de William Shakespeare (1564-1616): “Dobrem, dobrem, trabalho e problemas; o fogo queima e o caldeirão borbulha” era o encantamento das bruxas, que se tornou um ícone. ‘Wicked: Parte 2’ aprofunda o musical com evolução que pode cansar, mas emociona Mas, talvez, a imagem mais persistente da feiticeira seja o chapéu cônico, presente no romance clássico infantil O Maravilhoso Mágico de Oz (1900), de Frank L. Baum (1856-1919), e em diversas oportunidades no cinema e na televisão. O chapéu cônico das feiticeiras pode ser visto, por exemplo, no filme O Mágico de Oz (1939), que trouxe a assustadora interpretação da atriz Margaret Hamilton (1902-1985) como a Bruxa Má do Oeste; nos desenhos dos créditos de abertura da série de TV A Feiticeira (1964-1972); nos filmes de Harry Potter (2001-2011); e, é claro, a representação de Elphaba por Cynthia Erivo em Wicked (2024-2025), cuja segunda parte estreou nos cinemas no mês de novembro. Mas alguns dos primeiros exemplos de chapéus cônicos da história são majestosas obras-primas douradas, decoradas com símbolos astronômicos da Idade do Bronze. Acreditava-se, na época, que os sacerdotes que os usavam tinham poder e conhecimento divino. Chapéus pontiagudos já foram encontrados em múmias chinesas dos séculos 4 a 2 aC Eles receberam o apelido moderno de “Bruxas de Subeshi”, quando túmulos foram desenterrados em 1978. Chapéus altos e pontiagudos, conhecidos como capirotes, foram usados ​​ao longo da história como instrumentos de perseguição Getty Images Mas como o chapéu pontiagudo se tornou sinônimo de feitiçaria? Existem diversas teorias a este respeito. O uso obrigatório de chapéus cônicos foi imposto ao longo da história como instrumento de perseguição e identificação restrita. As pessoas que manifestaram opiniões ou acreditaram nas religiões ortodoxas, especialmente à doutrina cristã, foram chamadas de heréticas e forçadas a usar o chapéu para identificá-las. No século 13, a Igreja Católica Romana obrigou os homens judeus a usar chapéus pontiagudos em forma de cone, conhecidos como chapéus judeus. Em 1478, teve início a Inquisição Espanhola, que obrigava o uso de chapéus ou capuzes altos e afilados, chamados de capirotes, como forma de identificação das pessoas acusadas de heresia, apostasia (renúncia da fé), blasfêmia e feitiçaria, entre outros crimes. O capirote é usado até hoje em festivais religiosos na Espanha, especialmente durante a Semana Santa. Teria sido este capítulo da história um fator que levou ao ressurgimento posterior do chapéu pontudo como símbolo de bruxaria? Existem diferentes opiniões sobre esta hipótese. O Voo das Bruxas, de Francisco Goya (1746-1828), retrata três figuras flutuantes usando chapéus cônicos altos, carregando um homem no ar Alamy Vários séculos após o início da Inquisição, o artista espanhol Francisco Goya (1746-1828) fez referência ao capirote no seu quadro O Voo das Bruxas (1798). Nele, três feiticeiras carregam um homem flutuando no ar. Historiadores da arte interpretaram de diversas formas a pintura e seus chapéus cônicos. Acredita-se que a obra seja uma crítica satírica da superstição e da ignorância. Criada durante o Iluminismo, uma pintura mostra as bruxas suspensas no ar com aparência grotesca, usa chapéus cônicos ao lado de um burro, que simboliza a ignorância. Seus chapéus relembram a mitra eclesiástica ou, talvez, os capirotes usados ​​pelos heréticos. Abaixo deles, dois homens reagem ao que percebem como sendo um evento demoníaco ou sobrenatural. Alguns críticos consideram que esses homens representam o medo e a desilusão. A cerveja das bruxas Na Idade Média, quem usava os chapéus pontiagudos eram as alewives — as mulheres cervejeiras daquela época. Seus conhecimentos de fitoterapia fortalecem a conexão ao uso de caldeirões para misturas de poções. “‘Mulheres inteligentes’, herbalistas e idosas vêm sendo observadas com suspeitas em muitas culturas há milênios. Por isso, as mulheres cervejeiras entraram neste grupo.” “Pessoas supersticiosas e sem formação consideravam essas pessoas como sendo ‘as outras'”, explica a especialista em álcool Jane Peyton às escritoras Tara Nurin e Teri Fahrendorf, no seu livro A Woman’s Place Is in the Brewhouse: A Forgotten History of Alewives, Brewsters, Witches, and CEOs (“O lugar da mulher é na cervejaria: a história esquecida das alewives, cervejeiras, bruxas e CEOs”, em tradução livre). A primeira ilustração conhecida de uma feiticeira usando um chapéu pontiagudo preto é de 1693 Getty Images A professora de História do início da Idade Moderna Laura Kounine, da Universidade de Sussex, no Reino Unido, acredita que a associação entre as alewives e a feitiçaria tem “um pouco de mito” e foi criada posteriormente. Ela contou à BBC que, no século 16, “todos tinham um caldeirão, que as pessoas usavam para cozinhar. Todos tinham uma vassoura e todos usavam chapéu – não necessariamente um chapéu pontiagudo, mas algum tipo de chapéu.” “Diversos bonés e chapéus foram usados ​​por todas as mulheres, dependendo de sua posição social e situação conjugal”, explica a professora. Kounine ensina a história da feitiçaria. Ela defende que, na verdade, o que diferenciava as supostas bruxas do restante da população no início da Idade Moderna era justamente o fato de que elas não usavam chapéu. “Se você observar as imagens daquela época, tão realmente impressionantes como Bruxa Andando para Trás em uma Cabra (1501-02), de Albrecht Dürer (1471-1528), ou As Bruxas (1510), de Hans Baldung Grien (c.1484-1545), as feiticeiras são ilustradas com a cabeça descoberta.” “Seu cabelo livre e rebelde está solto, o que simboliza suas paixões desenfreadas e demonstra que elas eram o inverso da ordem social moral”, explica a professora. “Você não usaria cabelo solto no início da Idade Moderna, pois significaria que você era uma pessoa sexualmente depravada.” O mundo invisível O exemplo mais antigo conhecido do chapéu cônico relacionado a uma bruxa está no livro As Maravilhas do Mundo Invisível (1693), de Cotton Mather (1663-1728). A obra ilustra uma feiticeira voando em uma vassoura ao lado do demônio. Mas Kounine ainda questiona se Mather realmente pretendia indicar que o chapéu pontiagudo identifica uma bruxa. “Isso ocorre porque muitas pessoas usavam chapéus pontiagudos na época”, ela conta. “Não existe nele nada significativo relacionado a bruxas.” Pinturas do século 17, como Retrato de Esther Inglis, de autor desconhecido, e Retrato da Sra. Salesbury com Seus Netos Edward e Elizabeth Bagot, de John Michael Wright (1617-1694), ilustram mulheres usando simplesmente o chapéu cônico alto da moda da sua época, sem nenhuma conexão com a feitiçaria. A relação entre o chapéu pontiagudo e as bruxas veio posteriormente. Ela surgiu nas obras de arte e nos contos infantis entre meados e o final do século 17 e os séculos 18 e 19. É muito possível que a imagem do chapéu cônico, que estava na moda no século 17, seja a que relacionamos ao longo dos séculos e que permanece até hoje, sem nenhuma conotação ocultista explícita daquela época. Kounine destaca que muitas mulheres adquiriram chapéus cônicos ao longo da história. Elas incluem as heroínas de contos de fadas, como Cinderela e a Bela Adormecida. Seus chapéus coloridos eram inspirados em chapéus altos com formato cônico usados ​​por mulheres nobres europeias, desde o século 15. Talvez seja esta a indicação de que o chapéu faz contato com o mal? Kounine concorda com esta possibilidade. Ela indica a peça de 1621 A Bruxa de Edmonton, de William Rowley (c.1585-1626), Thomas Dekker (c.1572-1632) e John Ford (1586-c.1639). Nela, uma feiticeira conversa com o demônio na forma de um cão preto chamado Tom. Ao longo da história, costumava-se dizer que o demônio se vestia de preto. “Grande parte do motivo foi o fato de que as obras de arte da época eram xilogravuras e, por isso, elas primeiramente eram pretas, mas também era costume dizer que as bruxas se reuniam na escuridão da noite”, explica Kounine. “Por isso, existe uma associação entre as artes sombrias, a noite e a clandestinidade. Você não sabe quem é a feiticeira, sob o manto da escuridão. O preto se torna o símbolo do mal e das trevas.” A recuperação da bruxa A percepção moderna da feiticeira como uma mulher idosa hedionda se deve, em grande parte, ao romance de Baum, O Maravilhoso Mágico de Oz. Seu livro infantil sobre as aventuras de Dorothy Gale e seu grupo de companheiros desajustados em Oz foi adaptado para o cinema e lançado em 1939. O filme O Mágico de Oz trouxe a Bruxa Má do Oeste de Hamilton, gargalhando com sua pele verde e nariz recurvado, que segue causando pesadelos em diversas gerações de crianças, a cada reprise na TV. Mas o feminismo incentivou as mulheres a reivindicarem características e estilos de vida antes associados às pessoas acusadas de feitiçaria ao longo da história. Elas incluem a forte solidariedade feminina, curas holísticas e a independência dos homens, até os valores ecofeministas e a autonomia sexual. Surgiu, então, uma compreensão mais sutil do arquétipo da bruxa. Agora, ela é considerada uma encarnação radical da batalha contra a misoginia e a opressão patriarcal. Um exemplo é a expressão popular que ilustra de tudo, de legendas no Instagram até almofadas: “Somos as filhas das bruxas que vocês não queimam queimadas.” Ou, nas palavras de Kounine, “a bruxa, agora, é um símbolo de autoempoderamento, subversão do patriarcado e feminismo”. O romance Wicked (1995), de Gregory Maguire, deu origem ao musical de sucesso da Broadway e, agora, aos dois filmes Wicked. Com ele, a Bruxa Má do Oeste ganhou um nome (Elphaba) e uma história de vida que gera empatia com uma personagem proscrita, tida como vilã por defensor dos menos afortunados. A recuperação da bruxa como uma personagem incompreendida e as representações da cultura pop — como Samantha, de A Feiticeira, e Prue, Piper, Phoebe e Paige Halliwell, da série Charmed: Jovens Bruxas (1998-2006) — fez com que o chapéu cônico deixasse de ser tão sinistro. E isso também deve, por parte, o estilista vencedor de Oscar de Wicked, Paul Tazewell. Ele reinterpretou aquele “hediondo”, como diz Glinda, para que refletisse melhor o relacionamento de Elphaba com a Terra. “Ele traz reflexão e nostalgia, com uma silhueta elegante, mas transformada em algo próprio pela forma como se curva”, declarou Tazewell ao portal The Cut. O estilista Paul Tazewell reinterpretou o “hediondo” chapéu de Elphaba para o novo filme Wicked: Parte 2 Universal Com sua nova visão sobre o tema da bruxa malvada, Wicked pode receber o crédito de suavizar o chapéu cônico assustador. Afinal, como defende Laura Kounine, não há nada de prejudicialmente horripilante nele. O chapéu de bruxa é apenas um objeto aberto a interpretações, que impregnamos ao longo de séculos de mitologia com um significado, que foi transmitido pela arte e pelas histórias. E o significado desses mitos se altera ao longo do tempo. Pagões contemporâneos compartilham o chapéu como um condutor de energia. Já as crianças ainda clamam por ele na época do Halloween. Na verdade, o chapéu de bruxa foi a roupa do Dia das Bruxas mais popular no Google em 2021, antes mesmo de surgir o fascínio por Wicked. As xilogravuras, os retratos e os contos de fadas influenciaram a cultura material moderna do chapéu cônico. E, da mesma forma, sua versão atual ajudará a inspirar a compreensão das gerações futuras.

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