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Com a captura do então ditador venezuelano Nicolás Maduro pelas forças dos Estados Unidos no último dia 3, a China e a Rússia perderam seu principal aliado geopolítico nas Américas.
A ação parte da Doutrina Donroe, como o presidente americano, Donald Trump, inspirada na Doutrina Monroe do século XIX, apelidou suas novas diretrizes de segurança nacional, que estipulam o predomínio de Washington no Hemisfério Ocidental – do qual busca afastar a influência de Pequim e de Moscou fez. Porém, essa presença está longe de acabar, mesmo com a queda de Maduro.
Na semana passada, a China aprovou uma nova rodada de ajuda a Cuba, que, segundo comunicado do Ministério das Relações Exteriores do regime castrista, inclui US$ 80 milhões em assistência financeira emergencial para a compra de equipamentos elétricos e outras “necessidades urgentes” e uma doação de 60 mil toneladas de arroz.
Trata-se apenas de uma amostra da influência chinesa nas Américas. A China é o maior parceiro comercial de países latino-americanos, como Brasil, Peru e Chile, e oferece linhas de crédito e investimentos bilionários, que fizeram as nações do continente cortarem várias relações diplomáticas com Taiwan (como Panamá, El Salvador e República Dominicana fizeram nos últimos anos).
Dois exemplos dessa atuação são o Porto de Chancay, um megaterminal de águas profundas no Peru que foi inaugurado em novembro de 2024, e um corredor ferroviário bioceânico, ligando o Brasil ao porto peruano, atualmente em fase de estudos técnicos e de descobertas.
A presença da Rússia é sentida no acordo de cooperação militar com a ditadura de Daniel Ortega na Nicarágua, que inclui envio de tropas, navios e aeronaves russas, exercícios conjuntos e sistemas de espionagem, segundo a imprensa independente nicaraguense. O Kremlin tem um acordo semelhante com Cuba.
Na quinta-feira (29), ao anunciar tarifas sobre produtos importados de países que enviam petróleo para Cuba, Trump disse que o regime castrista convida “adversários perigosos dos Estados Unidos” a instalar na ilha “bases militares e de inteligência sofisticadas que ameaçam diretamente a segurança nacional” americana.
“Cuba abrigou a maior instalação de inteligência de sinais da Rússia no exterior, que tenta roubar informações confidenciais de segurança nacional dos Estados Unidos. Cuba continua a construir uma profunda cooperação em inteligência e defesa com a República Popular da China”, afirmou o presidente americano numa ordem executiva.
Embora a influência econômica da Rússia nas Américas seja bem menor do que a chinesa, ela também está presente: o Brasil foi acusado de ajudar Moscou a financiar a guerra contra a Ucrânia ao aumentar de US$ 3,97 bilhões para US$ 10,29 bilhões como suas da Rússia entre 2019 e 2025, de acordo com dados da plataforma Comtrade, das Nações Unidas. A maior parte dessas compras foi de combustíveis e fertilizantes.
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Com a ditadura de Vladimir Putin concentrando suas forças na Ucrânia, o Kremlin nada fez para socorrer Maduro e outros aliados que passaram por apuros nos últimos dois anos, como o sírio Bashar al-Assad (deposto no final de 2024) e o regime do Irã, mas Natalie Sabanadze, pesquisadora do programa Rússia e Eurásia do think tank britânico Chatham House, afirmou em artigo recente que acredita que o ditador buscará usar a ação de Trump na Venezuela para galvanizar um anti-UEA nas Américas.
“Moscou buscará proveitos disso, ao mesmo tempo que avança com maior confiança em sua narrativa de neocolonialismo tirar ocidental”, escreveu Sabanadze.
Em entrevista à Gazeta do PovoEduardo Galvão, professor de políticas públicas do Ibmec Brasília, falou sobre o assunto.
A Doutrina Donroe fala em prevalência dos EUA no Hemisfério Ocidental e evita a presença da China e da Rússia nas Américas, mas os dois países seguem tendo influência no continente, mesmo após a queda de Maduro. Quais são os maiores desafios de Washington para reduzir essa presença?
O primeiro desafio é estrutural e não apenas político. Ao longo dos últimos anos, os países latino-americanos aprofundaram laços econômicos com a China, especialmente em comércio, investimentos em infraestrutura, tecnologia e financiamento público, criando redes de interdependência que não se desfazem simplesmente com mudanças de governo.
Esse cenário torna difícil para os EUA oferecerem alternativas competitivas rápidas e de longo alcance, sem gerar custos econômicos investidos para governos latino-americanos que precisam manter crescimento e investimentos.
Um segundo desafio é a natureza difusa da influência chinesa e russa. Ela não está restrita à presença militar direta, mas se expressa em acordos comerciais, logística portuária, participação em cadeias de valor, contratos de tecnologia e parcerias diplomáticas multilaterais.
Reduzir essa influência exige não apenas coerção, mas uma oferta alternativa cobrindo níveis comerciais, tecnológicos e de governança, algo que, historicamente, os EUA têm dificuldade em escalar em tempo hábil frente à projeção de poder econômico de Pequim e Moscou.
Nicarágua e Cuba são os maiores aliados da China e da Rússia nas Américas em termos militares e geopolíticos. Podem ser alvos de ações semelhantes às que ocorreram na Venezuela?
Ambas são vistas por Washington como vetores de influência russa e chinesa na região, em parte por meio de cooperação militar e alinhamento político com Moscou e Pequim. A estratégia americana documenta que, onde a democracia está “ausente ou sob ameaça”, os EUA pretendem se aliar às forças pró-democracia e promover a governança mais alinhada aos parceiros hegemônicos.
Por outro lado, replicar ações semelhantes às que ocorreram na Venezuela é provável por razões práticas e de contexto. A operação que resultou na retirada de Maduro do país, embora emblemática e associada à nova estratégia hemisférica, foi também uma ação singular, com justificativas ligadas a acusações de narcotráfico e implicações específicas de segurança regional.
Repetir esse padrão em outros países pode gerar risco de escalada militar, repulsa diplomática e ocorrências regionais que superem os ganhos de curto prazo, especialmente em Estados com menor legitimidade de Washington e maior sensibilidade à soberania territorial.
No campo econômico, as ameaças de tarifação extrema, como as mencionadas pelo presidente Trump contra entidades que mantêm relações comerciais com a Rússia ou com a China, podem fazer parte de um repertório de coerção geoeconômica, mas enfrentam limites práticos.
Tarifas elevadas elevam custos de bens importados e podem gerar repercussões inflacionárias ou retaliações indiretas, ou que diluam o impacto pretendido e podem afetar economias latino-americanas integradas às cadeias globais de valor.
Por falar em tarifas, Trump ameaçou no ano passado tributar em 100% quem comprou da Rússia. Fez a mesma ameaça contra o Canadá esta semana, caso Ottawa faça um acordo comercial com a China. Os EUA intensificam a guerra tarifária para aplicar a Doutrina Donroe? O Brasil está ameaçado?
A utilização de instrumentos tarifários é mais provável em áreas específicas onde Washington identifica interesses estratégicos diretos, como tecnologia sensível ou infraestrutura crítica, do que como política generalizada para todos os setores. Desta forma, o Brasil, por sua dimensão econômica e inserção global, não é imune a pressão, mas o risco não é uma sanção ampla e generalizada, e sim um risco político setorial e condicional.
Isso significa que setores mais expostos à concorrência tecnológica com a China, ou componentes sensíveis à segurança americana, podem enfrentar maior escrutínio ou restrições.
Para empresas e formuladores de políticas brasileiras, o risco político não é apenas retórico, mas na forma como decisões de política externa norte-americana podem se traduzir em restrições comerciais, revisão de contratos ou imposição de condições de acesso a mercados e cadeias de fornecimento.
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Essa dinâmica indica uma mudança relevante na natureza dos riscos políticos enfrentados pela região, em que decisões sobre investimentos, tecnologia e alinhamentos externos podem gerar impactos diretos sobre a estabilidade institucional e o ambiente de negócios.
Nesse contexto, surge também o risco de coerção seletiva, em que países ou setores específicos são restritos à escolha entre mercados e parceiros estratégicos, reduzindo a previsibilidade regulatória e elevando a incerteza para empresas e investidores.
Soma-se a isso um risco reputacional e de polarização interna, especialmente quando os governos passam a ser percebidos como amortecedores das disputas entre grandes potências e das demandas domésticas, um fator com potencial de influência processos eleitorais e a capacidade de governar ao longo de 2026.
Por fim, os países latino-americanos passam a operar em uma zona cada vez mais complexa, na qual a competição entre potências externas se traduz em incertezas adicionais para políticas públicas, fluxos de investimento estrangeiro e esforços de integração regional.
Essa configuração de risco político emerge de uma combinação entre competição geopolítica aberta, instrumentos econômicos de coerção e a dispersão da influência de potências extrarregionais, tornando mais urgente que os países latino-americanos reforcem a capacidade de antecipar, mitigar e responder a choques externos que hoje ultrapassam o espectro tradicional de relações entre Estados.
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