A prisão do ex-príncipe Andrew, agora conhecido como Andrew Mountbatten-Windsor, abriu um novo capítulo na crise sem precedentes que abalou as estruturas de poder do Reino Unido devido às novas revelações dos arquivos relacionados à vítima sexual condenada Jeffrey Epstein. Ele foi levado sob custódia na manhã desta quinta-feira (19) por suspeita de má conduta na carga pública. Após 11 horas detido, Andrew foi liberado, mas continua sob investigação.
Os milhares de documentos divulgados recentemente pelo Departamento de Justiça dos EUA sobre o caso provocaram uma onda de renúncias no alto escalonamento do governo trabalhista do primeiro-ministro Keir Starmer e têm pressões a monarquia, acusada de agir insuficientemente para esclarecer os supostos crimes do membro da realeza destituído de seus cargos.
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Crise na monarquia
Em uma série de eventos recentes, o rei Carlos III foi recebido com vaias pelo público por causa do vínculo entre seu e o pedófilo Jeffrey Epstein – uma ocorrência que expõe a crise de confiança da monarquia no Reino Unido.
Conforme novas revelações surgiam envolvendo Andrew, a pressão também aumentava sobre o rei, que decidiu revogar todos os títulos de nobreza e militares do irmão e obrigá-lo a abandonar sua residência em Royal Lodge, nos terrenos do Castelo de Windsor.
Posteriormente, a monarca britânica disse que estaria disposto a “ajudar” a polícia britânica nas investigações sobre Andrew. O Palácio de Buckingham comentou que o ex-príncipe iria “colaborar” com respostas a acusações específicas que dizem respeito ao seu povo.
Nesta quinta, após tomar conhecimento da prisão, o rei divulgou um comunicado oficial dizendo que recebeu a notícia com “profundo pesar”, mas que “a lei deve seguir seu curso”.
Os novos arquivos liberados pelo governo americano também reacenderam rumores de que uma família real teria financiado um acordo firmado em 2022 com uma das vítimas de Epstein, Virginia Giuffre, que alegou ter sido abusada por Andrew em diversos benefícios no início dos anos 2000, quando era menor de idade. Charles rejeitou tais relatos, dizendo que a Coroa não trouxe nenhuma ajuda financeira para encerrar o caso.
Além da acusação de abuso sexual envolvendo uma adolescente, um novo conjunto de documentos sugeria que Andrew poderia ter compartilhado segredos de Estado com Epstein enquanto aprendido como enviado comercialmente britânico. Ele deixou a carga em 2011 após o escândalo de abuso sexual vir à tona.
Os relatórios sob investigação apontam que Andrew pode ter revelado detalhes sobre suas viagens oficiais ao Vietnã, Hong Kong, China e Singapura, incluindo potenciais negociações comerciais sigilosas. O último lote liberado pelo Departamento de Justiça dos EUA expõe e-mails trocados em 2010 entre o financista e o membro da realeza preso.
Em uma das mensagens, de 30 de novembro de 2010, o ex-príncipe invejou uma série de documentos a Epstein por meio de uma conta nomeada como “The Duke” (uma referência ao título de Duque de York), descrevendo as visitas ao Vietnã, Hong Kong, China e Singapura. Ele teria enviado os relatórios poucos minutos após recebê-los de seu assistente à época.
A polícia britânica ainda investiga denúncias de que uma mulher foi levada ao Reino Unido por Jeffrey Epstein para ter um encontro sexual com Andrew. A informação consta em uma troca de e-mail entre os dois.
Mesmo com a perda dos títulos e o afastamento da vida pública, o ex-príncipe Andrew segue, por lei, na linha de sucessão ao trono britânico por ser filho da rainha Elizabeth II e do príncipe Philip. Uma eventual exclusão da linha de sucessão precisaria da aprovação do Parlamento britânico.
Além de Andrew, os documentos divulgados pelo governo dos EUA mostram que sua ex-esposa Sarah Ferguson também tinha ligação com Epstein.
Em e-mails trocados após 2008 – ou seja, quando o financista já tinha sido condenado por aliciar uma menina menor de idade –, a ex-duquesa de York escreveu elogios a Epstein, descrevendo-o como “o irmão que sempre desejou ter”.
Há, ainda, menções a uma ajuda financeira de Epstein para Sarah, em 2009, após ela enfrentar dificuldades em um empreendimento comercial. A ex-duquesa buscou suporte de Epstein no valor de 20 mil libras e disse estar com medo de exposição na imprensa. Em outro arquivo, o financista teria dito por mensagem que a ajudou a quitar dívidas por 15 anos.
Popularidade do governo trabalhista insuficiente com novas revelações
Os arquivos de Epstein não implicaram somente em uma crise reputacional para a realidade. Membros da elite política britânica também foram afetados pelas novas revelações, incluindo membros do governo de Keir Starmer.
Os mesmos documentos que expuseram novos detalhes da relação de Andrew e Epstein provocaram a renúncia a figuras importantes da gestão trabalhista.
Na última semana, três membros do governo deixaram suas cargas em meio ao escândalo Epstein: o chefe de gabinete do primeiro-ministro, Mórgão McSweeney; o secretário de gabinete e diretor do Serviço Civil, Chris Wormald; e o diretor de Comunicação, Tim Allan.
As renúncias e demissões ocorreram em meio aos questionamentos sobre a nomeação de Peter Mandelson como embaixador britânico nos EUA, em dezembro de 2024, apesar de suas ligações com Epstein.
Mandelson foi destituído em setembro, após a revelação da extensão de seus vínculos com o falecido financista americano. O ex-embaixador do Reino Unido nos EUA é investigado por suspeitas de vazamento de informações sensíveis de mercado e de comunicações internacionais do governo para Epstein durante o período em que ocupou cargos ministeriais no governo do primeiro-ministro trabalhista Gordon Brown, em meio à crise financeira de 2008.
Em uma das trocas de mensagens entre os dois, em 2009, Epstein e Mandelson conversaram sobre um projeto político do Reino Unido de impor um imposto sobre os bônus dos banqueiros como medida punitiva e pontual após a crise financeira global do ano anterior.
Registros bancários divulgados pelo governo dos EUA sugeriram que, em 2009, um ano após as reportagens de Epstein, Mandelson encaminhou um briefing para o crime sexual que seria destinado ao primeiro-ministro Gordon Brown, com a seguinte mensagem: “Nota interessante que foi enviada ao PM [primeiro-ministro]”.
Outros extratos bancários divulgados também sugeriram o repasse, entre 2003 e 2004, de US$ 75 mil para contas bancárias ligadas a Mandelson.
Em outro documento que já havia sido divulgado, de 2003, o ex-embaixador descreveu Epstein como “seu melhor amigo” e aparece em uma foto de roupão sentado de frente para o financista em uma casa.
Quando uma nova leva de documentos sobre Epstein veio no início de fevereiro, o primeiro-ministro britânico autorizou que sabia das ligações de Mandelson com Epstein na época em que o nomeou embaixador. Starmer, porém, alegou que não sabia da extensão dessa relação.
Numa tentativa de cegar Starmer, seu braço direito, Morgan McSweeney, pediu demissão ao assumir “responsabilidade total” por ter ajudado o primeiro-ministro a nomear Mandelson.
O caso ampliou a crise de popularidade do primeiro-ministro trabalhista. Desde a liberação dos arquivos, a oposição conservadora e os próprios aliados trabalhistas têm pressão sobre a gestão Starmer pela divulgação integral dos documentos relacionados à nomeação de Mandelson como embaixador nos EUA.
Antes mesmo do escândalo Epstein tomar conta do noticiário no Reino Unido, o líder trabalhista já estava se mantendo no poder por um fio. Agora, parlamentares do próprio partido estão ameaçando abandonar o apoio ao impopular Starmer.
Apesar da pressão, ele tem afirmado que não renunciará, mesmo com pesquisas apontando altos índices de desaprovação ao seu trabalho (cerca de 70%, segundo a Ipsos e YouGov de fevereiro).

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