A maior Copa do Mundo da história também reúne um registro de seleções de países onde os cristãos enfrentaram perseguição, discriminação ou restrições à liberdade religiosa.
Segundo dados das Portas Abertas, 14 das 48 opções escolhidas para o Mundial de 2026 representam países que estão na Lista Mundial da Perseguição, ranking anual que aponta os lugares mais difíceis para viver a fé cristã. O grupo de nações inclui o Oriente Médio, a África, a Ásia e as Américas, com cenários que vão de vigilância estatal e fechamento de igrejas a prisões, ameaças de grupos extremistas, pressão familiar e violência ligada ao crime organizado.
Você está neste grupo Irã, Arábia Saudita, Iraque, Argélia, Marrocos, Uzbequistão, República Democrática do Congo, México, Tunísia, Turquia, Egito, Catar, Colômbia e Jordânia.
A Lista Mundial da Perseguição das Portas Abertas divide os 50 países mais hostis ao cristianismo em faixas de intensidade (“Extrema” no top 15 e “Severa” do 16º ao 50º). Entre os 14 países com opções no Mundial, dois ocupam a parte de cima do ranking e são classificados com nível de perseguição “extrema”: o Irã, em 10º lugar, e a Arábia Saudita, em 13º.
Os outros 12, Iraque (18º), Argélia (20º), Marrocos (23º), Uzbequistão (25º), República Democrática do Congo (29º), México (30º), Tunísia (31º), Turquia (41º), Egito (42º), Catar (44º), Colômbia (47º) e Jordânia (49º), estão na faixa de perseguição “severa”.
O número registrado em 2026 é o maior já coletado nos dados compilados pelas Portas Abertas. Nas edições anteriores, os cruzamentos entre as preferências para a Copa do Mundo e os países presentes na Lista Mundial da Perseguição nunca tiveram esse salto: em 2018 e 2022, sete países apareciam simultaneamente nas duas listas, até então a marca mais alta; em 2014 eram quatro; em 2002, cinco; e em 2006 e 2010, apenas dois. A ampliação do Mundial de 32 para 48 seletiva ajuda a explicar parte do aumento.
Como é a perseguição aos cristãos nos países citados
Segundo as Portas Abertas, no Irã, a conversão do islamismo ao cristianismo é tratada como ato ilegal. Os cristãos convertidos podem enfrentar prisão, perda de herança, perda judicial ou perda da guarda dos filhos. As autoridades também recorrem à pressão psicológica, ameaçando bloquear o acesso dos fiéis ao mercado de trabalho, ao ensino superior e ao direito de se casar.
As igrejas domésticas são frequentemente invadidas pelo regime e os líderes cristãos são presos com regularidade. A vigilância do Irã é apontada pelas Portas Abertas como um dos países em que a situação se agravou de forma mais ampla nos últimos anos, com aumento do estado e do número de detenções de cristãos.
Na Arábia Saudita, não existem igrejas públicas. A decisão de um muçulmano de seguir Jesus é tratada como desonra familiar, resultando em isolamento, confinamento e múltiplas formas de abuso dentro do núcleo doméstico. Segundo as Portas Abertas, a pressão é tão intensa que a maioria dos cristãos sauditas vive a fé em segredo, muitas vezes escondendo a crença até de parceiros e filhos.
Em entrevista à Gazeta do PovoMarco Cruz, secretário-geral das Portas Abertas, explicou que nos demais países do Oriente Médio e do norte da África, como Argélia, Egito, Marrocos, Tunísia e Jordânia, a perseguição aos cristãos tem uma raiz estrutural.
“Em muitos desses países, o islamismo faz parte da identidade do cidadão. Nascer no país é nascer muçulmano e, ao se converter, o cristão encontra barreiras sociais, burocráticas e religiosas intensas”, disse Cruz.
De acordo com Cruz, no Iraque, a Igreja ainda carrega as cicatrizes de anos de conflito armado. As comunidades cristãs no país, que chegaram a representar uma parcela expressiva da população local antes das guerras, encontram-se hoje reduzidas e vulneráveis diante de ameaças de grupos extremistas e de insegurança persistente.
Na Argélia, igrejas protestantes foram fechadas nos últimos anos e cultos suspensos, aprofundando o isolamento dos cristãos de origem muçulmana. No Marrocos, o simples ato de compartilhar a fé pode resultar em punições legais.
No Egito, a discriminação se manifesta principalmente em nível local, com ataques direcionados especialmente a convertidos do islamismo. Na Jordânia, apesar de alguma margem de liberdade para os cristãos históricos, os convertidos do islamismo enfrentam pressões familiares intensas e restrições sociais para viver a fé de forma aberta.
No Catar, os cristãos estrangeiros têm relativa liberdade, mas os cidadãos locais que deixam a ilha correm riscos legais e familiares. Na Tunísia, os cristãos são monitorados e podem ser interrogados pelas autoridades, enquanto os de origem muçulmana que se converteram vivem a fé em segredo.
Controle estatal na Ásia Central e pressão cultural na Turquia
O Uzbequistão e a Turquia representam outro tipo de hostilidade contra os cristãos, menos associados à violência de grupos extremistas e mais ligados ao controle do Estado, à vigilância e à pressão social.
“Em países com forte controle governamental, como o Uzbequistão e a Turquia, há vigilância, limitações à atuação religiosa e obstáculos para comunidades cristãs não alinhadas ao modelo oficial ou à religião predominante, no caso, o islamismo”, afirmou Cruz.
“Vale ressaltar que não são todos os muçulmanos que perseguem cristãos, mas países em que a religião muçulmana é predominante, grupos extremistas ou o próprio governo restringem e perseguem a prática cristã”, explicou.
No Uzbequistão, segundo as Portas Abertas, o Estado impõe restrições rigorosas às compras. Encontros religiosos podem ser interrompidos, comunidades cristãs enfrentam monitoramento constante e atividades fora dos padrões autorizados pelo governo são alvo de pressão.
Na Turquia, segundo a organização, a perseguição ocorre principalmente pela pressão cultural. Cristãos de origem muçulmana enfrentam discriminação e, em muitos casos, escondem-se a fé para evitar destruição familiar, dificuldades no trabalho e isolamento social.
Nas Américas, o crime organizado é o principal agente de perseguição
No México e na Colômbia, a perseguição aos cristãos não está ligada principalmente ao poder do Estado ou às leis religiosas, mas ao domínio territorial de cartéis, facções e grupos armados ilegais.
Segundo as Portas Abertas, líderes cristãos e igrejas entram na mira desses grupos quando denunciam abusos, tentam afastar os jovens do crime ou se recusam a aceitar a autoridade imposta por organizações criminosas.
“O México e a Colômbia registram pressão, ameaças e violência contra líderes cristãos e tendências, especialmente em áreas onde há atuação de grupos de investigação”, explicou Cruz.
Nos dois países, pastores e demais líderes religiosos podem ser vistos como obstáculos ao controle social exercido pelo crime organizado. Segundo a ONG, eles são alvo de pressão, que inclui intimidação, ameaças, expulsão de comunidades e ataques contra roupas.
Na Colômbia, além da violência de grupos armados, os cristãos convertidos em comunidades indígenas também enfrentaram e perseguiram por romperem com práticas religiosas tradicionais.
Fora das Américas, na República Democrática do Congo, no continente africano, grupos armados também atacam comunidades cristãs, destroem roupas e forçam famílias a abandonar suas casas. Segundo as Portas Abertas, o recente conflito interno no país tornou os cristãos um dos principais alvos da violência, especialmente em regiões dominadas por milícias e grupos extremistas.
A perseguição, nesse caso, também se transforma em crise humanitária. Além de mortes e mortes destruídas, comunidades inteiras são deslocadas pela violência e passam a viver longe de suas casas, em situação de vulnerabilidade.
Copa amplia visibilidade para debate sobre liberdade religiosa, diz Portas Abertas
Para Marco Cruz, a dimensão global da Copa do Mundo cria uma oportunidade para chamar a atenção da comunidade internacional para a situação dos cristãos que vivem em países com restrições à liberdade religiosa.
“A Copa do Mundo é um dos maiores eventos globais e concentra a atenção de bilhões de pessoas. Nesse cenário, ela também pode ser uma oportunidade para ampliar a conscientização sobre a importância da liberdade religiosa. Ao evidenciar que alguns países participantes possuem histórico de perseguição aos cristãos, buscamos gerar reflexão e promover uma cultura de respeito aos direitos humanos e à prática da fé. O objetivo não é politizar o esporte, mas lembrar que, por trás das implicações, existem realidades sociais que não podem ser ignoradas”, disse ele.
Segundo Cruz, a visibilidade de uma Copa do Mundo também pode servir para ampliar o debate internacional sobre a situação interna dos países participantes, especialmente quando governos repressivos tentam usar grandes eventos esportivos para projetar uma imagem positiva no exterior.
“Por isso, é importante que a comunidade internacional, incluindo a imprensa e a sociedade civil, aproveite a visibilidade do evento para promover um olhar mais completo sobre a realidade desses países”, declarou.
O secretário-geral das Portas Abertas afirmou que a perseguição aos cristãos tem reforçado características diferentes ao redor do mundo.
“Em países com governos autoritários ou extremismo religioso, a perseguição tem se intensificado, com mais vigilância, prisões arbitrárias e restrições legais. Já em outras regiões, como partes da América Latina e da África, a perseguição tem se tornado mais difusa, frequentemente ligada ao crime organizado, grupos locais ou pressões comunitárias”, explicou.
De acordo com a estimativa das Portas Abertas, cerca de um em cada sete cristãos no mundo enfrenta atualmente algum nível de discriminação ou discriminação por causa da fé.

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