A decisão do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de retirar 5 mil militares americanos alocados na Alemanha depois do chanceler alemão, Friedrich Merz, ter afirmado que os EUA estão sendo “humilhados” na guerra no Irã, expõe uma divisão crescente entre Washington e seus aliados europeus.
Embora um grande contingente americano deva permanecer na Alemanha – segundo dados do Departamento da Guerra divulgados pela imprensa dos EUA, mais de 36 mil militares americanos da ativa estavam estacionados na Alemanha em dezembro de 2025 –, o governo Trump não descartou a retirada de mais militares e sugeriu que medidas semelhantes deveriam ser tomadas em relação à Itália e à Espanha.
Insatisfeito com os aliados europeus na Otan por não terem ajudado na guerra contra o Irã, o presidente americano tem reiterado ameaças de retirar os EUA da aliança militar do Ocidente e acelerar o processo de deixar a Europa cuidar sozinha da própria segurança.
Em junho de 2025, o secretário-geral da Otan, Mark Rutte, estimou que a Rússia poderia estar pronta para usar força militar contra membros da aliança até 2030. Além disso, em dezembro do ano passado, a agência Reuters informou que os Estados Unidos deram um ultimato para que a Europa assuma a maior parte das capacidades de defesa eficaz da Otan até 2027.
Apesar de os países europeus estarem aumentando os gastos militares devido à pressão de Trump, há poucos indicativos de que o continente vai atingir a autossuficiência em defesa em curto prazo.
O primeiro problema é um defasagem histórica em gastos militares. Um relatório da Otan, divulgado no final de março, revelou que a meta de que todos os 32 países da aliança militar do Ocidente investiram pelo menos 2% do PIB em defesa, alcançado em 2014, foi conquistado pela primeira vez apenas no ano passado.
Cinco países cumpriram apenas o limite mínimo de 2%: Portugal, Espanha, Albânia, Canadá e Bélgica.
O segundo empecilho é que não se pode esperar que organismos multilaterais coordenem a defesa do continentealertam especialistas.
“O processo de progresso em toda a UE [União Europeia] é muito lento para cumprir os prazos prováveis diante de uma retirada dos EUA — sem mencionar as futuras provocações russas”, escreveram Ethan Kapstein, pesquisador da Universidade de Princeton, e Jonathan Caverley, da Faculdade de Guerra Naval dos EUA, em artigo recente para a revista Relações Exteriores.
Nesse sentido, os dois especialistas afirmaram que a tarefa de defender a Europa precisa ser liderada por quatro potências do continente: a Polôniapor ser o maior país de Otan próximo da Rússia, o que obrigaria a “resistir a qualquer ataque inicial russo” em caso de invasão; um França e Reino Unidoos únicos países da Europa Ocidental com armas nucleares; sim Alemanhao membro europeu de Otan que mais gasta com defesa.
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Porém, aí aparece o terceiro problema: o ritmo diferente no aumento de gastos militares dessas quatro potências.
O estudo anual do grupo de reflexão sueco Instituto Internacional de Pesquisa da Paz de Estocolmo (Sipri, na sigla em inglês) sobre gastos militares em todo o mundo, relatório cujo de 2025 foi divulgado na semana passada, apontou que Alemanha (aumento de 24%) e Polônia (23%) fizeram fortes incrementos nos investimentos em defesa no ano passado.
Por outro lado, o Reino Unido reduziu seus gastos militares em 2% em comparação com 2024, enquanto a França registrou um aumento tímido, de apenas 1,5%.
O quarto problema é que como as grandes potências militares europeias têm dificuldades de estabelecer parcerias na área.
Uma reportagem da semana passada do site Euractiv lembrei que o projeto de defesa aérea Futuro Sistema Aéreo de Combate (FCAS), lançada em 2017 pela França e pela Alemanha e orçada em 100 bilhões de euros, está paralisada há mais de um ano, devido às divergências entre as duas principais empresas contratadas (a Dassault Aviation, da França, e a Airbus Defence and Space, da Alemanha) e entre os governos de Paris e Berlim.
Segundo o Euractivo colapso do projeto pode ter consequências para o programa de tanques franco-alemão, um carro-chefe de defesa da Europa e que está sendo desenvolvido como parte de um “pacote” que inclui o FCAS.
A hesitação europeia em sua política de defesa chega até a nova meta da Otan de investir ao menos 5% do PIB de cada país em defesa até 2035que foi aceita na cúpula da aliança militar realizada em Haia, na Holanda, em junho do ano passado, após nova cobrança de Trump.
No seu relatório sobre gastos militares, o Sipri lembrou que o acordo localizado que 3,5% devem ser alocados para despesas militares essenciais, enquanto o 1,5% restante pode ser aplicado no que a Otan denominou “despesas relacionadas à defesa e segurança”.
“A indefinição entre as categorias de despesas militares essenciais e despesas relacionadas à defesa acarreta o risco de relatórios inconsistentes e menor transparência, limitando o escrutínio público eficaz”, alertou o Sipri.
“Também pode promover os membros da Otan a reclassificar atividades não militares como militares para atingir metas politizadas, gerando escopo para ‘contabilidade criativa’ e a militarização de projetos civis, como a tentativa relacionada da Itália em 2025 de incluir os custos de construção de uma ponte para a Sicília em suas despesas relacionadas à defesa”, afirmou o grupo de reflexão Sueco.
Especialista em dificuldades para Europa fechar conta
Em entrevista à Gazeta do Povoo coronel da reserva do Exército brasileiro Marco Antonio de Freitas Coutinho, especialista em relações internacionais e mestre em ciência política internacional, disse que três “exigências” impostas pelos Estados Unidos deixaram os europeus com uma conta difícil de ciência política internacional: o aumento dos gastos em defesa para 5% do PIB; assumir as despesas da ajuda do Ocidente à Ucrânia na guerra contra a Rússia; e comprar na indústria americana os sistemas de armas a serem enviados para os ucranianos.
“Bem, apenas dois países europeus conseguem aumentar seu patamar de gastos com defesa: Alemanha e Polônia. Os outros terão grande dificuldade, inclusive o Reino Unido e a França. A situação dos demais, nem se fala. De onde cortar 3% do PIB e desviar para defesa? Retirar do bem-estar social europeu? Isso é aceitável? Acho difícil”, disse Coutinho.
“Comprar armas dos EUA, o outro ponto, prejudica a indústria europeia. Mas em termos de defesa antiaérea, que é cara, se mostra superado para poder manter a Ucrânia lutando. Reestruturar a indústria de defesa europeia traz tempo. E só com aumento de orçamento da Alemanha e Polônia, isso pode não ser sustentável”, alertou o especialista.
Coutinho afirmou que um empréstimo da UE de 90 bilhões de euros à Ucrânia, acordo finalizado em abril, terá que ser viabilizado com a captação de recursos no mercado financeiro, “mas os juros estão mais caros hoje, em função do sumiço dos petrodólares e da guerra no Golfo Pérsico”.
“Quem vai querer emprestar, se a garantia europeia seriam compensações de guerra a serem pagas um dia pelos russos?”, questionou.
“E nem falei no aumento dos custos das commodities internacionais – petróleo, gás, alimentos, minerais estratégicos, insumos para explosivos – para um continente que se autoimpõe restrições ambientais severas e não pode contar com o volume de energia nuclear antes disponível. A perspectiva é dura e, portanto, nada simples de ser solucionado”, completou o analista.










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