A divulgação de milhões de arquivos ligados ao caso do financista Jeffrey Epstein pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos atingiu políticos de diferentes países e continentes. Os nomes citados nos documentos vão desde ex-presidentes e membros de governos em exercício até diplomatas, parlamentares e membros de casas reais, em registros que incluem e-mails, fotografias, convites e conversas íntimas.
Nos Estados Unidos, os arquivos mencionam figuras conhecidas da política americana, como o atual presidente Donald Trump, o ex-presidente Bill Clinton e sua esposa, a ex-secretária de Estado Hillary Clinton. Trump aparece em fotografias antigas, convites e trocas de mensagens da década de 1990 e início dos anos 2000, período anterior à reportagem de Epstein. O presidente negou qualquer envolvimento em crimes, afirma que rompeu relações com o financeiro anos antes de sua prisão e evitou a convocação de alguns documentos.
Bill Clinton, por sua vez, acompanhou ter viajado em aeronaves de Epstein em missões ligadas à Fundação Clinton, mas afirma que nunca esteve na ilha do financeiro e nega irregularidades. Hillary Clinton declarou não ter mantido relação relevante com Epstein. Ambos concordaram recentemente, após pressão pública devido ao novo lote de arquivos, prestar depoimento ao Congresso no âmbito das investigações legislativas sobre o caso.
Ainda nos EUA, os documentos também citam nomes como Howard Lutnick, o atual secretário de Comércio, Elon Musk, Bill Gates, o ex-secretário do Tesouro Larry Summers e Steve Bannon. Nenhum deles foi formalmente acusado de crimes relacionados ao caso, mas as menções alimentares foram questionadas nas redes sociais.
Caso esquenta política europeia
O impacto político da divulgação dos novos arquivos de Epstein tem sido bastante forte na Europa. No Reino Unido, os arquivos revelaram uma relação próxima e prolongada entre Epstein e Peter Mandelson, ex-ministro do Partido Trabalhista (de esquerda), ex-comissário europeu e ex-embaixador britânico nos Estados Unidos. Os documentos disponibilizados pelo governo americano no último dia 30 mostram que Mandelson recebeu inclusive dinheiro de Epstein, bem como troca de e-mails, comentários pessoais e pedidos de aconselhamento político.
A amplitude e o teor da troca de conversas entre o político de esquerda e Epstein colocaram Mandelson no centro das atenções das autoridades britânicas após a divulgação do material. O ex-ministro neste momento é alvo de investigações por parte da polícia e da União Europeia. Talvez seja, até o momento, uma figura política que mais diretamente foi atingida pelas revelações mais recentes dos arquivos sobre o financista americano.
O caso de Mandelson também está colocando em risco o governo do primeiro-ministro trabalhista Keir Starmer, que admitiu nesta quarta-feira (4) saber das ligações do ex-ministro com Epstein. Deputados britânicos, tanto da oposição conservadora quanto nacionalista quanto à base trabalhista, estão instruindo o Starmer a dar mais explicações sobre o processo de nomeação de Mandelson para cargos de destaque no seu governo. A imprensa britânica informou que o caso pode deixar o governo Starmer, que já enfrentou baixa popularidade, em xeque.
O caso também atingiu em cheio – novamente – a monarquia britânica, já que a divulgação dos arquivos trouxeram fotos no mínimo de problemas envolvendo o ex-príncipe Andrew Mountbatten-Windsor, alimentando ainda mais questionamentos em torno do quão próxima era de Epstein e de seus crimes.
Crise na monarquia norueguesa e política em xeque na Eslováquia
Na Noruega, os documentos foram colocados sob forte escrutínio na princesa herdeira Mette-Marit. Os arquivos indicam que ela manteve contato íntimo com Epstein e chegou a se hospedar em uma de suas propriedades nos Estados Unidos, mesmo após sua reportagem sobre crimes sexuais em 2008. Em troca de conversas, Mette parece ser bastante próxima de Epstein. Em um dos arquivos, ela chegou a desejar feliz aniversário para o financista. Em outro, a princesa herdeira pediu dicas sobre como lidar com seu filho, Marius Borg Høiby. Ela também ofereceu “dicas” para Epstein quando o financista disse que estava procurando uma esposa.
A revelação ocorre em um momento já sensível para a família real norueguesa, que enfrenta também o julgamento de Marius Borg por múltiplos crimes em um processo que atraiu ampla atenção pública e política no país. Após a divulgação dos novos documentos, uma pesquisa realizada na Noruega mostrou que uma parcela expressiva da população passou a questionar se Mette-Marit deveria se tornar rainha. Segundo o levantamento, cerca de 47,6% dos entrevistados afirmaram que ela não deveria ocupar a carga no futuro, enquanto aproximadamente 28,9% disseram apoiar sua ascensão ao trono.
O primeiro-ministro norueguês, Jonas Gahr Støre, criticou publicamente a postura da princesa, dizendo que ela declarou “falta de discernimento” ao manter contato com Epstein. Nesta semana, em meio ao agravamento da crise envolvendo a monarquia, o Parlamento da Noruega votou uma proposta que colocava em discussão a manutenção do modelo monárquico no país. A iniciativa acabou rejeitada por ampla maioria, com os parlamentares optando por preservar uma monarquia constitucional.
Após a divulgação dos novos arquivos, a princesa Mette pediu desculpas publicamente, afirmou ter demonstrado “pouco discernimento” ao manter o contato com Epstein e declarou solidariedade às vítimas.
Na Eslováquia, os arquivos de Epstein atingiram o ex-ministro das Relações Exteriores Miroslav Lajčák, que decidiu renunciar ao cargo de conselheiro de segurança nacional que estava ocupando no atual governo do país após a divulgação de mensagens trocadas com Epstein entre os anos de 2018 e 2019, nos arquivos disponibilizados em janeiro. As comunicações incluem comentários de teoria considerada imprópria e referências a encontros.
Lajčák autorizou ter contato com Epstein, mas afirmou não ter tido conhecimento nem participação nos crimes do financista. Os documentos também mencionam o atual presidente da Eslováquia, Peter Pellegrini, e o primeiro-ministro Robert Fico, citados em e-mails de terceiros. Ambos negaram qualquer relação direta com Epstein.
Eleições de meio de mandato nos EUA sob a sombra do caso Epstein
Os Estados Unidos realizam neste ano as eleições legislativas de meio de mandato que devem ser decisivas para a continuidade do programa de governo do presidente Donald Trump. Atualmente, o Partido Republicano, legenda do presidente, controla as duas casas do Congresso.
A divulgação dos arquivos de Epstein já está agitando neste momento o debate político em Washington. Os democratas estão utilizando a divulgação dos arquivos para criticar o governo Trump e tentar associar a administração republicana ao financeiro morto em 2019. Entre os republicanos, a estratégia tem sido outra. Os parlamentares do partido passaram a concentrar o foco no ex-presidente Clinton, que aparece em fotos e documentos divulgados pelo Departamento de Justiça.
Um levantamento divulgado pela Fox News no último dia 29 de janeiro mostra que 52% dos candidatos americanos preferem dizer candidatos democratas ao Congresso, contra 46% que reivindicam apoio republicanos. Outros institutos também apontam vantagem democrata.
Historicamente, o partido que ocupa a Casa Branca tende a enfrentar perdas nas eleições de meio de mandato. Desde a Segunda Guerra Mundial, em média, o partido do presidente em exercício nos EUA perde cerca de 26 cadeiras na Câmara dos Deputados e 4 no Senado nesses pleitos. Em apenas algumas graças raras, como em 1998 com Bill Clinton e em 2002 com George W. Bush, o partido do governo conseguiu ganhar assentos.
Para a especialista em finanças e tributação Adriana Melo, as revelações dos arquivos de Epstein podem acabar tendo impacto limitado nas eleições deste ano. Um analista destacou que, historicamente, os escândalos nacionais costumam ter efeitos mais claros nas eleições presidenciais do que nas disputas legislativas.
“Há potencial (do caso Epstein impactar as eleições), mas o cenário mais provável é impacto limitado e localizado”, disse ela à Gazeta do Povo. “As eleições intermediárias (como as eleições de meio de mandato nos EUA) são decididas em distritos e estados específicos, e o eleitor médio consome narrativa, não milhões de páginas”, afirmou.
Na avaliação de Adriana, tanto os democratas quanto os republicanos correm risco de desgaste político com as recentes revelações, mas o efeito imediato tende a recair com mais força sobre quem está no poder – no caso, os republicanos.
“Os dois partidos têm risco de desgaste (por causa das revelações), mas o custo político imediato costuma cair mais sobre quem governa, porque a discussão vira também sobre execução”, explica Melo.
Para Alexandre Pires, professor de Relações Internacionais e Economia do Ibmec-SP, “o caso Epstein já circula há muitos anos, o que reduz o impacto emocional sobre o eleitorado. Mas a quantidade de arquivos divulgados agora pode trazer material desconhecido e que pode ser explorado eleitoralmente”.
Segundo o professor, o escândalo atingiu a forma ampla do establishment americano.
“O caso Epstein lançou suspeitas sobre todo o espectro da elite política e econômica americana, tamanha era a rede de contatos de Epstein”, disse. Ele explica que “o dano (eleitoral) será maior no partido que tenha figuras importantes que venham a ser vistas como cúmplices de Epstein”.

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